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Desafinação de sons entre palavras no mesmo contexto. Em poesia, diz-se da desafinação musical entre versos ou palavras em posição de rima. Este fenómeno pode ser propositado, como acontece em muita poesia surrealista, por exemplo, ou em qualquer texto poético sem preocupações de marcação do ritmo de acordo com padrões pré-fixados. Os versos seguintes de Miguel Torga insistem em sons sibilantes [s], [z] e [∫] que provocam uma dissonância que não tem necessariamente de jogar a favor ou contra o poema: “E nas minhas palavras vou sentindo / A dureza das pedras, / A frescura das fontes, / O perfume das flores. / Digo e tenho na voz / O mistério das coisas nomeadas.” (“A palavra”, in Diário X, 1968). Quando o registo da dissonância se integra na estratégia rítmica do poema, pode funcionar como marca de estilo, ou como simples artifício poético, contudo, muitos puristas entendem que se trata de falta de rigor ou de arte.

{bibliografia}

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Révue des Sciences Humaines
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