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Termo que designa um fenómeno das sociedades ocidentais, reconhecível a partir das últimas décadas do século XIX, devido ao facto de o ideal cristão ter declinado irreversivelmente e em lugar dele não ter nascido outro ideal. Nihilismo significa, então, uma perda de ideal pelo desaparecimento de uma referência desejável e mobilizadora, que se revela por uma atitude meramente contemplativa do mundo e pelo desalento. Significa também a aceitação do jogo dos contrários de que o mundo é composto para o qual não se vislumbra uma solução satisfatória; significa também a negação das estruturas estáveis do ser num mundo tornado fábula. O nihilismo é parente de outros termos como perspectivismo e relativismo decorrentes da filosofia de Nietzsche. O nihilismo está associado à sensibilidade decadentista e estetizante pós romântica (por exemplo, de certa produção literária de Baudelaire) e finissecular oitocentista. A asserção de Nietzsche, “a forma é fluida, porém o “sentido” ainda é mais” (Para a Genealogia da Moral, 1887) sintetiza os contornos dessa sensibilidade. A desidealização pressuposta é, no entanto, um produto ambíguo porque nasce das condições do mundo moderno mas simultaneamente representa o desvanecimento de certos vectores positivos da modernidade. Por um lado, o nihilismo provém do desencanto causado pela profanização da cultura ocidental do mundo moderno emergente visto que as concepções religiosas se desintegraram em finais do século XVIII mas, por outro lado, o nihilismo surge numa espécie de segundo momento da modernidade (em arte, coincidente com o pós romantismo) marcada pela ausência de valores absolutos em relação a uma primeira fase, que é configurada de um modo positivo e construtivo pelo “horizonte de expectativa”. Trata se da expectativa característica dos tempos modernos, que se traduz pela renovação contínua com vista a um progresso evolutivo e aperfeiçoado das condições da existência humana. A sociedade moderna, no entanto, ao promover a igualdade entre cidadãos, torna os todos iguais pressupondo neles o desejo das mesmas coisas. A uniformidade e a homogeneização dos seres humanos pode estar na origem da falta de ideal e de objectivos. Para alguns, Nietzsche por exemplo, a democracia moderna conduz à apatia pela inexistência de diferenças entre os indivíduos, que são nivelados “por baixo”. De qualquer maneira, a transformação constante defendida pelos movimentos liberais e modernizantes em todo o mundo ocidental do século XIX sofre uma desaceleração em pouco tempo visto que os princípios basilares são postos em causa por vários núcleos de pensamento e de acção. Estamos a referir nos à crítica da modernidade iniciada por Marx, por Nietzsche e por Freud. Esta crítica afirma fundamentalmente que a razão, fundada no princípio da subjectividade, cria um conjunto de estruturas sociais configurador não da libertação mas da opressão, da exploração, do aviltamento do ser humano e, finalmente, da alienação. Marx avança o conceito de luta de classes, Freud os de inconsciente e de sexualidade, Nietzsche o da verdade como dissimulação e como vontade de poder.

O nihilismo é o que resta da descrença em relação à modernidade; é, em muitos textos literários, a camada residual de significações proveniente do estilhaçamento da noção de progresso unitário e supostamente universal, aparecendo como desenraizamento, secularização, antipositivismo, espiritualismo vagamente panteísta. Representa também o momento negativo da modernidade, ainda ligado a esta na medida em que o nihilismo é uma resposta pela negativa ao optimismo característico do racionalismo e do historicismo oitocentistas. As categorias da razão dominadora como a unidade, o fim e a substância são abandonadas em favor da ideia da incomensurabilidade do universo. A literatura entende o nihilismo como um conjunto de estruturas discursivas, que remete para a ausência de valores absolutos e de fronteiras claras entre contrários. Um dos processos literários preferidos, na época, é o fragmento. Neste sentido, o nihilismo faz parte da situação socio linguística característica do simbolismo e a do modernismo. As significações referidas, que remetem para o nihilismo, são encontradas, por exemplo, na poética de Gomes Leal (Claridades do Sul, 1875) e nas obras mais significativas de Raúl Brandão (por exemplo, Farsa, 1903 e Húmus, 1917). Aos olhos de uma certa tradição literária envelhecidamente neoromântica da transição do século XIX para o XX, o nihilismo aparece como sinónimo de satanismo, de imoralismo, eventuamente de amoralismo; pode, porém, assumir também a forma de um vitalismo. Almada Negreiros, autor do Manifesto anti Dantas (1916), deve ter sido percebido por Júlio Dantas como imoral e nihilista. O romance Maria Adelaide (1938) de M. Teixeira Gomes, autor de obras marcadamente estetizantes, pode ser avaliado como amoral devido ao vitalismo associal. O esteticismo vagamente decadentista, com laivos noviromânticos (evoluindo, no início do século XX, para os modernismos), pode ser considerado de coloração nihilista na medida em que problematiza a verdade, que surge, então, como convenção ou como projecção (não como adequação às coisas). A obra poética de Fernando Pessoa é uma declaração (de um modo implícito) da impossibilidade de um saber acerca da essência das coisas. Os heterónimos são a resposta a essa descontinuidade básica entre a realidade e o discurso que pretende representá la.

O influxo de Nietzsche nas obras portuguesas de matriz decadentista é breve, em parte motivado pela penetração tardia da sua influência efectiva através de traduções da sua obra, só surgidas no início do século XX. As vanguardas de expressão poética do século XX (futurismo, dadaísmo, surrealismo, abjeccionismo, construtivismo, abstractivismo, etc.), apesar de contrariarem as convenções vigentes, não são globalmente nihilistas porque visam transformar a obra de arte num acelerador do tempo (por isso são revolucionárias) e pressupõem valores remodeladores da vida decorrentes de experiências humanas ainda não configuradas pela arte. Na literatura portuguesa (de um modo geral, nas outras literaturas ocidentais), toda a conjuntura referida da transição de século, afecta a uma tonalidade nihilista, desvanece se fortemente na década de 30 devido ao interesse pelo realismo motivado pelo carácter precário da existência humana no período das duas grandes guerras. O realismo coexiste com vanguardas como a surrealista. No ponto de vista político e cultural, a tonalidade de teor nihilista reaparece no pós guerra sob a forma de pura negatividade em relação à realidade instituída de que À Espera de Godot (1952) de Samuel Beckett é um bom exemplo literário. Esta negatividade vista como moderna e, por essa razão, percebida por alguns como inevitável também tem vindo progressivamente a esbater se, não tanto porque a sociedade tenha encontrado uma positividade nova mas porque o nihilismo se tornou uma rotina configuradora de imobilismo. O momento presente, neste final de século, parece perceber que a modernidade tardia e radicalizada pressupõe um modelo social e cultural, que funciona de um modo autónomo. Trata se do paradigma democrático liberal, que tem vindo a generalizar se por todo o mundo. Visto que a sociedade não vê para além deste modelo instituído, estamos confinados ao “espaço de experiência” destituído do “horizonte de expectativa” presente no início da modernidade. Analisada de um modo mais positivo, a homogeneização seria um privilégio de cada um numa sociedade desenvolvida em que os seus membros já não têm que se preocupar com as questões políticas (em última análise, de sobrevivência pessoal) visto que alguém (os políticos profissionais) se encarrega desses aspectos por eles. Na literatura, esta tendência actual tem se traduzido pela redescoberta de um realismo sem programa, sem escola, e mesmo para além das gerações literárias. As obras romanescas de António Lobo Antunes e de José Saramago, afirmadas a partir da década de 80 do século XX, não tendo aspectos particulares em comum entre si, inscrevem se neste contexto sóciocultural de uma leveza vagamente realista e descomprometida. O nihilismo tem algo de trágico, que é um vector ausente da cultura do final do século XX.

{bibliografia}

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