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No âmbito da  gramática,  o vocábulo “neutro” define nomes ou palavras que não têm características nem do gênero masculino nem do feminino. A partir daí, a conotação de  neutro generalizou-se, através de Maurice Blanchot (1927-2004) e Roland Barthes (1915-1980), para definir o estado de “indecidibilidadesemântica que todo texto literário apresentaria. Nutrida de códigos heterogêneos e indivisíveis, a obra  não poderia  produzir nenhum sentido e escaparia à lei de qualquer significação. Ela transformaria a sobredeterminação da palavra em indeterminação da escritura. O neutro marcaria, portanto, a impossibilidade de assinalar qualquer domínio de sentido ao escrito literário, que estaria liberto à sua simples significância e que chegaria, não mais ao não-sentido, mas à flutuação generalizada do sentido. O neutro não se opõe a nada: rizomático, produz derivas.

Segundo Roland Barthes (1915-1980), o neutro não se define: ensaia-se o neutro, que pode ser vislumbrado através de figuras, figurações, configurações, cintilações, condutoras a possibilidades, jamais a um sentido dado, mas a uma flutuação de sentidos. No campo da experiência do neutro, o semiólogo de Mythologies (1957) preparou um livro S/Z, que viria a ser publicado em 1970, sobre a novela Sarrasine (1831), de Balzac (1799-1850). O esboço inicial do estudo intitula-se, precisamente, Masculino, feminino, neutro, texto que, no Brasil, faz parte do volume 2 dos Inéditos, crítica, editados em 2004; esse ensaio, já havia sido publicado, em nosso País, em 1976, em livro sob a coordenação de Tânia Franco Carvalhal,  que, abrigando textos de vários autores sobre semiótica narrativa,  ostenta o título mesmo do texto de Barthes. Para fins de reflexão sobre o neutro, lançamos mão da edição brasileira mais recente.

Em sua semiologia, Barthes paga tributo à lingüística, cujo modelo desmonta e remonta à luz do código semiológico: “Como se sabe, a lingüística baseia-se principalmente nos modeles assertivos: a asserção representa a norma (…)” (BARTHES, 2004, p. 233). A partir do paradigma assertivo, nosso Autor introduz o estudo sobre o neutro, na medida em que Zambinella, artista por quem o protagonista Sarrasine se apaixona, é um castrato, que possui a beleza  do macho e a da fêmea, não sendo, porém, nem homem nem mulher. Crivado de perguntas (afinal, a semiologia é uma constante pergunta), o texto ensaístico  movimenta-se todo em torno deste postulado barthesiano: “Os signos que se oferecem à decifração são, no mesmo momento, o signos da cifragem: o leitor cifra e decifra ao mesmo tempo: ele aprecia a notação como cifra obscura e como cifra clara. Essa ambigüidade é favorecida pela fato de que, em Sarrasine, o leitor nunca é diretamente o decifrador: a novela comporta suas decifrações internas” (BARTHES, 2004, p. 238). Falando de Zambinella, pergunta-se perplexo o ensaísta francês: “é preciso decidir que pronome se usará: masculino? feminino? neutro (se existir)?” (BARTHES, 2004, p. 255). Sendo o sexo a simbólica aparente da novela de Balzac, como “situar simbolicamente o castrato na estrutura institucional dos sexos, que é inelutavelmente binária; pois, se nos ativermos a essa estrutura, uma vez  que a ausência de marca constitui o feminino, de que poderia ser feito o neutro? Na realidade – e a lingüística o comprova -, o neutro não pode ser tomado diretamente numa estrutura sexual (…)” (BARTHES, 2004, p. 245). A categoria do neutro rompe, pois, o paradigma dos gêneros e inaugura desvios, possibilidades, horizontes de significações. Poderá, então, quase concluir Barthes sobre a “indecidibilidade” sexual de Zambinella: “Na verdade, o neutro é impossível em francês; se fosse gramaticalmente possível, nem por isso seria menos perigoso discursivamente, pois ou desmascararia cedo demais o castrato (nem homem nem mulher; vimos que, em nossa mitologia, o neutro é sentido como uma dessexualização, e não como uma privação do caráter animado), ou então denotaria a vontade de não optar entre os dois sexos, o que seria dizer demais (…)” (BARTHES, 2004, p. 257-258).

De 18 de fevereiro a 3 de junho de  1978, Roland Barthes ministrou, no portentoso Collège de France – onde tomara posse, com sua magistral Leçon, em 7 de janeiro de 1977 – um curso aos sábados, com aulas de duas horas,  justamente denominado “O neutro”. De acordo com Thomas Clerc, no prefácio à publicação do livro homônimo,  “Barthes vai examinar durante esses meses cerca de vinte figuras (mais ou menos duas por aula), vinte e três exatamente, que ele também chama de traços ou cintilações. Essas figuras, que correspondem às encarnações possíveis do Neutro (e do Anti-Neutro), de “O sono” a “O silêncio”, de “A cólera” a “A arrogância”, são expostas em ordem aleatória, do modo como Barthes explica na aula inaugural, para não conferir ao curso um sentido preestabelecido, que estaria em contradição com o conceito de Neutro” (In BARTHES, 2004, p. XVII-XVIII). Estamos face à “ riqueza do conceito de Neutro”, que cintila, à “fantasia do Neutro”, conceito sutil,  que resiste à captação do sentido, mas que, nas “Preliminares” do curso, na aula de 18 de fevereiro de 1978, Barthes enuncia, como “argumento” ou “objeto” do curso: “O Neutro, ou melhor: O desejo do Neutro” (BARTHES, 2004, p. 5): “Defino o Neutro como aquilo que burla o paradigma, ou melhor, chamo de Neutro tudo o que burla o paradigma. Pois não defino uma palavra; dou nome a uma coisa: reúno sob um nome, que aqui é Neutro. Paradigma, o que é? É a oposição de dois termos virtuais dos quais atualizo um, para falar, para produzir sentido” (BARTHES, 2004, p. 16-17). Refere-se, portanto, o neutro a estados intensos, fortes, inauditos, que suspendem as ordens, as leis, as cominações, as arrogâncias, as intimações, as exigências, os narcisismos. O neutro, no diapasão barthesiano, transgride a doxa ou o senso comum, a opinião corrente, a opinição pública, o espírito majoritário, o consenso pequeno-burguês, a violência do preconceito, a voz do natural,  a vox populi – voz do deus do poder. O neutro desvia a norma, a normalidade, o estabelecido, o preestabelecido. Categoria da lingüística, que Barthes ampliou para outros campos, “não mais dentro dos fatos da língua, porém nos dos discursos, visto entender-se que essa palavra se aplica a todo sintagma articulado com sentido: textos literários, filosóficos, místicos, mas também comportamentos e condutas codificados pela sociedade, moções interiores do sujeito” (Barthes, 2003, p. 26).

Já, em O rumor da língua (1984), Barthes inaugura a tópica ‘A morte do autor”, com esta cena: “Na novela Sarrasine, falando de um castrado disfarçado em mulher, Balzac escreve esta frase: ‘Era a mulher, com os seus medos súbitos, os seus caprichos sem razão, as  suas perturbações instintivas, as suas audácias sem causa, a suas bravatas e a sua deliciosa delicadeza finura de sentimentos’. Quem fala assim? Será  o herói da novela, interessado em ignorar o castrado que se esconde sob a mulher? Será  o indivíduo Balzac provido pela  sua experiência pessoal de uma filosofia da mulher? Será o autor Balzac, professando idéias ‘literárias’ sobre feminilidade? Será a sabedoria universal? A psicologia romântica?  Será para sempre impossível sabê-lo, pela boa  razão que a escrita é  destruição de toda a voz, de toda a origem. A escrita é esse neutro, esse compósito, esse oblíquo para onde foge o nosso sujeito, o preto-e-branco aonde vem se perder toda identidade, a começar precisamente  pela do corpo que escreve” (grifo nosso) (BARTHES, 1987, p. 49). Mais do que definir o indefinível neutro, o Autor do fragmento supra identifica o neutro à própria escritura. Se  se deixa aproximar  como aquilo que burla o paradigma e seu binarismo implacável – ne-uter: nem um, nem outro, em sua etimologia latina -,  ele, o neutro,  se coloca diante da arrogância  do sentido e da verdade do discurso, propondo o não-sentido e um discurso que possibilite a trapaça à verdade.  Em Aula, Barthes, fundador, no Collège de France, da cadeira semiologia literária,  postula que a literatura é a trapaça da linguagem: “Essa trapaça salutar, essa esquiva, esse logro magnífico que permite ouvir a língua fora do poder, no esplendor de uma revolução permanente da linguagem, eu a chamo, quanto a mim: literatura (BARTHES, s.d.p. 16).  A escritura surge como desejo do neutro, experiência do neutro, manifestação do neutro, que finge preencher os buracos do sentido. A escritura encarna formas do neutro, que é da ordem da sutileza, do deslocamento, da semiose ao infinito. “Figuras do Neutro: a escritura branca, isenta de todo teatro literário – a linguagem adâmica – a insignificância deleitável (…): tudo que se que esquiva, desmonta ou torna irrisórios a exibição, o domínio, a intimidação (…) o Neutro não é pois o terceiro termo – o grau zero – de uma oposição ao mesmo tempo semântica e conflituosa; é, num outro elo da cadeia infinita da linguagem, o segundo termo de um novo paradigma, cuja violência (o combate, a vitória, o teatro, a arrogância) é o termo pleno (BARTHES, 1977, p. 142).

Em Roland Barthes por Roland Barthes, inscreve-se, na rubrica, precisamente intitulada “O arrepio do sentido”, esta reflexão: “O estado ideal da socialidade se declara assim: um imenso e perpétuo rumorejo anima sentidos inúmeros que explodem, crepitam, fulguram, sem romper a forma definitiva de um signo tristemente sobrecarregado de significação: tema feliz e impossível, pois esse sentido idealmente trêmulo se vê impiedosamente recuperado por um sentido sólido (o da Doxa) ou por um sentido nulo (o das místicas de libertação). (Formas desse arrepio: o Texto, a significância, e talvez: o Neutro)” (BARTHES, 1977, p. 106). “(…) O Neutro, categoria ética de que você precisa para suspender a marca intolerável do sentido ostensivo, do sentido opressivo (…). O Neutro (…)  é antes um vaivém, uma oscilação amoral, em suma, e, por assim dizer, o contrário de uma antinomia “(BARTHES, 1977, p. 133, p 141).

Tangendo um biografema, lembre-se de que Barthes era pianista. Em sua rotina, estudava de manhã e toca piano à tarde, sobretudo Schumann. Do código musical, herdou a figura da variação, que, no código barthesiano, caracteriza o neutro. Trata-se de fulgurações do signo, nuances do signo, matizes do signo, cintilações do neutro, reverberações do neutro, tremores do signo “neutro”, flutuações sígnicas, enfim. Sob o signo do neutro, ficam desguarnecidas as fronteiras entre o ser e o nada, o imanente e o transcendente, o visível e o invisível, o óbvio e o obtuso, o sujeito e o objeto, o real e sua representação.

{bibliografia}

BALZAC, Honoré de. La comédie humaine. Paris: Gallimard, 1950, v. VI, p. 79-111. BLANCHOT, Maurice. El diálogo inconcluso. Caracas: Monte Ávila, 1970. BARTHES, Roland et alii.  Masculino, feminino, neutro. In BARTHES, Roland. Inéditos vo,. 2 – Crítica. Trad. Ivone Castilho Benedetti. São Paulo: Martins Fontes, 2004 p. 230-259.  BARTHES, Roland. O rumor da língua. Trad. António Gonçalves. Lisboa: Edições 70, 1987. BARTHES, Roland. O neutro. Trad. Ivone Castilho Benedetti. São Paulo: Martins Fontes, 2003. BARTHES, Roland et alii. Masculino, feminino, neutro: ensaios sobre semiótica narrativa. Organização e tradução de Tânia Franco Carvalhal et alii. Porto Alegre: Globo, 1976. BARTHES, Roland. Aula. Trad. Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Cultrix, s.d. BARTHES, Roland. Roland Barthes por Roland Barthes. Trad. Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Cultrix, 1977.