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Dois dicionários-fundadores – o  Dicionário do Folclore Brasileiro (1954), de Luís da Câmara Cascudo, e o Dicionário Histórico das Palavras Portuguesas de Origem Tupi, de Antônio Geraldo da Cunha (1979) – discutem aspectos fulcrais  da cultura brasileira. Como procedimento discursivo, a polifonia ajuda-nos  a entender, no primeiro dicionário-enciclopédia brasileiro, a  construção do campo de conhecimento do folclore e da cultura nacionais. Sem deixar de lado a possibilidade de incorporação de algum novo critério  para os verbetes do Dicionário do Folclore Brasileiro, partimos,  como protocolo de leitura,  da análise de Cunha para abordar os verbetes do dicionário de Câmara Cascudo. São as seguintes as partes integrantes da proposta de Cunha:  voz, guia (também reconhecidos como lema), dados cronológicos sobre variantes etimológicas, definição, parte paradigmática e parte sintagmática (onde pode haver exemplos de uso, citações bibliográficas e depoimentos, variando de um autor a outro). 

Cabe, agora, uma breve apresentação dessas obras. O  Dicionário do Folclore Brasileiro, de Câmara Cascudo, historiador, folclorista, antropólogo, advogado e jornalista brasileiro – que nasceu em Natal-RN, em 30 de dezembro de 1898, e lá morreu em 30 de julho de 1986 -, tem cerca de 3000 entradas, distribuídas em mais 800 páginas. Não se apresenta uma explicação da estruturação dos verbetes; as perspectivas cultural, lexicográfica e epistemológica e a conjuntura de produção  indicam o predomínio do método etnográfico. Por outro lado, cabe notar que, durante o longo período da sua elaboração, o campo do folclore estava sendo  constituído; as práticas culturais foram percebidas, descritas e comentadas em busca de uma síntese entre um Brasil “popular” e um Brasil  que queria emergir do plano das idéias, o chamado “Brasil do progresso”.Nos verbetes cascudianos, o enciclopedismo ganha toques pitorescos, como, por exemplo,  quando explica sobre o “jenipapo”, o Autor conta a experiência do corpo tingido com o extrato da fruta tropical que não saiu por vários dias; em conceituação, é raro esse tipo de depoimento, que seria “folclórico”;  ou, ainda,  no verbete “choferes de caminhão”, que assume um  toque épico, dado que  os trabalhadores das estradas são entendidos como agentes culturais que fazem a cultura viajar de um lado a outro, como, aliás, os tropeiros nos sertões de Minas Gerais. No caso da literatura de cordel, o pesquisador prevê, hoje sabemos que equivocadamente, o seu fim. E em “cachimbo”, aprendemos que o instrumento tem origem nas matas americanas, mas o verbete correspondente não fica aí: com quatro acepções para o lema, “cachimbo” é porta de entrada para conhecer a realidade do sertão, com sua problemática cultural, e solicita novas consultas. Um caminho que pode terminar, quem sabe, numa saga sertaneja, como a de Grande Sertão: Veredas (1956), do mineiro João Guimarães Rosa (1908-1967).    Ao serem descobertos, os verbetes cascudianos são como caixas de Pandora, com suas variadas possibilidades de estruturação, um jogo livre que convida o leitor ao exercício da pesquisa  e da análise sistematizada.  

Já o Dicionário Histórico de Palavras Portuguesas de Origem Tupi, de Antônio Geraldo da Cunha (1928-1999), editado em 1976, vem acompanhado de um prefácio do carioca  Antônio Houaiss (1915-1999),  que destaca nuances dos empréstimos registrados, explorando as possibilidades de incorporações em diferentes momentos do contacto entre as duas línguas, entre negociações e tensões, que refletem momentos diferentes de ambas as línguas.   Os verbetes tratam do que já está instalado no português brasileiro e são apresentados nas seguintes partes, propostas pelo Autor: “título”, “categoria gramatical”, “cronologia das variantes”, “etimologia”, “definição”, “digressão enciclopédica” e “passagens abonatórias”.  Com os recursos gráficos, espacialização e numeração que favorecem às consultas, é possível transitar pelos textos escritos nos séculos de contacto, onde estão os registros  dos empréstimos, situados na parte paradigmática dos artigos – “passagens abonatórias”.  Na tópica que o Autor nomeou   “digressão enciclopédica”,  visualiza-se  o papel do pesquisador, que se deve tornar  enciclopedista.  Além disso, é então que  se dão as maiores oportunidades de lançar-se ao jogo intertextual , na medida em que o consulente remete-se de um verbete a outro,  também de um texto a outro, se a leitura do fragmento o incita a novas pesquisas para além do dicionário. É o que ocorre, por exemplo, ao ler o verbete “tucumã”, em  que uma citação  leva à reflexão sobre o mito de Pindorama (País das Palmeiras), o “Brasil-tupi”, almejado pela antropofagia cultural, alegoria que exalta as palmeiras nativas, símbolo de nacionalidade que já se apresentara no primeiro verso da “Canção do Exílio” (1843) – “Minha Terra tem palmeiras” -, que abre o livro Primeiros cantos (1946), do maranhense Gonçalves Dias (1823-1864). De notar que, em 1858, esse poeta romântico publicou o Dicionário da Língua Tupi chamada língua geral dos indígenas do Brasil. Considerado um neo-romantismo, na medida em que trata, quase à exaustão, da identidade nacional, o modernismo brasileiro, eclodido em 1922,  refere, igualmente, termos indígenas, como em  Macunaíma (1928) – romance-paradigma daquela estética da metade do século XX -, onde  Mário de Andrade (1893-1945) descreve, nestes termos,  a vegetação  amazônica: “os manos entraram num cerrado cheio de irajás ouricuris ubussus bacabas mucajás mitiris tucumãs trazendo no curuatá uma penachada de fumo em vez de palmas e cocos”. De uma palmeira a outra, encontramos o verbete “ piaçaba”, em que o Autor de Dicionário Histórico de Palavras Portuguesas de Origem Tupi incorporou fragmento de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, que se desvia da  exaltação da paisagem tropical na analogia entre a fibra da piaçaba e a barba de um sertanejo:  “Baiano, barba de piassaba: goiano-baiano. O pobre, que não tinha as três espigas de milho em seu paiol. Meio sarará”.    O dicionário de Antônio Geraldo da  Cunha visa primordialmente a contribuir para o desenvolvimento dos estudos e da lexicografia histórica portuguesa. Na opinião de Antônio Houaiss, “o dicionário é de um valor tal que passará a ser necessariamente ponto de referência para quanto se fizer sobre as modalidades falada e escrita do português do Brasil…”.Nesse dicionário fundador, a questão central são os tupinismos, ou seja, os termos “aportuguesados” e seus derivados. “Entendemos por tupinismos os traços lingüísticos do português do Brasil, oriundos de empréstimos tomados ao tupi. De forma essencial, esses empréstimos alicerçaram-se no léxico e representam ‘fundamentalmente empréstimos lexicais íntimos’, na opinião de J. Mattoso Câmara Jr. (1981, p. 236), abarcando diversificados aspectos da vida humana associativa, do ecossistema, do meio ambiente: topônimos, antropônimos, nomes da fauna e da flora, fenômenos da natureza, utensílios, alimentos, usos e costumes, festividades, radicais de origem tupi, frases, etc., numa valiosa contribuição à geografia lingüística, notadamente no setor de palavras e coisas” (OLIVEIRA et alii, 1998 ).Sabemos que tudo  isso é resultado de um longo processo de assimilação que advém dos tempos da  Colônia, mas o debate nacionalista, instalado no século XIX, é o que dá lugar ao debate sobre a “língua brasileira”. A literatura joga aí um papel fundamental, sobretudo com  os movimentos romântico e modernista. O dicionário visualiza esse trajeto entre   Iracema (1865), do cearense  José Alencar (1829-1877), e o Reino de Pindorama, descrito e sonhado no “Manifesto Antropófago” (de 1928, significativamente mesmo ano de Macunaíma),  do paulistano  Oswald de Andrade (1890-1954), espaços simbólicos inspiradores de projetos intelectuais que reconheceram um português falado no Brasil, afastado do cânone europeu. A paródia “tupy or not tupy: that is the question”, inscrita, contundentemente,   no “Manifesto Antropófago” (ou “Manifesto Antropofágico”, retoma o debate iniciado no século XIX; o manifesto  está assim  assinado: “Oswald de Andrade. Em Piratininga Ano 374 da Deglutição do Bispo Sardinha. (Revista de Antropofagia, Ano 1, No. 1, maio de 1928.)”.  A  língua “popular”,  falada pelos brasileiros, passou a freqüentar salões intelectuais e acabou por ser objeto de pesquisa, por exemplo, do paulistano  Mário de Andrade (1893-1945), e de experimentos poéticos do pernambucano  Manoel Bandeira (1886-1968). Em “Lundu do escritor difícil”, de 1928, Mário aborda, por exemplo,  a identidade cultural e a forma de falar do caipira, onde o primitivo inspira o moderno: “Fale fala brasileira / que você enxerga boio / Tanta luz nesta capoeira”. Cunha utiliza vinte e cinco autores entre os dois movimentos que sustentam seu trabalho de campo. Possivelmente sem esse suporte da literatura (e da imprensa à qual esteve vinculada, especialmente no século XIX),  tal pesquisa seria dificultada; são os alicerces da arquitetura projetada para os verbetes de seu dicionário, dispostos de maneira a dar conta do apanhado feito nos textos da literatura brasileira, predominantes de maneira absoluta como notação abonatória na pesquisa, apresentada com destaque nos verbetes. Tais textos são a principal referência na hora de comprovar a passagem dos termos de origem tupi ao português brasileiro, instalados na língua escrita, reflexos de uma incorporação iniciada no período colonial e condensada nos séculos posteriores. No Cunha, se partirmos do lema “caboclo”, com vigência diacrônica, diatópica e semântica no português, desdobrando-se em “cabocla”, “caboclinho”, “caboclinha”, “caboclada” e “caboclismo”, vemos a referência tanto ao índio como ao mestiço ou ao trabalhador rural. A  documentação levantada é tardia, do século XIX avançado (primeiro  registro em 1872), mas talvez seja uma corruptela de “caipora”, do século XVIII, também termo tupi,  “habitante da mata”, cujo primeiro registro reconhecido por Cunha está no romance Til (1871), de Alencar; daquele homem rude do campo à festa junina, alcança difusão geográfica nacional e vai ganhando valor positivo. O consulente  passeia de um termo a outro: “caipira”, “caipora”, “caboclo”, “cabocla”, “caboclinho”, “caboclinha”, num  jogo intertextual, que pode sair da obra e ganhar novos rumos, nos livros e nos textos de suporte virtual, complementando, renovando ou modificando o campo léxico. E este consultor, leitor, pode ser um estudante ou professor, em todo caso, um pesquisador.  

Uma questão da história política do século XIX brasileiro pode ser o pontapé para uma nova série de consultas, partindo do termo ou vice-versa. Referimo-nos, como exemplo, à série iniciada com o termo “bocaiúva”,  que propomos seja apresentado assim: “A Rua Quintino Bocaiúva, esquina com a Avenida Cristóvão Colombo, foi liberada  ao tráfego normal de veículos na manhã deste sábado”. “Bocaiúva” é o nome tupi de uma palmeira, termo escolhido por um jornalista e ativista republicano carioca , Quintino Bocaiúva (1836-1912), que acrescentou a seu sobrenome português  – Ferreira de Sousa – o nome comum a duas espécies nativas de palmeiras da  fauna brasileira, afirmando, assim, o nativismo; hoje o termo está associado a nome de bairro e a nome de rua, no Rio de Janeiro (geonômio, no jargão de Houaiss), em função da militância do republicano, graças ao personagem mais do que ao étimo da fauna nativa. A transferência do termo deve-se a um ator que o leva ao “vocabulário ativo” (SALA) de uma língua que se queria brasileira.  “Saquarema”  também é um fruto, político, de uma tupinização consciente, designando um grupo conservador do Império. Batizando a bela cidade da Região dos Lagos, no Estado do Rio de Janeiro, o signo “Saquarema”, celebrado em prosa e verso (MUCCI, 2009), traduz-se por “Lagoa sem conchas” ou “ socó- rema” (“socó” é nome tupi de um pássaro).   Já  “emboaba” designa para os indígenas, na época colonial, os “brancos” que entravam no sertão buscando ouro, por extensão forasteiro, mas, no século XVIII, nas crônicas de Antonil (Giovanni Antonio ou João Antônio Andreoni, jesuita italiano, que adotou o nome André João Antonil – Lucca, Toscana,  1649 – 1716),   o termo denota a diferenciação com os paulistas “bárbaros”: os portugueses eram  reconhecidos com um termo indígena que representa a antítese da barbárie, possivelmente pelo uso de calças que cobriam as pernas, de maneira semelhante a certas aves que têm as penas chegando até o extremo das patas. História, etimologia, literatura, alteridade, política e jornalism:  questões para o debate a partir do  recurso de usar dicionários e fazer com  que seus verbetes dialoguem, nas invisíveis relações polifônicas, para além dos seus falsos silêncios. Os desafios que se apresentam à dicionarística brasileira nos nossos dias radicam em vários âmbitos. Sem dúvida na arena política, que tanto tem dado o que  falar, literalmente, estaria um deles, colaborando, à sua maneira, com a vitalidade do português brasileiro e da consciência política nacional.  

O século XX se caracteriza pelo desenvolvimento de uma dicionarística brasileira. A definição e consolidação de uma política nacional de integração realizada pelo Estado nacional naquele século é acompanhada de iniciativas de construção de atlas lingüísticos regionais e também nacionais, na segunda metade do século, ainda quando os avanços não chegam a responder à magnitude do conjunto das questões lingüísticas do Brasil.  Os condicionamentos não foram e não são exclusivos de algum ramo específico da lingüística;  se houve desafios para um mapeamento geográfico país afora também os houve para adentrar pelos espaços das tribos urbanas em busca de uma gíria própria.  Ao longo do percurso fica visível o amadurecimento do campo científico, o que se reflete, entre outras formas, no ramo da dicionarística. No entanto, a atividade de levantamento lexicográfico não foi e não é monopólio científico (e mais: deve-se muito ao trabalho, árduo sem dúvida, de filólogos que atuaram fora das academias; até porque elas nem sempre estiveram presentes na história deste ramo de pesquisa, especialmente no Brasil, país de desenvolvimento tardio de universidades). E também pequenos dicionários,  sobretudo, foram escritos por leigos, às vezes como forma de passatempo ou diversão ou com conotações humorísticas, além das iniciativas que registram a fala de cada Estado.Ressalte-se que  a literatura brasileira prima  por lidar com as línguas indígenas: escritores do século XIX e XX pesquisaram questões sócio-lingüísticas em prol das suas propostas estéticas. Se, no século XIX,  Gonçalves Dias e José de Alencar  organizaram glossários de termos tupis, no século XX os modernistas deram continuidade a essas inquietudes: Mário de Andrade fez pesquisas etnográficas que não descuidaram das questões lingüísticas e João Guimarães Rosa realizou experimentos com a linguagem só possíveis de realizar-se por quem conhece profundamente o idioma nas suas variantes sócio-dialetais e inclusive nos contactos com outras línguas. Como falam e falavam os matutos, os caboclos,  os caipiras, os malandros, enfim os homens, as mulheres e as crianças, na sua maioria pobres, que representam a síntese do País: alvo do interesse dos artistas da criação de uma arte que se identificava como brasileira. O que resultou numa abertura intelectual com respeito aos falares brasileiros, que muito se deve  às pautas dos modernistas  do século XX, sem desconsiderar o papel dos chamados “pré-modernistas”, como Lima Barreto (1906-1982) e Monteiro Lobato (1882-1948).

LATUF ISAIAS MUCCI & GERUZA QUEIROZ COUTINHO

{bibliografia}

ANDRADE, Mário de. Poesias completas. Belo Horizonte: Itatiaia, 1987. ANDRADE, Mário de. Macunaíma: o herói sem nenhum caráter. 28.ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 1988. ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia, 1982. CASCUDO, Luis da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. 5.ed. Belo Horizonte Itatiaia, 1993. CUNHA, Geraldo da (1976). Dicionário Histórico das Palabras Portuguesas de Origem Tupi. (com prefácio de Antônio Houaiss) . São Paulo, Melhoramentos. ANDRADE, Oswald. Escritos Antropófagos. Buenos Aires, Corregidor, 2001. BUARQUE DE HOLLANDA, Aurélio. Dicionário Aurélio Eletrônico – Século XXI.. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999. HOUAISS, Antônio. O Português do Brasil. Rio de Janeiro, Unibrade, 1985. HOUAISS, Antônio (1985). O português do Brasil. Rio de Janeiro, UNIBRADE. HOUAISS, Antônio. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Objetiva/Houaiss, 2009. MUCCI, Latuf Isaias. Águas de Saquarema. Saquarema: Tupy, 2009. OLIVEIRA, Lilian Manes de et alii. “Empréstimo linguístico. Uma atualização lexicográfica”. Em: www.filologia.org.br SALA, Marius (1998). Lenguas en contacto. Madrid. Gredos, 1998.

Verbete com a participação de Geruza Queiroz Coutinho