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Derivado do latim interludere, “no meio do jogo, do divertimento”, o termo refere-se a um breve episódio ou a uma parte lúdica que entrecorta a sequência normal dos actos de uma peça de teatro. Inicialmente, o interlúdio foi uma peça ligeira autónoma, sempre com intenção lúdica ou burlesca, e que durante a Idade Média e o Barroco, ganhou diferentes acepções, como o português entremez, italiano intermezzi, o francês entremets ou o espanhol entremeses. O drama isabelino acolheu o género com um modo de expressão semelhante ao das moralidades medivais, destacando-se John Rastell (The Nature of the Four Elements) e John Heywood (The Four P’s) como seus principais intérpretes. Algumas destas representações, quase sempre realizadas em ocasiões festivas, estão próximas das moralidades medievais (veja-se, por exemplo, a primeira peça dita de interlúdio, o texto fragmentário inglês: Interludium de Clerico et Puella, The Clerk and the Girl, 1290-1335), dos milagres e dos mistérios e de toda a produção alegórica que nesse tempo se servia desde os banquetes da corte até aos serões dos nobres ou até nas universidades. O interlúdio teve particular importância na secularização do drama e na forma como promoveu o desenvolvimento da comédia burguesa, desde cedo fixada nos salões das aristocracias europeias.

O interlúdio pode ser também uma composição poética, regra geral breve e com alguma firmeza de expressão, como neste poema de Cecília Meireles: “As palavras estão muito ditas / e o mundo muito pensado. / Fico ao teu lado. // Não me digas que há futuro / nem passado. / Deixa o presente — claro muro / sem coisas escritas. // Deixa o presente. Não fales, / Não me expliques o presente, / pois é tudo demasiado. // Em águas de eternamente, / o cometa dos meus males / afunda, desarvorado. // Fico ao teu lado. (“Interlúdio”, ……………………………………………………………….). Não deixa de ser curioso que Fernando Pessoa tenha atribuído às suas criações heteronímicas a designação de “Ficções de Interlúdio”, para nos dizer que as personagens que nele viveram foram também um produto imaginário de pura diversão na sua vida complexa.

{bibliografia}

Nicholas Davis: “The Meaning of the Word ‘Interlude’: A Discussion”, Medieval English Theatre, 6, 1 (1984); T. W. Craik : “The Tudor Interlude and Later Elizabethan Drama”, in John Russell Brown e Bernard Harris (eds.): Elizabethan Theatre (1966).