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Termo sinónimo ou próximo de charada, cifra, criptograma, adivinha, hieróglifo, mito, que em poesia é utilizado para traduzir o texto que constitui uma mensagem de significado oculto ou dissimulado. Não deve ser confundido com a dificuldade de interpretação que pode assistir na leitura de um texto literário complexo por várias razões. O enigma, enquanto género literário, é um texto premeditamente figurado no sentido, jogando com os diferentes níveis de significação de uma imagem, de um símbolo ou de um conceito plural. Neste sentido, o enigma é uma das mais antigas formas literárias, podendo ser encontrada no Rigueda, em sânscrito, no Talmud, em hebraico, ou na Bíblia, desde as suas primitivas versões textuais. É na Idade Média que o enigma enquanto género literário mais se desenvolve, desde Enigmata, de Aldhelm (640-709) até à tradição árabe, persa e latina a partir do século X. Mais tarde, encontraremos uma insistência no enigma literário na lírica barroca, em particular na literatura do Siglo de Oro espanhol e em obras como Recueil des énigmes de ce temps (1655), atribuída a Cotin.

De notar que o enigma foi sempre interpretado como uma forma de dito sapiencial, porque só os mais inspirados podiam construir um discurso que despertasse a curiosidade geral e desafiasse a capacidade de raciocínio. Resolver um enigma não era um sinal de menos sabedoria, porque só alguém igualmente iluminado podia resolver uma mensagem enigmática. É assim que a rainha de Sabá submete Salomão a uma prova de enigmas (1Rs 10,1; 2Cr 9,1).

Partindo quase sempre de uma pergunta, directa ou indirecta, o enigma constrói-se com uma descrição nunca explícita de um facto ou de uma situação, bloqueando desde logo a possibilidade de resposta imediata, por força da contradição que deve presidir aos elementos que constituem o enigma. Seja o exemplo de um dos mais famosos enigmas da literatura grega antiga: na tragédia Antígona (442 a. C.), relata-se o enigma da Esfinge, um monstro que dominava Tebas. A Esfinge exigia a cada transeunte tebano que passava que respondesse a um enigma, e quem não fosse capaz de responder morria estrangulado pelo monstro. O enigma da Esfinge era o seguinte: «Qual é o ser que, tendo uma única voz, ora caminha com dois pés, ora com três, ou ainda com quatro, e que é tanto mais fraco quantos mais pés tiver?» É Édipo quem chega um dia a Tebas e resolve o enigma, respondendo: «É o homem, que gatinha a quatro patas enquanto é criança, caminha erecto nas suas duas pernas quando é jovem, e se encosta a uma bengala na velhice.» Derrotada, a Esfinge suicidou-se. Édipo é aclamado rei de Tebas e desposa Jocasta, sem saber que era sua mãe. A tragédia Rei Édipo apoia-se neste mito; Antígona dá conta do que se passou depois da morte de Édipo. Este tipo de enigma é de raiz folclórica, mas o enigma estritamente literário não se distingue muito do funcionamento da metáfora. Aristóteles fez a comparação, dizendo que o enigma serve para exprimir factos em condições impossíveis (cf. Poética, 22; Retórica, 3.2, 10), o que constitui um género adequado à compreensão de um facto desconhecido através de um código conhecido, que, uma vez compreendido, nos permitirá a revelação. De notar ainda que o enigma se serve também da alegoria, como o enigma da águia e da vinha que podemos ler no Livro de Ezequiel (17, 2).

{bibliografia}

A. Taylor: The Literary Riddle Before 1600 (1948); A. Welsh: Roots of Lyric (1978); Ana Hatherly: O divertimento proveitoso: enigmas barrocos portugueses Colóquio-Artes, nº 76(1988.