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Do grego œmblhma, coisa incrus­tada ou inserida; no latim clássico surge aplicado a objectos de arte e trabalho de embutido, mosaico.

Em sentido lato, por emblema en­tende-se a combinação bi-medial de texto e imagem numa composição tripartida: mote (inscriptio, lemma), figura (pictura, icon) e um pequeno texto, geralmente em forma de epigrama (subscriptio). Cada uma das partes tem a particularidade de possuir significado em si (enquanto repre­sentante) mas também de um significado outro, intertextual ou paratextual. Se­gundo Albrecht Schöne (Emblematik und Drama im Zeitalter des Barock, Munique, Beck, 1968, 2a edição), esta função dual baseia-se no facto de que o que é represen­tado significar mais que o que representa, “a res picta do emblema tem a capacidade de significar mais além, é uma res significans” (p. 22). A exegese final do seu significado requer a interpretação de cada uma destas partes nos seus vários níveis, num jogo onde o significado de uma acrescenta algo ou esclarece sobre o significado de outra. Neste exercício, Dietrich W. Jöns (Das “Sinnen-Bild”: Studien zur allegorischen Bildlichkeit bei Andreas Gryphius, Stutgard, Metzler, 1966, cap. I) vem distinguir o emblema enquanto modo de pensar (Denkform) e forma de representação artística (Kunstform), onde o modo de pensar se refere a um pensamento alegórico que vê objectos da natureza e acontecimentos da história do Homem como portadores de várias significações, independentemente da subjectividade do escritor ou artista, observador ou leitor. A particularidade dos epigramas que André Alciato (Andrea Alciati, Alciatus) escreveu por volta de 1521 levou a que os denominasse de emblemas (na ascenção da palavra como mosaico, trabalho de embutido). Estes vêm a lume como Emblematum Liber, Augsburgo, 1531, numa edição pi­rata do impressor Heinrich Steyner, a uma boa parte dos quais o impressor acrescenta xilogravuras, dando assim origem à forma tripartida que mais se popularizou. For­malmente, o emblema conheceu variações, desde o acrescento de um comentário (p. ex., Juan Horozco de Covarrubias, Emblemas Morales, Segóvia, Juan de la Cuesta, 1589), a complexas combinações texto-imagem (p. ex., Pedro de Sales, Affectos Divinos, Valladolid, Greg. de Bodoya, 1658). Tendo surgido na tradição medieval de livros de provérbios, das edições de bíblia pauperum, fábulas ilus­tradas, divisas e heráldica, a plasticidade formal veio a causar a confusão com outros géneros semelhantes, como a divisa (fr. devise, it. imprese), o epigrama, a insígnia, o hieroglifo. Grosso modo, o emblema partilha com a divisa o facto de possuir mote e figura en­tre os quais existe uma relação de com­plemento; com o epigrama (como em­blemata nuda, i.e., sem figura) o emblema partilha a forma mote/pequeno poema e a ascendência da Antologia Grega; com a insígnia e o hieroglifo (ou pseudo-hieroglifo do renascimento) o emblema partilha o condensamento de significado por uma representação enigmática, na re­lação da imagem com a(s) sua(s) interpre­tação(ões).

Até aos nossos dias identificaram-se já para cima de 200 reedições do Emblematum Liber; juntamente com as traduções, compilações e outros livros de emblemas, Schöne calcula que o total de livros de emblemas exceda um número de sete dígitos.

O emblema é, por natureza, didác­tico, procurando impressionar o leitor com a figura e persuadi-lo com o texto, embora seja indicado também como fonte ico­nográfica de motivos para artes plásticas. Originalmente com uma intenção lúdica, os emblemas vêm a servir uma grande variedade de audiências (com uma igual variedade de temas e motivos, do amor profano ao religioso, da moral à justiça e à guerra) e a desempenhar outras funções, como propagandística (explorada pela or­dem jesuíta nos séculos XVII e XVIII) e científica (os livros de emblemas de Joachim Camerarius).

Encontram-se emblemas, desenhos emblemáticos ou outras repercussões noutras formas poéticas (Peter M. Daly, Literature in the light of the emblem…, Toronto, University of Toronto Press, 1979, Marion Ehrhardt, “Repercussões emblemáticas na obra de Camões”, Ar­quivos do Centro Cultural Português, Paris, FCG, 1972), na arquitectura, medalhística, tapeçaria, louça, artefactos para ocasiões de pompa (a entrada de Filipe III em Lisboa, ou o casamento de D. Maria Sofia Isabel com D. Pedro II, documentado por Luís Nunes Tinoco). Estas outras formas de comunicação vis­ual e/ou textual reflectem tanto os desenhos dos emblemas como a sua men­sagem ou o seu artitício enigmático.

Para fins bibliográficos, tem vindo a ser discutida a natureza e definição de emblema, de forma a poderem-se construir bibliografias especializadas. Para o efeito, Peter M Daly, em “The Bibliographical Basis for Emblem Studies” (Emblematica, vol. 8, no 1, Verão 1994, Nova Iorque, AMS Press, 1996) propõe os seguintes critérios:

1) livros de emblemas ilustrados strictu sensu (i.e., a forma tripartida asso­ciada a Alciato);

2) colecções de emblemas ou divi­sas não ilustradas, onde o elemento gráfico é substituído por uma descrição verbal, como as edições de Lux Evangel­ica de Henricus Engelgrave, algumas das quais são ilustradas (Antuérpia, 1654) e outras não (Mainz, 1661);

3) formas expandidas, como Jan Van der Noot, que acrescenta um comen­tário em prosa aos seus emblemas por todo o livro, ou Henry Hawkins, que usa uma estructura complexa de nove partes;

4) livros ilustrados emblematica­mente, como as meditações, onde a gra­vura se torna parte integrante, ainda que menor.

5) discussões teóricas de emble­mas e divisas, que providenciam muitos exemplos de divisas;

6) registos sobre o uso de emble­mas e divisas em artefactos (por exemplo, arquitectura efémera de entradas, pro­cissões, catálogos).

{bibliografia}

Mario Praz: Studies in Seventeenth?Century Imagery, I (1939); Albrecht Schöne: Emblematik und Drama im Zeitalter des Barock (2a ed., 1968); Dietrich Walter Jöns: Das “Sinnen-Bild”: Studien zur allegorischen Bildlichkeit bei Andreas Gryphius, (1966); Hessel Miedema: “The Term Emblema in Alciati”, Journal of the Warburg Institute, vol. 31 (1968), Marion Ehrhardt, “Repercussões emblemáticas na obra de Camões”, Arquivos do Centro Cultural Português (1972); Arthur Henkel, Albrecht Schöne, Emblemata: Handbuch zur Sinnbildkunst des XVI. und XVII. Jahrhunderts (1976); Peter M. Daly: Emblem theory: recent German contributions to the characterization of the emblem genre (Nendeln, 1979); Litera­ture in the light of the emblem (Toronto, 1979); Bernhard F. Schölz: “‘Libellum composui epigrammaton cui titulum feci Emblemata’: Alciatus’ Use of the Expression Emblema Once Again”, in Emblematica, vol. 1, no 2, (1986); Peter M. Daly et Mary Silcox: The modern critical reception of the English emblem (1991); Peter M. Daly: “The Bibliographical Basis for Emblem Studies”, in Emblematica, vol. 8, no 1, Verão 1994 (1996).