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A relação da deíxis com a linguagem está patente na etimologia do termo, uma vez que a raiz deik-/dik- é comum a várias palavras gregas e latinas, entre as quais se encontra o latim dicere, “designar, dizer”. Às formas linguísticas que remetem e apontam para determinadas identidades designam-se por deícticos, cuja referência varia no tempo e no espaço, não se fixando no mesmo sentido, como acontece com outras palavras referenciais.

Bühler ao estabelecer a distinção entre nomear («nennen») e mostrar («zeigen»), duas formas básicas e complementares da significação linguística, reforça a especificidade da significação deíctica. Torna-se, então, evidente a coexistência de signos designativos («Zeigzeichen») e signos conceptuais («Nennwörter») nas línguas naturais. Desta forma, os deícticos passam a ser também signos linguísticos, integrados em sistemas semióticos específicos, as línguas naturais, sendo o seu funcionamento inseparável do da totalidade.

Os principais tipos da deíxis são a pessoal, a temporal e a local. A deíxis pessoal diz respeito à identidade do interlocutor, o que se traduz nos pronomes eu, tu, ele, nós, etc. Os pronomes pessoais, sujeito e complemento da primeira e da segunda pessoas gramaticais, constituem os deícticos por excelência. Em termos da teoria formal enunciativa, eu marca a localização com valor de identificação e tu marca a mesma localização, mas com valor de diferenciação – só se sabe a quem se refere, tendo conhecimento da situação de comunicação. A deíxis temporal diz respeito à orientação do tempo, estando presente nos advérbios temporais, como hoje, ontem, amanhã, etc., a deíxis local refere-se à orientação espacial do interlocutor. As expressões deícticas de local encontram-se nos advérbios de lugar como aqui, ali, além, etc.; nas preposições de lugar como à frente, atrás e nos pronomes demonstrativos (este, aquele). Dentro desta temática, V. Ehrich distingue ainda o sistema de referência posicional (aqui, ali, além) e o dimensional (à frente, atrás, à esquerda, à direita, em baixo). A diferença reside no facto de apenas na deíxis dimensional a orientação desempenhar um papel, tendo ambos os sistemas em comum o facto da referência deíctica ser dependente da posição do falante e do ouvinte.

E. Bechara distingue outros tipos de deíxis, como a anafórica e a catafórica, a deíxis ad locus e a contextual. A deíxis anafórica remete para um elemento já enunciado ou concebido; na deíxis catafórica o elemento ou não foi referido ou está ausente no discurso. Por sua vez, a deíxis contextual aponta para um elemento inserido no contexto, como os pronomes relativos. Sempre que um elemento seja presente ao falante fala-se em deíxis ad locus. Nesta perspectiva, torna-se relevante referir K. Brugmann, que, em 1904, estabeleceu quatro tipos de deíxis em relação à posição do falante, nomeadamente, ‘este-deíxis’, ‘eu-deíxis’, ‘tu-deíxis’ e ‘aquele-deíxis’. K. Bühler acrescenta ainda uma deíxis espacial, a ‘deíxis em fantasma’, que refere indicadores do reino ausente ou da fantasia (mas recordado pelo narrador e transmitido ao ouvinte). Assim, o ouvinte consegue ver e/ou ouvir os indicadores que o narrador está a transmitir.

Devido às dúbias interpretações que as expressões deícticas suscitam, muitos são os equívocos que surgem na comunicação (escrita ou oral). De modo a evitar tal ocorrência, tem de ser garantida a informação precisa ao leitor/ouvinte quanto à situação de comunicação para poder localizar os referentes dessas expressões.

Na terminologia linguística portuguesa, Herculano de Carvalho foi o introdutor dos termos «deíxis» e «deíctico»: “Temos finalmente a significação deíctica ou mostrativa (a deixis), a qual consiste na significação realizada por certas formas linguísticas que equivalem a um gesto ou, melhor ainda, o acompanham ou esclarece, mostrando um objecto pertencente ao contexto real (extra-verbal), ou que já foi ou vai ser imediatamente mencionado no contexto verbal.” (Teoria da Linguagem, Tomo I, Atlântica Editora, Coimbra, 1967, p.209). Apesar do rigor da definição, a mesma erra por não lhe identificar o papel de sui-referencialidade da linguagem numa teoria de significação linguística.

{bibliografia}

Herculano de Carvalho: Teoria da Linguagem (1967); H. C. Campos e M. F. Xavier: Sintaxe e Semântica do Português (1991); Fernanda Irene Fonseca: Deixis, Tempo e Narração (1992); V. Ehrich: Hier und Jetzt. Studien zur lokalen und temporalen Deixis im Deutschen (1992); Monika Schwarz e Jeannette Chur: Semantik (1993); Peter Rolf Lutzeier: Lexicologie (1995); Angelika Linke: Studienbuch Linguistik (1996); Jörg Meibauer: Pragmatik (2001);

http://www.sil.org./linguisticos/GlossaryofLinguisticsTerms/What]sDeixis.htm

http://www.gxnu.edu.cn/Personal/szlin/deixis.html