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Em Literatura, o conceito de tradicional é muitas vezes posto ora em confronto, ora em paralelo com os de popular e de oral. Aguiar e Silva, na sua Teoria da Literatura (Almedina, 1982, p.114), considera que a designação de “literatura popular” se torna “equívoca em virtude da polissemia do lexema popular, em cuja amplitude semântica cabem significados e valores de heterogénea e contraditória natureza”. O conceito de “tradicional” designa textos transmitidos de geração em geração, resultado de uma “criação colectiva”, no sentido em que se desconhece o seu autor e em que sofreram ao longo dos tempos alterações que podem atingir diferentes níveis dos textos – nível estrutural, semântico, estilístico, vocabular – podendo dar origem a versões diferentes do texto tradicional. O conceito de “variação” é, assim, importante, para a compreensão do funcionamento da Literatura Tradicional, cuja transmissão , sendo, ao longo dos séculos, essencialmente baseada na oralidade, oscila entre a transmissão oral e a transmissão escrita, tendo em conta, sobretudo, as recolhas e as colectâneas que a partir do séc.XIX têm sido organizadas. As variantes dos textos são não só diacrónicas mas também sincrónicas.

Apesar do processo de transmissão oral permitir a inovação, acontece, com os vários tipos de textos tradicionais, aquilo que Carlos Reis salienta relativamente ao conto: “a imperatividade da tradição limita consideravelmente o alcance da criatividade individual: as diferentes variantes dos contos populares nunca derrogam frontalmente os esquemas formais e semânticos herdados das gerações anteriores, revelando, por isso mesmo, estruturas bastante estereotipadas e repetitivas. Aliás, (…), há uma “censura colectiva” que restringe a margem de inovação, perpetuando o carácter impositivo da tradição” (Dicionário de Narratologia, Almedina, 1987, p.81).

Para além do conto, outras manifestações de Literatura Tradicional devem, portanto, ser referidas: o mito, a lenda, o romance, a fábula, o ensalmo, a oração,a anedota, a adivinha, o provérbio, a lírica, as rimas infantis, as lengalengas, comungando, todas elas, de um certo fundo comum de valorização da musicalidade e do ritmo, dimensão fundamental num contexto de transmissão em que o auditório está fisicamente presente, criando-se, assim, uma atmosfera de magia. Nesse enquadramento, mais facilmente estes textos podem desempenhar não só uma função lúdica mas também moralizante.

De referir também, ao nível da expressão e do conteúdo, a economia de meios expressivos e a condensação semântica.

{bibliografia}

Littérature Orale, Traditionnelle, Populaire. Actes du Colloque, Paris, 20-22 Novembre 1986, Fondation Calouste Gulbenkian, Centre Culturel Portugais, Paris (1987); Paul Bénichou: Créatión Poética en el Romancero Tradicional, Madrid, Editorial Gredos S.A. (1968); Pere Ferré: “Nota Prévia”, in Teófilo Braga: Romanceiro Geral Português, Edição fac-similada, Lisboa, Veja (1982), vol.I; Peter Burke: Popular Culture in Early Modern Europe, England Scolar Press (1994); Revista Internacional de Língua Portuguesa, nº9, Julho (1993); El Romancero. Tradición y pervivencia a fines del siglo XX. Actas del Coloquio Internacional del Romancero (Sevilla, Puerto de Santa María – Cádiz, 23-26 de Junioo de 1987), Fundación Machado – Universidad de Cádiz (1989).