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Reporta-se à relação entre as categorias de espaço e tempo. Composto pelas palavras gregas cronos: tempo e topos: lugar, por ele se enfatiza a indissociabilidade destes dois elementos tal como se manifesta nas representações literárias. É neste sentido geral que o conceito aparece em M. M. Bakhtin, num estudo monográfico de 1937-38 (com conclusão acrescentada em 1973), intitulado “Forms of time and of the chronotope in the novel”. O subtítulo, “Notes toward a Historical Poetics” sugere a importância que o autor atribui ao papel do cronótopo como operador da assimilação pela literatura do tempo e do espaço históricos. O cronótopo está, pois, na base do diálogo entre a literatura e a história. O modo como Bakhtin aborda a questão suscita que consideremos o cronótopo: 1) em sentido restrito,como unidade de análise narrativa que permite a aplicação a textos literários concretos, encarados na sua singularidade; 2) em sentido lato, como unidade de estudo susceptível de detectar estruturas invariantes e transhistóricas. Esta dupla operacionalidade é possível dada a natureza “bifocal” (Holquist, Dialogism, Routledge, 1990, 113) do cronótopo que (como a maior parte dos termos característicos do dialogismo) permite que ele seja utilizado como uma lupa reveladora do pormenor característico do texto único ou como o óculo adequado à visão distanciada. Por este motivo, tanto podemos apreender e caracterizar o cronótopo de um texto concreto, já que ele é “o lugar onde os nós da narrativa se fazem e se desfazem” (Bakhtin, The Dialogic Imagination, University of Texas Press, 1981, 250), como podemos falar do cronótopo característico de um autor (Tolstoi, Dostoievski, Rabelais), ou de um género, dado que: “cronótopo em literatura tem uma significação intrínseca de natureza genérica. (…) [É]precisamente o cronótopo que define género e distinções genéricas” (Bakhtin, op. Cit., 84/85). Bakhtin começa por analisar concretamente os três cronótopos correspondentes a três tipos de romance antigo: romance de aventuras com provas, romance de aventuras da vida quotidiana e romance biográfico. Relativamente ao primeiro destes (caso de Etiópica e Dafne e Cloé), caracteriza-o por abrir com uma catástrofe (rapto da noiva por piratas, por exemplo) a que se sucedem uma série virtualmente infinita de aventuras que põem à prova o herói nas suas múltiplas tentativas para salvar a rapariga de diversos tipos de opositores (monstros, malfeitores, etc), terminando com a reunião dos amantes. O tempo é “vazio” na medida em que os acontecimentos centrais não estão ligados causalmente nem deixam marcas nas personagens; o espaço é “abstracto” no sentido em que a acção poderia desenrolar-se em qualquer lugar. Depois deste tipo de análise pormenorizada e concreta, Bakhtin aproveita para mostrar como a produtividade e flexibilidade daqueles três tipos de texto e das respectivas configurações cronotópicas haveriam de permitir o desenvolvimento ulterior do romance de aventuras tal como viria a ser praticado na Europa até meados do séc. 18. Por outro lado, nas páginas finais do ensaio (escritas em 1973) o autor preocupa-se em enumerar tipos recorrentes de cronótopos: o cronótopo da estrada, do castelo, do salão, da cidade de província, do limiar. Esta oscilação constante entre a detecção de invariantes e a atenção a textos singulares sugere que: “mesmo a forma mais elementar de cronótopo, a aventura abstracta, está sujeita a condições intertextuais e históricas que transformam qualquer apropriação das suas características repetíveis numa elocução, isto é, num texto com um significado particular numa situação específica” (Holquist, op. Cit., 118). Na base de um tal tratamento do cronótopo parece estar uma poética histórica de natureza intertextual e comparativística.

{bibliografia}

Mikhail Bakhtin, “Forms of time and of the chronotope in the novel”, The Dialogic Imagination (1981); Michael Holquist “The Dialogue of History and Poetics”, Dialogism (1990).