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Expressão cunhada pelo inglês John Ruskin (1819-1900), na sua obra Modern Painters (vol. III, Part IV, 1856), para condenar um certo tipo de antropormorfismo que, em literatura, se define pela mera atribuição de qualidades humanas a coisas ou seres não humanos. Por exemplo, dizer que o mar é cruel pode constitui uma expressão patética, porque o mar não é cruel nem a personificação serve o objectivo de uma arte que deve apreender o mundo de forma verdadeira. Por esta via, a falácia patética pode dizer respeito a qualquer tentativa de trazer para a literatura artifícios como a personificação ou a prosopopeia, porque se entende que desvirtuam o sentido do real e a sinceridade da expressão que devem presidir à criação literária. Este tipo de abordagem levou Ruskin a catalogar como poetas de primeira grandeza Chaucer e Shakespeare e como poetas “menores”, porque cometaram o pecado da falácia patética, “sentindo fortemente mas pensando fracamente”, autores como Wordsworth, Keats, Coleridge e Tennyson. Os autores gregos antigos, em particular, não distorceram as imagens reais da natureza, porque a concebiam como criação divina, superior ao homem, pelo que seria impossível ter a pretensão de a poder descrever antropomorficamente. O uso de personificações de fenómenos naturais não caiu, naturalmente, em desgraça nem ao tempo de Ruskin nem contemporaneamente. Hoje, por exemplo, continuamos a identificar furacões com o nome dos seus descobridores, descrevendo-os, muitas vezes com a mesma retórica patética com que os escritores pré-românticos e românticos utilizavam.

Será possível realmente evitar a falácia patética? O tema foi inclusivamente tratado por Ortega y Gasset num conhecido ensaio, La deshumanización del arte e ideas sobre la novela (1923), onde resume a crítica possível àquilo que poderíamos chamar a falácia da falácia patética: “ A gente nova declarou tabu qualquer ingerência do humano na arte. Ora bem, o humano, o conjunto de elementos que constituem o nosso mundo habitual, possui uma hierarquia comm três patamares. Há, primeiro, a ordem das pessoas; há, logo a seguir, a dos seres vivos; e há, por fim, a das coisas inorgânicas. Pois bem, o veto da nova arte exerce-se com energia proporcional à altura hierárquica do objecto. O pessoal, por ser o mais humano do humano, é o que a nova arte mais evita. Isto nota-se muito claramente na música e na poesia.” (A Desumanização da Arte, Veja, Lisboa, 1996, p.90).

{bibliografia}

Anthony Hecht: “The Pathetic Fallacy”, The Yale Review, 74, 4 (1985); Margarida Losa: “A Desumanizaçao da Arte e da Crítica: Extrapolaçoes a partir de Ortega, Luckacs, Barthes e Marcuse”, Cadernos da Colóquio Letras, 1 (1982); José Ortega Y Gasset: A Desumanizaçao da Arte (Lisboa, 1996); Josephine Miles: Pathetic Fallacy in the Nineteenth Century (1942).

http://www.ricknight.net/mystuff/library/patheticfallacy.html

http://landow.stg.brown.edu/victorian/dickens/ge/fallacy.html