Select Page

O horror como elemento literário ou artístico remonta à Idade Média, quando proliferaram a meditação sobre a morte perante uma caveira, que devia despertar pensamentos moralizadores sobre a variedade da curta existência terrestre, as chamadas “danças macabras” na literatura e as representações do Inferno que atingiram o seu máximo na pintura de Bosch. O pendor moralizante da meditação sobre a morte reaparece na segunda metade do século XVIII, com a poesia da noite e dos túmulos que cedo passa das deambulações nocturnas nos cemitérios para as visões horrendas dos cadáveres em decomposição.

O romance gótico procurou também levar as sugestões de terror a cenas cada vez mais arrepiantes, tanto de tortura e crime como de horror sobrenatural ou até mesmo de uma natureza descontrolada e que nenhuma força humana dominava.

Em Portugal, a literatura “negra” ou de terror, que teve a sua época nos meados do século XIX, teve um carácter por assim dizer moderado: mesmo os fantasmas, que por vezes apareciam cobertos de sangue e capazes de todas as intervenções maléficas, foram na literatura portuguesa mais visões de melancolia que de horror. Mesmo “O Noivado do Sepulcro”, de Soares de Passos, celebra uma união macabra que comove (ou comovia) mas não assustava.

No romance, género onde o horror era mais fácil de encenar, com descrições de fazer gelar o sangue, encontramos alguns exemplos na literatura portuguesa dos quais há que destacar A Estrela Brilhante, de Eduardo de Faria, 1845, e, apresentado com tradução, A Freira do Subterrâneo, de Camilo, 1872, talvez mais chocante que o célebre The Monk, de M- G. Lewis, traduzido em 1861. Mas há um pormenor macabro que teve uma certa voga em Portugal: o desenterramento do cadáver para conservação do todo ou principalmente da caveira. O caso de Camilo é o mais importante, pela frequência em tratar essa situação, aparentemente resultado de um incidente da sua juventude, mas há que registar, como a obra que desenvolve mais o tema, Henriqueta ou uma heroína do século XIX, de A. J. Duarte Júnior, publicado postumamente em 1877.

Há ainda que sublinhar as cenas horríveis incluídas nos romances ditos “sociais”, que contêm sequências de muito maior horror que aqueles que incluíram o sobrenatural – aliás raro entre nós -, e que mais frequentemente resultavam em espectáculos por assim dizer folclóricos.

{bibliografia}

Maria Leonor Machado de Sousa: O “Horror” na Literatura Portuguesa (1979); Avril Horner (ed.) European Gothic; a Spirited Exchange, 1760-1960 (2002); David I. Grossvogel: Mystery & its Fictions. From Oedipus to Agatha Christie (1979); David Punter: The Literature of Terror (1980); Glennis Byron, and David Punter (eds.): Spectral Readings: Towards a Gothic Geography (1999); Jerrold E. Hogle (ed.): The Cambridge Companion to Gothic Fiction (2002); M. Leonor Machado de Sousa: A Literatura “Negra” ou de “Terror” em Portugal (sécs. XVIII e XIX) (1978); O “Horror” na Literatura Portuguesa (1979); Marshall B. Tymn (ed.): Horror Literature. A Core Collection and Reference Guide (1981); Rosemary Jackson: Fantasy: the Literature of Subversion (1981)