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Forma de ornamento do discurso, para obter um efeito especial de significação. Este sentido é herdado da retórica latina (figura, figurae), pois na tradição grega as figuras chamam-se schemata (“posturas”), ou expressões enunciativas, diferente de ornamento da expressão por força da modificação do significado das palavras. Desde a retórica clássica ao modernos manuais de estilo, a noção de figura de estilo confunde-se ou inclui outras designações próximas como figura de pensamento ou tropo, figura de linguagem, figura de retórica, figura de construção, figura de sintaxe, figura de dicção, figura de expressão, etc. Julgamos ser hoje útil reunir sob a designação de figura de estilo todas as formas de expressão ornamentada do discurso, entendendo-se por expressão ornamentada toda a expressão verbal controlada com o fim de produzir um efeito especial de adorno, elegância ou simples ênfase. Dentro da designação geral de figuras de estilo, podemos distinguir mais em particular (1) aquelas figuras que incidem sobre a pronúncia das palavras, chamadas figuras de dicção (apócope, síncope, sinalefa, hiato, aliteração, onomatopeia, etc.); (2) aquelas que incidem sobre a morfossintaxe, chamadas figuras de construção, que afectam a ordem das palavras no discurso (elipse, zeugma, anáfora, pleonasmo, anástrofe, paralelismo, etc.); (3) aquelas que incidem sobre uma invenção especial, chamadas figuras de pensamento ou tropos.

O uso de figuras de estilo não está limitado aos textos literários: usamo-las na linguagem comum do quotidiano, na publicidade, na comunicação social, na política, no desporto, etc. Repara-se na observação do retórico latino Quintiliano, que chama a atenção para a universalidade e evolução da linguagem figurativa: “Figures of speech have always been liable to change and are continually in process of change in accordance with the variations of usage. Consequently when we compare the language of our ancestors with our own, we find that practically everything we say nowadays is figurative.” (Institutio oratoria, IX, iii, 1-4, Harvard University Press, Cambridge, Mass., 1996, p.443). Devido ao efeito especial produzido no discurso, afastando-o da norma, o ouvinte/leitor/interlocutor tem mais probabilidades de ser afectado pela mensagem figurativa que se quer transmitir. A combinação de várias figuras de estilo no mesmo discurso pode contribuir não só para a sua originalidade como para o reforço da sua eficácia como discurso utilitário ou não, literário ou não. De notar que em muitas épocas, a excessiva afectação do discurso levou a exageros de linguagem que dificilmente cativam o público. Lembramos as experiências retóricas dos poetas barrocos, por exemplo, cuja postura literária os levava a acumular um grande número de figuras de estilo para produzir um efeito de máximo adorno do discurso, o que revelaria não só a sua erudição como o respeito pelo gosto da época. De referir ainda que a maior referência literária para a exemplificação de figuras de estilo continua a ser a Bíblia, onde predominam as metáforas, as comparações, as personificações, as hipérboles, as antíteses e as alegorias. As idiossincrasias culturais também influenciam a escolha do reportório retórico num discurso, por exemplo, a literatura oriental não privilegia figuras ao serviço da sátira de costumes ou da simples crítica pessoal ou social, preferindo uma maior moderação do discurso, se compararmos esta postura com as literaturas ocidentais, que sempre recorrem a todas as formas possíveis de adornamento do discurso, sem muitas vezes atender a regras de deontologia, bom senso, ou bons costumes. Pelo contrário, deste sempre as culturas ocidentais recorreram a figuras de estilo para reforçar a força de um argumento, de uma crítica ou de uma oração política de forma a ferir a atenção do público, qualquer que seja a deontologia subjacente. A ironia, por exemplo, tem, neste caso, um valor e uma prática naturalmente diferentes nas literaturas ocidentais, por oposição às literaturas orientais e africanas.

{bibliografia}

Aristóteles: Retórica (Lisboa, 1998); Henrich Lausberg: Elementos de Retórica Literária (4ª ed., 1993); J. Dubois: Rhétorique générale (1970); K. Spang: Fundamentos de retórica: literaria e publicitaria (3ª ed., 1991); Monique Burke: Figuras de Estilo (1988); Roberto O. Brandão: Figuras de Linguagem (1989).