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Termo que se relaciona intimamente com o termo “texto” no campo da Semiótica, mais concretamente relativo às análises de Greimas: “On pourrait dire que la sémiologie constitue une sorte de signifiant que, pris en charge par un palier analogique quelconque, articule le signifié symbolique et le constitue un réseau de significations différenciées” (Sémantique Structurale, Larousse, Paris, 1966, p.60) uma vez que “Qualquer sistema semiológico é composto por três termos diferentes, havendo uma correlação que os une: há, assim, o significante, o significado e o signo, que é o total associativo dos dois termos” (Roland Barthes, Mitologias, Círculo de Leitores, Lisboa, 1987, p.207).

Gadamer (Vérité et Méthode. Les Grands Lignes d’une Herméneutique Philosophique, Éditions du Seuil, Paris, 1988) fala do processo hermenêutico no qual considera  estar implicado o fenómeno de manutenção do significado de textos passados no presente, atribuindo a permanência dos valores e convenções subjacentes ao significado do discurso. Uma vez que a semiótica é o estudo dos signos e a tudo o que a eles se liga: o seu funcionamento, a sua relação com outros signos, a sua produção e a sua recepção pelos que os utilizam. “Quando o estudo dos signos se concentra na sua classificação, na sua classificação, na sua relação com outros signos, na forma como cooperam no seu funcionamento, é um trabalho de sintaxe semiótica. Quando se concentra na relação dos signos com os seus referentes e com a interpretação que daí resulta, é um trabalho de semântica semiótica. Quando o estudo dos signos considera a sua relação com os destinadores ou os destinatários, é um trabalho de pragmática semiótica” (A. K. Varga, Teoria da Literatura, Presença, Lisboa, 1981, p.197, sublinhado do autor).

Ora, um texto literário onde conteúdo narrativo seja individuável e formulável traduzirá a sua natureza semiótica, porque se trata do significado (ou melhor, um dos significados: o narrativo) da história apresentada no discurso. Se ele aparecer enunciado verbalmente passa a constituir uma metanarração. Se o conteúdo do discurso narrativo é a sua síntese metalinguística, também a acção deverá articular-se linguisticamente: tratar-se-á do discurso sob o discurso, ou o M. “Este discurso, porém, apresenta características próprias: discurso virtual que se transforma em acto, apenas através das tentativas de interpretação; discurso que, por definição, resolve as ambiguidades do discurso explícito. Teremos assim uma convergência entre uma teoria do discurso e uma teoria da acção.” (C. Segre, “Discurso” in Encilopédia Einaudi, Vol.17, Literatura-Texto, Imprensa Nacional Casa da Moeda, Lisboa, 1989, p.30).

Com efeito, uma só obra literária pode encerrar em si, simultaneamente, tipos de discurso extremamente distintos: a Odisseia homérica como primeiro texto é repetida, na mesma época, na tradução de Bérard, nas explicações indefinidas dos textos, e até em Ulysses de Joyce. Assim sendo, o texte première e o texte seconde (expressões de Foucault, L’Ordre du Discours, Éditions Gallimard, s.l., 1971, p.27) têm dois papéis que são solidários. Por um lado ele permite construir novos discursos através de um estatuto de discurso reactualizável em que o sentido se multiplica apresentando-se numa possibilidade aberta de falar, num M. constante – o novo discurso que se diz em aberto. Por outro lado, contudo, o M. deverá dizer pela primeira vez que apesar ter sido já dito e repetido aquilo que nunca havia sido dito: “il permet bien de dire autre chose que le texte même, mais à condition que ce soit ce texte même qui soit dit et en quelque sorte accompli. […] Le nouveau [discours] n’est pas dans ce qui est dit, mais dans l’événement de sont retour” (Michel Foucault, L’Ordre du Discours, Éditions Gallimard, s.l., 1971, p.29).

Há no entanto um outro princípio de rarefacção de um M.: “Il s’agit de l’auteur” enquanto princípio de agrupamento do discurso, como unidade e origem dos seus significados e significações, consoante a sua coerência.

2. Remetemos M. para o conceito de interdiscurso, onde se depreende que “todo o discurso convoca outros discursos, para eles remete, com eles se cruza, com eles dialoga de múltiplas formas” (J. Fonseca, Pragmática Linguística. Introdução, Teoria e Descrição do Português, Porto, 1994, p.81).

“Bref, on peut soupçonner qu’il y a, très régulièrement dans les sociétés, une sorte de dénivellation entre les discours : les discours qui se « disent » au fil des jours et des échanges, et qui passent avec l’acte même qui les a prononcés; et les discours qui sont à l’origine d’un certain nombre d’actes nouveaux de paroles qui les reprennent, les transforment ou parlent d’eux, bref, les discours qui, indéfiniment, par-delà leur formation, sont dits, restent dits, et sont encore à dire” (Michel Foucault, L’Ordre du discours, Éditions Gallimard, s.l., 1971, p.24.

{bibliografia}

C. Segre: “Discurso” in Enciclopedia (Einaudi), vol.17 (Lisboa, 1989); Erich Heller : In the Age of Prose. Literary and Philosophical Essays (Cambridge, 1984); Gérard Genette: Nouveau Discours du Récit (Paris, 1983); Hans-Georg Gadamer: Vérité et Méthode. Les Grands Lignes d’une Herméneutique Philosophique (Paris, 1988); Iuri Lotman, A Estrutura do Texto Artístico (trad. Maria do Carmo Vieira Raposo e Alberto Raposo) (Lisboa, 1978); J. Fonseca: Pragmática Linguística. Introdução, Teoria e Descrição do Português (Porto, 1994); Jaime Ferreira e Vítor Oliveira: Morfologia do Conto (Lisboa, 1983); Jean-Pierre Étienvre (org. e ed.): Le Temps du Récit (Casa de Velázquez, 1989); Michel Foucault, L’Ordre du Discours (s.l., 1971); Tzvetan Todorov: Géneros do Discurso (1981).