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Termo alemão (pl. Leitmotive) da autoria de Hans von Wolzogen (1848?1938) e que em português poderá traduzir?se por “motivo condutor”. Utiliza?se para fazer referência a todos aqueles motivos recorrentes que, no seio de uma narrativa, se encontram intimamente associados a determinadas personagens, objectos, situações ou conceitos abstractos.

Von Wolzogen, fundador e primeiro redactor?chefe das Bayreuther Blätter, foi um dos críticos musicais responsáveis, a par de Bernhard Försters (1843-1889), pela emergência do culto wagneriano. O termo tem sido frequentemente empregue em substituição de um outro cunhado por Richard Wagner, o Grundtheme ou Grundmotiv (tema ou motivo?chave), sobre o qual o compositor discorreu em Oper und Drama— documento datado de 1852, escrito em pleno exílio, e onde se esboçam as linhas orientadoras do seu projecto estético para a ópera alemã, nomeadamente no que se refere à concepção da obra de arte total (Gesamtkunstwerk). Esse ensaio antecede, portanto, um dos mais monumentais empreendimentos da história da música que foi o ciclo O Anel dos Nibelungos, cuja composição teria início dois anos depois com O Ouro do Reno e terminaria com O Crepúsculo dos Deuses em 1874.

Para Wagner, a rede motívica (Gewebe von Grundthemen) revelar?se?ia essencial para a construção do seu texto operático—todo ele arquitectado em torno da acção (Handlung)—dada a sua capacidade de integrar música e drama estruturalmente num todo coeso, já que a componente musical acaba por desempenhar em muitas das ocasiões uma função mormente narrativa. Para tanto, Wagner fazia enraizar um certo desenho rítmico?melódico num dado elemento dramático—fosse ele uma personagem, um episódio, uma emoção—, desencadeando dessa forma um processo a que Dieter Borchmeyer viria a designar de Semantisierung, ou seja, o investimento de um determinado conjunto de sentidos num trecho puramente musical. Duas funções estruturais atribuiria então Wagner aos seus Grundmotive: serviriam, por um lado, para recordar (erinnern) ao espectador situações passadas e invocar momentos de especial significado dramático para aquele instante narrativo; por outro, permitiriam antecipar ou adivinhar (ahnen) certos desenvolvimentos futuros da acção.

O recurso a estas pequenas células melódicas e rítmicas levaria Wagner a descartar?se de toda uma série de formas há muito assentes na composição em geral (como o tema, o desenvolvimento e as variações) e na escrita operática em particular (como sejam os casos do recitativo e ária, do dueto, do terceto, da cavatina, do final, etc.). O que verdadeiramente importava agora era fazer depender o discurso musical do próprio movimento dramático, libertando um e outro das convenções que espartilhavam o género. Fazia?os assim convergir numa tentativa de intensificar a densidade psicológica e as flutuações emocionais das suas personagens, sugerindo, através de uma complexa reelaboração compositiva dos Leitmotive, momentos de esperança, de elevação espiritual e até de júbilo, por contraste com outros de dor, angústia ou perda, todos eles entrecruzando?se musicalmente numa subtil filigrana temática.

Hilda M. Brown argumentará que esses mesmos motivos desempenham na ópera de Wagner (assim como nas obras de Berthold Brecht, muito embora esses motivos se materializem em estratégias distintas, próprias da sua linguagem dramática) o mesmo papel que o coro desempenhava nas antigas tragédias gregas, a saber, o de comentar e de oferecer ao espectador uma perspectiva analítica e contemplativa dos temas centrais, afastando?o assim dos aspectos particulares ou de pormenor do texto. A introdução de uma tal ‘perspectiva autorial’, segundo a mesma autora, opera um corte na leitura do continuum da acção e permite ao espectador erguer?se acima do contingencial e do imediato, acedendo deste modo a um plano elevado de onde é possível divisar global e objectivamente quer as tensões a que as personagens estão sujeitas, quer a estrutura temática sobre a qual se tece a narrativa.

Em Shakespeare, o recurso aos Lietmotive é visível, por exemplo, em Ricardo II. Nessa peça histórica, que relata a controversa ascenção da casa de Lencastre ao poder com a deposição e o alegado assassinato deste monarca, o motivo do “sol”—ou as suas variações, como o “sol poente” , “o dia” e a “estrela cadente”—surge associado à figura do herói epónimo em numerosas passagens, deste modo articulando as simbologias do poder (o sol como astro?rei) e da vida (o sol como percurso).

{bibliografia}

P. Boekhorst: Das literarische Leitmotiv und seine Funktionen in Romanen von Aldous Huxley, Virginia Woolf und James Joyce (1987); D. Borschmeyer: Das Theater Richard Wagners (1982); Hilda M. Brown: Leitmotiv and Drama: Wagner, Brecht, and the Limits of ‘Epic’ Theatre (1991); J. K. Holman: Wagner’s Ring : a listener’s companion & concordance (1996); R. Wagner: Oper und Drama (1852).