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A palavra dissidência provém etimologicamente do verbo latino dissideo, -es, -ere, -sedi, -sessum, que significa manter-se afastado, estar separado.

Na Inglaterra, da segunda metade do século XVII à primeira do XIX, designaram-se dissidentes as pessoas que não pertenciam à Igreja anglicana. Os dissidentes constituíram parcela importante da comunidade culturalmente expressiva. Nos Estados Unidos, os dissidentes tiveram papel relevante na independência e em movimentos sociais de renovação, inclusive recentes, como é o caso dos movimentos de contracultura. O termo, então, já não carregava conotação religiosa.

A partir da década de 60 deste século, o substantivo dissidência passou a ser empregado para designar intelectuais que se opõem a imposições cerceadoras e arbitrariedades oficiais, em várias regiões do mundo. Tem sido empregado também para denominar a luta das mulheres pela igualdade de direitos sociais. De maneira análoga, assim se tem designado a literatura que discute e apóia essas lutas e que as consolida. Por extensão, de dissidentes se têm chamado autores que produzem essa literatura.

No Brasil, literatura de dissidência, como termo da crítica e da teoria, é expressão recente. Ela marca com especificidade, no caso brasileiro, certo tipo de texto literário. A expressão nominativa foi tomada diretamente do verbo latino e cunhada a partir de tese defendida em 1996 na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. A literatura de dissidência, tal como foi então considerada, é também denominada literatura fora-de-escola, em razão de caraterísticas que apresenta. Os estudos empreendidos até o momento se restringem à prosa.

Os textos dissidentes constituem reconstrução, uma vez que trabalham sobre outros textos pré-existentes ou a partir deles, em processo dialógico peculiar. Entre os textos pré-existentes se incluem os orais. A reconstrução dos textos (e dos discursos) diz respeito à negação da concepção renascentista da criação. Os textos dissidentes esclarecem, na própria reelaboração, os vínculos que mantêm e (re)apropriações que exercitam. Não se trata de mera colagem, uma vez que o trabalho semântico do texto a ultrapassa.

A literatura de dissidência estabelece três campos dialógicos: (1) com a literatura de escola (i. e., com o estilo de época predominante seu contemporâneo e estilos de época anteriores de qualquer época); (2) com o mundo circunstante (não simplesmente circundante), especialmente o mundo social de baixo; (3) com a literatura dissidente anterior, em cujo veio o texto se instala e simultaneamente se margeia relativamente à literatura de escola. O desenvolvimento da literatura de dissidência, paralelo ao da literatura de escola, lhe dá caráter de resistência diacrônica (ideológica e discursiva) e peculiariza o veio dessa literatura. O triplo diálogo em que se constitui a literatura de dissidência pode ser adjetivado de cuidadoso, porque não se converte em confronto, i. e., não muda o foco da discussão ideológica nem da construção textual propriamente dita. Isso lhe assegura a permanência dialógica textual. O processo dialógico ilumina o objeto a ser conhecido ou construído. O objeto da discussão, no caso da literatura de dissidência, é sempre o mundo circunstante de baixo, do subsolo, da toca. A conformação básica dessa literatura a mantém na dissidência, ou seja, na resistência relativamente à literatura de escola. A literatura de dissidência não procura se impor como hegemônica. Se fizesse isso, deixaria de ser o que é, i. e., dissidente. A literatura de dissidência discute temas relacionados à vida dos pobres, dos despossuídos, dos marginalizados.

Conhecem-se precursores (na exata acepção do termo) da literatura dissidência. Esses textos (Satiricon, p. ex.) foram mantidos pela crítica tradicional ao longo da grande literatura. O veio refluiu com extraordinária vitalidade a partir do século XVI, no início do declínio da censura inquisitorial. Foi quando se desenvolveu a picaresca européia, com destaque para a espanhola. O veio se reorientou na América, no aparecimento do que se denominou literatura neopicaresca.

A literatura de dissidência, contudo, não se confunde simplesmente com a neopicaresca, mas a tem como precursora imediata, na qualidade de veio que viria a ser retomado.

A literatura de dissidência deve ser lida como carnavalizada, na acepção bakhtiniana.

Entre os textos expressivos dessa literatura, podem ser citados Memórias de um sargento de milícias (1852) de Manuel Antônio de Almeida, Macunaíma (1928) de Mário de Andrade, Manuscrito holandês (1959) de M. Cavalcanti Proença, Utopia selvagem (1981) de Darcy Ribeiro, O Tatu (1982) de Donaldo Schüler, Memorial de Santa Cruz (1983) de Sinval Medina.

{bibliografia}

Antonio Risério: Textos e tribos (1993); Bronislaw Geremek: Os filhos de Caim (1995); Carlos Fuentes: La nueva novela hispanoamericana; Cicero Galeno Lopes: Reconstrução e dissidência (tese, 1996); Diana Luz de Barros & José Luiz Fiorin (Orgs.): Dialogismo, polifonia, intertextualidade (1994); Dictionaire historique, thématique et technique des littératures (1985); Donaldo Schüler: Teoria do romance (1989); Mário de Andrade: Introdução (a Memórias de um sargento de milícias, 1941); Mario González: A saga do anti-herói (1994); Mikhail Bakhtin: Problemas da poética de Dostoiévski (1981).