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Termo cunhado pelo arqueólogo inglês William John Thoms (1803-1885) em artigo (sob forma da carta) publicado na revista Atheneum (Londres, 22 Agosto de 1846), com o título “Folklore” (saber vulgar) e sob o pseudónimo de Ambrose Merton. Aportuguesado para folclore, o termo indica “o conjunto de costumes, crenças, superstições, literatura oral, danças, festas e outras manifestações culturais de um povo, conservadas pela tradição. Parte da Antropologia cultural que estuda essas manifestações.” (Dic. Ilustr. Ac. Brasileira de Letras). Em sua primeira acepção (dada pelo arqueólogo Thoms e adoptada pela linha clássica de Paul Sébillot e Pe. Saintyves), folclore significou apenas o conjunto de modos de sentir, pensar, agir ou cantar, ligados ao arcaico e próprios das camadas populares incultas, nas sociedades civilizadas.

Hoje, essa concepção aprofundou-se: as manifestações folclóricas são interpretadas como impulsos, forças inconscientes, ligadas à própria alma do povo que as recebeu de uma fonte comum universal, acolheu-as com sua maneira de ser e transformou-as em húmus nacional, em raízes. Thoms, com sua carta-artigo, alertava o mundo culto para a necessidade de serem preservadas as “antiguidades populares”, isto é, os restos de lendas, baladas, tradições que representavam usos e costumes antigos, ameaçados de desaparecer, e com eles os testemunhos da sabedoria anónima das gerações pretérita. Evidentemente, a sua proposta (como a da antropologia da época) enquadrava-se na tendência geral do Romantismo, que então se consolidava: valorização dos costumes nacionais e consequentemente procura de temas entre a gente simples do campo, o que levou à descoberta de toda uma herança literária ou artística, conservada pelo povo e desconhecida da sociedade culta. Canções, danças, representações, costumes, gestas tradicionais, objectos e antiguidades, remanescentes de eras remotas, passaram a ser objecto do conhecimento científico, tendo em vista a preservação do passado a ser cultuado no presente, para valorização das origens da nação (enquanto, hoje, o “passado” vem crescendo de importância para o presente, na medida em que precisa ser “reinventado”, redescoberto como presença viva no presente). Arqueólogos, filólogos, etnólogos (como Max Muller, Benfey, Elliot Smith, W. J. Perry Winckler, Taylor, Lang, Saintyves e outros) acabaram por descobrir na Índia (milénios a.C.) o berço das criações populares europeias. E recompuseram, como um grande quebra-cabeças, o labiríntico itinerário que as primitivas narrativas em sânscrito (Pantcschatantra e Hitopadexa) percorreram ao serem levadas da Índia para a China, Japão, Pérsia, Grécia, Roma … traduzidas em todas as línguas do mundo antigo e multiplicadas por mil outras narrativas que misturavam o prazer com a sabedoria do viver e, ao mesmo tempo, denunciavam os vícios ou imperfeições humanas que provocavam a desarmonia do mundo.

Desse núcleo gerador, surgiram as formas culturais hoje conhecidas como “literatura oral”, “ literatura popular”, “literatura infantil” e “literatura folclórica” (ou simplemente folclore, termo que atinge diferentes formas de manifestações culturais). Cada qual, com suas especificidades particulares, muito embora tenham inúmeros pontos em comum e possam facilmente serem confundidas entre si, pois desempenham praticamente as mesmas funções culturais e sociais: o entretenimento colectivo, a informação e a formação de certa visão-de-mundo, peculiar ao povo que as cultiva. O fenómeno folclórico identifica-se como tradicional (vem do passado), anónimo (sem identificação de autor), popular (pertence ao povo), oral (sua transmissão se faz de pessoa para pessoa), reiterativo (repete-se regularmente em determinadas ocasiões ou datas) e ritualístico (sua prática carrega em essência uma intenção de “culto”: reverência ou louvação de algo valioso para cada um e para todos, ou esconjuro de algo perigoso e temido).

Embora essas características (principalmente a do anonimato) sejam objecto de questionamento por parte de vários teóricos (Marinus, Corso, Van Gennep …) a verdade é que, na prática, elas prevalecem. Inclusive, lembramos que uma dada manifestação artística literária ou cultural, que tenha autor individual e conhecido, na medida em que é assimilado por todos como algo essencial e passa pelo processo de “folclorização”, torna-se propriedade do povo, isto é, torna-se anónima. (Um claro exemplo desse processo está nas velhas “marchinhas de Carnaval” – de Lamartine Babo, Ary Barroso, Zé Pereira … – de há 50 ou 60 anos atrás, hoje (anos 90) já pertencentes ao folclore carnavalesco, se tornaram anónimas na boca do povo.) O campo abrangido pelo folclore é heterogéneo e vasto. No Brasil, onde se fundiram influências populares arcaicas, recebidas de três fontes (portuguesa, africana e indígena), são consideradas manifestações folclóricas:

1. Formas de literatura oral como: poesia (cancioneiros, desafios, testemunhos de Judas ..); narrativas (contos, estórias, fábulas, mitos e lendas); romances antigos e gestas (“A Bela Infanta”, “A Nau Catrineta”, “Donzela Teodora”, “Os Pares de França” …); jogos-de-palavras (enigmas, adivinhas, trava-línguas, pregões, provérbios, abecês ..).

2. Crendices e superstições – Prenúncios: derramar pó de café (zanga na certa), colher caindo no chão (visita de mullher), em mulher grávida, barriga pontuda (menino) e barriga redonda (menina), etc. Mau agouro: derramar sal ou quebrar espelho (sete anos de azar); o pio da coruja, o uivo do cão, o gato preto, o número 13, a sexta-feira … (sinais de má sorte). Crendices míticas (lobisomem, mula-se-cabeça, endemoniados, boi-tatá, saci pererê, mãe-d’água, Iara, curupira, pinto-pelado ou pinto piroca, etc.); crendices mágicas (bruxarias, mandingas, feitiçarias, despachos, profecias, adivinhações …); cultos e devoções (São Gonçalo, casamenteiro das velhas, Santo António), das moças; São Benedito; O Círio de Nazaré; São João; São Pedro; N. Senhora do Rosário; N. Senhor do Bonfim …)

3. Formas lúdicas – Danças e bailes (samba, umbigada, pagode, batuque, forró, arrasta-pé, função, moçambique, chimarrita, cateretê, cana-verde, côco …); cortejos (Folias de Reis, Folias do Divino, Pastoril ou Cordão das Pastoinhas, Ranchos …); autos dramáticos ou cómicos (Cheganças, Cavalhadas de mouros e cristãos, Reisados, Fandangos, Congadas, Bumba-meu-Boi …); teatros de bonecos (mamulengo, João Minhoca …)

4. Folclore Infantil: rondas ou rodas (ciranda, cirandinha; “ponte da Vinhaça”, – corruptela de “Sur de Pont d’Avignon”; parlendas, ditos mnemónicos; “fórmulas de escolha” (pequenos versos ou ímpar, cara ou coroa …); jogos de rua ou de salão (berlinda, passa-anel, amigo-amiga, amarelinha, cobra-cega, carniça, bola de gude, estátua …)

5. Formas artísticas ou técnicas – Pintura (figurativa, cores vivas, contornos fortes, perspectiva uniforme, primitivista, figuras humanas toscas, traços grosseiros, grande presença da natureza livre …); escultura (em madeira, ferro, barro, argila, de formas toscas mas muito imaginativas, destinadas a cultos, adornos ou ex-votos …); cerâmica (utilitária ou decorativa: vasilhas de variadas formas e tamanhos, coloridas ou não, adornadas com figuras ou lisas …); vestimentas (de couro ou pano adequadas às circunstãncias, – de vaqueiro, baiana, gaúcho, boiadeiro …); adornos pessoais (colares, cintos, anéis de vários materiais e com significados ocultos, para protecção, “fechar o corpo”, garantir saúde …); técnicas de construção (casas de sopapo ou pau-a.pique, barracos de sapé, pernas-de-pau …); artesanatos de tecedura (rendas, bordados, redes, chapéus, cestos, gaiolas, utensílios de pesca, brinquedos de pano, como bonecos, mamulengos …)

6. Formas musicais – Música vocal ou instrumental rudimentar, com instrumentos típicos (cuica, berimbau, viola de cocho, rabeca, triângulo, chocalho, zabumba, pife, casaca).

“Variada, diversa, multiforme, policrómica, a matéria do folclore apresenta uma unidade indissolúvel. Nenhum de seus elementos pode viver isoladamente, independente de alguns de seus componentes. E, mesmo quando estes não revelam de modo ostentivo, ali permanece um “folways”, um modo de ser popular, – gestos, palavras, impulsos, reacções e atitudes populares mais ou menos estereotipadas, que lhes tomam o lugar. “(Barsa). essa “unidade” de cada fenómeno folclórico resulta de uma série de factores combinados que, em maior ou menor grau, encontram-se sempre presentes: há sempre um texto-base (de poesia ou prosa ou dramatizado) que, posto em situação (assumindo uma das formas folclóricas), naturalmente se liga à música; esta exige instrumentos, cantos e danças que se coordenam em uma certa representação que, por sua vez, exige vestimentas adequadas, distintivas daquela situação (seja para os humanos como para os animais ou objecto que, com eles contracenam), tais vestimentas são completadas por adornos ou artefactos complementares (espada, cajado, bastão, pau-de-fitas, arco-de-flores, etc.). Todos esses elementos se conjugam num todo que, ao se manifestar em público, exige da comunidade a criação de uma moldura própria: a decoração das casas e das ruas com ramadas, bandeirolas e pinturas; os vendedores (ambulantes ou não) de bebidas, comidas ou quinquilharias; os transportes (colectivos ou individuais) enfeitados; e, finalmente, a presença em massa de todos os moradores do local ou adjacências que acompanham tudo como integrantes da festa, do espectáculo e não, meros espectadores. É esse um dos grandes valores do folclore: através do prazer, promover a espontânea e verdadeira identificação do indivíduo com o seu grupo (o seu meio) e levar esse grupo à sua mais plena fruição existencial, em momentos de verdadeira celebração da vida.

{bibliografia}

Gustavo Barroso, Através dos folclores, S. Paulo, 1927; Luís Câmara Cascudo, Dicionário do folclore Brasileiro, 2 vols., Rio de Janeiro, Inst. Nac. do Livro/Ministério de Educação e Cultura, 1954; id., Geografia dos Mitos Brasileiros, Rio de Janeiro, 1947; Dicionário Ilustrado da Academia Brasileira de Letras (elab. Antenor Nascente) Rio de Janeiro, 1972; Enciclopédia Barsa, Rio de Janeiro,S. Paulo, 1968; Literatura Popular em Verso, 2 vols., (org. Maximiano de Carvalho e Silva) Rio de Janeiro, 1973; Artur Ramos, O Folclore negro do Brasil, Rio de Janeiro, 1935; id., Estudos de Folclore, Rio de Janeiro, 1952; João Ribeiro, O Folclore, Rio de Janeiro, 1919; Sylvio Romero, O Folclore brasileiro, 3 vols., Rio de Janeiro, 1954.