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1. O Novo Historicismo nasceu na academia americana,
entre fins de 70 e começos de 80. Disseram no californiano
alguns detractores, querendo derrogar uma situação em que a
pretensão revolucionária ou simplesmente subversiva confinaria
com a maior das autocomplacências e mesmo com o cinismo, por
isso que academicamente garantida pelas condições de existência
"utópica" do campus. Eu diria que não pode não aceitar se
no liberalismo dos outros. De facto, estará presente no
movimento o espírito de um lugar como a Berkley ainda na ressaca
da revolta estudantil. Assim o diz Stephen Greenblatt, o
fundador do movimento.

Tendo se graduado na Yale dos anos 60, em tempos ainda do
domínio quase absoluto do New Criticism nos estudos
literários, Greenblatt trabalharia em seguida em Inglaterra com
Raymond Williams, um dos mais importantes críticos marxistas do
nosso tempo; e depois viriam o regresso e a migração para
Berkley.

Em geral, faz se coincidir o acto de nascimento do New
Historicism
com um número especial da revista Genre,
de que Greenblatt foi o editor. O movimento  teria
o seu instante de refundação sobretudo em Shakespearean
Negotiations
(1988) e "Towards a Poetics of Culture" do
mesmo autor. (1989)

Presentemente, a situação do novo historicismo é algo confusa.
Se por um lado assistimos a uma consolidação das práticas
(detectável tanto na qualidade invulgar da revista
Representations
, órgão oficial do movimento, como na
extensão dos procedimentos novi historicistas ao estudo de
praticamente todas as épocas "literárias"), cresce por outro
lado um dissenso histórico e metodológico, interna e
externamente perceptível. Assim H. Aram Veeser (1989) tem o
movimento por bem fundado, enquanto Suzanne Gearhart lhe põe em
perspectiva a ausência de reflexão metodológica e teórica.
(1997) Assim, o co fundador Montrose vem manifestando um certo
desconforto quanto à (in)definição da matriz teórica e
metodológica do movimento, enquanto que num Greenblatt, e não
sem equívocos, se pode detectar a sombra paradoxal de um
determinismo global (um organicismo de teor historicista),
graças porventura às importações de certos aspectos da
antropologia cultural e à pervasividade do "poder", como
Foucault o concebe — juntamente com outras formas de
"circulação", entre as quais os "textos".

Aqui a anedota, não porque também eu esteja a fazer novamente
história, mas tão só a bem da amenidade do verbete. Um dos mais
convincentes new historicists é Walter Benn Michaels. O
do Contra a Teoria.

 

2. Dedicado ao Renascimento (campo de estudos privilegiado do
novo historicismo, sobretudo nos inícios), aquele número de
Genr
e — as palavras são de Greenblatt —  teria como novidade
a consideração dos textos literários dos séculos dezasseis e
dezassete no conjunto das práticas discursivas da cultura
inglesa de então.

Assumindo se que tais textos não tinham sentido em si, senão que
o teriam nas ligações estabelecidas com as crenças, com as
práticas, e no interior das instituições da cultura
renascimental, o movimento então nascente avançava perspectivas
de estudo, que, por menos orgânicas, punham em questão os
pressupostos historicistas:

 crenças e práticas de uma mesma época podem ser
contraditórias, não só em função das diferentes instituições
que as promovem, mas no interior das mesmas instituições,

 e
autores e discursos manifestam atitudes ambivalentes face à
autoridade, mostrando se o sentido semântico pragmático dos
textos indecidível no que diz respeito aos valores do
conformismo e da heterodoxia. (cf. 1982)

Na confluência destas duas recusas (formalismo e historicismo),
o new historicism vai nomeando de outro modo a matéria
dos textos literários, a qual confronta, não propriamente com um
método ou com uma teoria, mas com um conjunto de posições
críticas mais ou menos directamente saído dos problemas que — à
medida que iria recusando a validade fundacional de posições
estruturalistas e lato sensu realistas — a Teoria, ou,
mais simplesmente, o pós estruturalismo, nos foi
circunscrevendo. Entenda se por Teoria o capital cultural
profissional dominante nos Departamentos de Inglês (e não só):
não se trata já de Teoria da Literatura, mas de Adorno,
Benjamin, Blanchot, Bourdieu, Derrida, de Man, Eagleton,
Foucault, Jameson, Lyotard, etc.

O efeito prático é sobremodo interessante porque não corresponde
em absoluto a perspectivas interdisciplinares mas a um processo
de circulação entre disciplinas  — ou antes, entre
aquelas ressalvas críticas operadas pela Teoria sobre um certo
número de problemáticas fundacionais. Cumulativamente, os novi
historicistas circulam na prática entre épocas diferentes e
entre diferentes textos e contextos, ao mesmo tempo que (reflexão
teórica típica) consideram a ‘circulação’ como uma das
características fundamentais do objectotextualidade’ (e diga
se, já agora, também do ‘poder’). 

Assim começam as mudanças de nomeação: os textos literários
serão os chamados textos literários, e os textos dos
historiadores as chamadas histórias. O todo resulta
unificado sob a figura inespecífica da textualidade, ou
retoricamente abrangido pelo quiasmo, figura que é decididamente
da predilecção especial dos escritos novi historicistas: desde
logo, o inaugural The Forms of Power and the Power of Forms
(Greenblatt) ou, o mais abrangente, the historicity of texts
and the textuality of history
(Montrose). O que o tropo
adianta é aquilo que, ao mesmo tempo, o new historicism
evitaria como questionamento: os tipos de reciprocidade
específica (e a sua pertinência) entre o que se passa no campo
literário e o que ocorre no campo histórico. O que não ocorre ao
especialista, acode ao leigo com alguma facilidade: o literário
não pode não ser histórico, mas este pode muito bem não ser
aquele. Para que aquele quiasmo exista, têm ambos de pesar o
mesmo em seu prato da balança. Serão, portanto, "texto". Cite se
Montrose, um dos new historicists da primeira hora:

 

A orientação pós estruturalista para a história que
presentemente emerge nos estudos literários pode ser
quiasmaticamente caracterizada, como uma preocupação recíproca
com a historicidade dos textos e com a textualidade da história.
Pela historicidade dos textos, pretendo sugerir a especificidade
cultural, o enraizamento social de todos os modos de escrita
não somente dos textos estudados pelos críticos, mas também os
textos nos quais os estudamos. Pela textualidade da história,
pretendo em primeiro lugar sugerir que não temos acesso a um
passado pleno e autêntico, a uma existência material vivida, não
mediada pelos vestígios textuais da sociedade em questão (…); e
em segundo lugar que esses vestígios se acham também eles
sujeitos a mediações textuais subsequentes quando são
construídos como "documentos" sobre os quais os historiadores
fundam os seus próprios textos, chamados "histórias". (Montrose,
1989: 20)

 

Esta amostra, hermeneuticamente correcta, é antes de mais
significativa do escamoteamento da questão da reciprocidade
entre os dois campos de estudo:

 ela existe apenas como preocupação do
novi historicista, que deve conduzir os seus inquéritos
naquelas duas frentes e

 desaparece
de facto na figura comum dessa textualidade que não permite
distingui los.

O confinamento da reciprocidade à "mente" do crítico, deixa
porventura perceber que entre o contexto histórico de um lado e
o texto literário do outro há "uma conexão de puro nada". (Liu,
1989: 743) O quiasmo seria assim a figura de uma analogia posta
a caminhar em marchas forçadas das semelhanças percebidas entre
texto e contexto até a um estado final de "simpatia": "uma acção
quase mágica de assemelhamento" entre os dois (id.: 744) — de
resto, e a crer em Foucault, muito renascimental.

O quiasmo, como equilíbrio formal, corresponde à noção
greenblattiana de "economia mimética", porque mima retoricamente
a circulação sobre a qual escreve; mas opera entretanto
sobre um desequilíbrio inicial, porque (mesmo em contexto proto
moderno) poria em causa a autonomia específica do literário e a
existência de uma realidade histórica pré existente. (Thomas,
1991: 184)

Em qualquer caso, esta retórica corresponde bem a uma prática
crítica que começa por aceitar se sem método e sem programa
teórico, unificada apenas por um conjunto de preocupações:

 reconhecimento
da ligação necessária entre os textos e os contextos
culturais da sua produção, em paralelo com a recusa da
autonomia estética dos primeiros e das relações de
expressividade especular entre eles e os segundos, já não
organicamente abençoados por coisas como o Zeitgeist,
a visão do mundo, a ideologia de época ou de classe

 recusa
tanto do determinismo como das posições humanistas que
atribuem ao autor uma subjectividade autónoma e funcional

 consideração
do potencial político dos textos literários

 incorporação
de Teoria, e antes de mais de tudo quanto nela favorece a
noção de que toda a experiência é de feição discursiva,
desde sempre situada em sistemas de significação pré
existentes a nenhum dos quais deve reconhecer se um carácter
de necessidade, por isso que cada um situa e modela, e
permite modelar e situar, o real de uma forma diferente de
todos os outros

 e,
mais especificamente ainda, incorporação progressiva de
posições e objectos foucauldianos (as disciplinas, o poder
saber, a identidade, o corpo, etc.), sem esquecer a técnica
da "descrição densa" muito utilizada por Greenblatt, que foi
pedida de empréstimo à antropologia de Geertz. (Montrose,
1989, 1993 e Greenblatt, 1980)

Assim, alguns aderentes do movimento (para continentais, com
certa tocante candura) não só nele encontraram uma legitimação
para o estudo e compreensão de textos literários canónicos
através do uso de textos não literários (e, nestes, os de
natureza política, habitualmente mais sujeitos a proscrição),
como também nele acabam por descobrir as virtudes de uma
misarquia textual generalizada: a nenhum texto será concedida
precedência sobre outros textos, e os eventos históricos assumem
um cariz textual que permitiria a sua "leitura". (cf. Kinney,
1993) Este tom algo encomiástico — o novo historicismo é
libertador — não representará o pagamento de uma dívida de
gratidão? E o que se agradece não será, pelo alargamento do
cânone e do campo de estudos fora do cânone, uma nova land of
opportunities
de trabalho e de emprego?

 

3. Como se disse, o New Historicism teve a sua refundação
em Shakespearean Negotiations (1988) e "Towards a Poetics
of Culture" (1989). É justamente quando os objectos e os
procedimentos foucauldianos são contrabalançados pela presença
da antropologia cultural.

Com tudo isto mantém se o problema que, em 1992, o próprio
Montrose reconhece como tal: o da ausência de um princípio de
organização que determine as relações supostas na hipótese sobre
que o new historicism, em tempos já da sua transformação
numa poética da cultura, assentaria — a saber, que todos os
aspectos de uma sociedade se encontram ligados entre si.
Montrose, já não considerando como bastante a definição do
movimento pela comunalidade de preocupações, e aceitando que
nele se denota a incapacidade frequente de teorizar com
rigor tanto o seu método como o seu modelo de cultura, recusa de
algum modo a sua transformação em poética da cultura. Assim, é
precisamente quando o movimento se teoriza que nele se reconhece
a necessidade e a falência da teorização; e, assim, o novo
historicismo é também agora o chamado novo
historicismo
(a designação surge entre aspas):

 

Procedendo na base de noções tácitas e talvez inconsistentes no
que à dinâmica cultural diz respeito, os estudos "novo
historicistas" parecem implicar por vezes que os objectos em
análise se acham simplesmente ligados por um princípio de
contingência cultural ou que o são a bel prazer do crítico
("conexão arbitrária"); ou, pelo contrário, que esses objectos
mantém entre si uma relação necessária baseada num princípio de
determinismo cultural. (Montrose, 1993: 36)

 

Mas, em Grenblatt, a comparação de textos a arbítrio deixaria de
o ser na medida em que, sendo a cultura o medium de uma
semiótica, os textos passam a ser causalmente expressivos de um
código cultural gerador e restritivo: são formas ligadas
organicamente entre si, e manifestam se numa estrutura de
superfície que seria um verdadeiro sistema tropológico (Greenblatt,
1988 e Montrose, 1993) — responsável, de resto, pela própria
possibilidade de uma descrição densa, a qual, ao dar conta de
uma dada prática nos seus mínimos detalhes, manifestaria
necessariamente o ethos da cultura a que pertence.

O que fica de fora é um tanto a história, mas seria, sobretudo,
a noção de uma política da cultura, que assim perde
obrigatoriamente precedência para a de uma poética da cultura:
nestes termos, esta não pode não subsumir aquela na sua esfera
perfeita onde toda a gente é unânime.

(cf. Montrose, id.: 36)

Na verdade, o que Montrose nos mostra neste new historicism
de segunda fase é uma convergência assinalável com os princípios
do historicismo — convergência, aliás, que, pelo recurso
à antropologia da cultura, tão sua congenial, seria
razoavelmente previsível. Uma poética da cultura deveria
necessariamente obedecer aos seguintes princípios antropológico
historicistas:  

 a
cultura são culturas

 a
cultura é colectiva, expressiva, intransplantável e
configura se em padrões

 

 e acarretaria no plano epistemológico, não menos
necessariamente, as seguintes consequências:

 o
abandono de posições valorativas e universalistas

 a
afirmação de um pluralismo neutral e a tácita circunscrição
da cultura pelo modelo "tribal": a cultura é comportamento
uniforme, a uniformidade cultural é um padrão holístico,
consistente e, no contraste com outras formações "tribais",
incomensurável. (cf. Merquior, 1979: 43 e ss)

 

4. Do contacto com Williams decorreu decerto para Greenblatt a
primeira percepção das fissuras ou dos estigmas no universo da
"ciência normal" dominada pelo paradigma novi crítico. De facto,
a própria designação new historicism não serve
apenas à arregimentação de investigadores em oposição a um

old historicism; polemiza também com aquilo que a designação
new criticism significa. A primeira, construída
sobre uma analogia com a última, e ao substituir criticismo
por historicismo, reivindica a sua diferença
característica no campo dos estudos literários.
Uma definição de texto, como a de Arthur F. Kinney, torna se
então muito representativa: "a) nenhum documento (nenhum texto)
é abstracto, separado do tempo e do lugar onde foi produzido, b)
qualquer autor tem uma intenção e nenhum texto é inocente, c)
qualquer documento tem múltiplos leitores potenciais (seja ele
lido, visto ou escutado), d) nenhum documento literário, no
sentido estrito do termo, é uni dimensional." (Kinney, 1993: 37)
O New Historicism corresponderia assim a um conjunto de
posições no interior dos estudos literários unificadas (na
medida em que é possível unificá las) por um certo tipo de
recurso à História como princípio de explicação e de
problematização dos textos literários.

Ora, tudo isto é algo que por inteiro caberia no domínio dessas
falácias referenciais que o paradigma novi crítico repudiou como
condição necessária para a sua emergência e definição. Grosso
modo
, para o new criticism são ilegítimas, nos
domínios da descrição e da explicação, todas as utilizações de
material extrínseco aos textos literários entendidos como ícones
verbais, i. e., como objectos autotélicos, autobastantes,
confinados a subtis operações de significação interna ou
intrínseca, marcadas pela polissemia e pela ambiguidade.
Greenblatt (e creio que essa posição é de há muito pacífica)
justamente não reconhece que a distinção entre a produção
artística e quaisquer outras formas de produção social (os
contextos) seja intrínseca aos textos; antes que é sem cessar
feita e desfeita por autores e leitores. (cf. 1982)

Pelo través desta indistinção, a natureza e o comportamento dos
textos são batizados por um conjunto de metáforas de matriz
económica: negociação, circulação, etc. E o new historicism
(mas não só) acabará mesmo por pôr em causa senão a distinção
entre texto e contexto, pelo menos o seu relacionamento
tradicional: o texto artístico doravante já não é o que, por
natureza (estética, digamos), se emancipa absolutamente do
contexto.

Em conformidade, e previsivelmente, Montrose, num original de
1992, contestará a natureza extra discursiva do segundo, que
seria antes de considerar como um conjunto de relações
intertextuais e discursivas. (cf. Montrose, 1993) Deste modo, o
contexto — ou melhor, a discursividade — surge como o lugar de
emergência de textos e leitores; e tanto os primeiros como os
segundos, a título de relações intertextuais e discursivas, não
podem não tornar se "contexto" por seu turno.

Ora, não se vê muito bem — e insisto no tópico — como se pode
escapar àquilo que, neste mesmo texto "maduro", Montrose
critica, tanto em Greenblatt como numa poética da cultura: a
orientação dos textos para a intertextualidade e da
intertextualidade para a sincronia. (cf. id.: 36) Em suma,
parece detectar se aqui uma debilidade de historicização. Nesta
perspectiva, apenas o objecto seria histórico; e somente o seria
porque de Quinhentos ou Seiscentos. Felizmente, as práticas de
leitura, frequentemente inestimáveis, saem para fora do compasso
teorético.

Neste ponto, interessa saber que algumas objecções ao movimento
(e das mais impressivas) insistem na sua filiação novicrítica
de facto
: não tendo a ver com nenhuma espécie de
historicismo, seria antes uma forma de close reading
aplicada à comparação arbitrária de textos, (Hume, 1992) ou
seria um formalismo da bricolage, em que
polissemia e ambiguidade deixaram de ser os modos de
funcionamento intrínseco do texto literário para passarem "a
figurar as operações da história". (Liu, 1988)

Nestas condições, observa Alan Liu, o new historicism
denotaria o embaraço histórico do intelectual pós
moderno, demasiado consciente de si. Céptico quanto à
possibilidade de conhecer o mundo e o outro (ou, mais, de aí
intervir), encontrou no medium dos estudos históricos a
oportunidade de se retratar na pose ansiosa de quem os busca; e,
a bem da verosimilhança da atitude, far nos ia
menção
de sair do vaso perfeito do texto literário.
De modo idêntico, a sua insistência no poder e na autoridade —
problemática notoriamente foucaldiana — confessa nos, na mesma
forma do embaraço, uma efectiva ausência de poder e de
autoridade do intelectual academizado. (Liu, id.)

Estas críticas — dimensão pós moderna do intelectual crítico à
parte — não parecem levar muito em linha de conta a reformulação
geertziana do new historicism, empreendida por Greenblatt.
(cf. Greenblatt, 1988) Em contrapartida, Hayden White pôde
apreciar o conjunto e decretar lhe a falência teorética de facto,
aferindo o por aquela mesma Teoria que o movimento privilegiou.
O novo historicismo seria pré teórico (ou seja, situar se
ia aquém do pós estruturalismo), por isso que denotaria a
presença de três ilusões, a meu ver qualquer delas dependente de
princípios historicistas, por isso mesmo que ou são ilusões ou,
como a última (onde porventura cabem críticas como as de Liu),
já próteses de organicidade:

 

 ilusão
genética (ou seja, interpretação do texto à luz do seu
contexto histórico)

 ilusão
referencial (porque, ignorando da lição derridiana, se
começa
pela distinção texto contexto)

 ilusão
textualista (segundo a qual a história é um texto, o social
é uma função da cultura que não menos será um texto, e a
relação entre esta e a literatura é de cariz intertextual).
(White, 1989)

 

White assaca ao new historicism precisamente a
ingenuidade epistemológica de que ele se quer emancipar. Mas
faltou lhe observar que todas aquelas miragens são combatidas,
ou, pelo menos, denegadas. Porque o new historicism,
tomado no seu conjunto e nas suas contradições, quer de facto
emancipar se delas.

 

5. A descrição densa vai representando em Greenblatt o
teorético mais positivo e o mais forte compromisso com ele.
Parece me que à vista daquela ressalva wittgensteiniana ao
fundacionalismo teórico que é justamente a descrição. De
resto, a tendência nominalista é dominante no que toca aos
operadores mais globais, metaforicamente genéricos mas pouco
específicos: energia social, negociação e circulação. As
motivações desta configuração — e é isto que torna Greenblatt o
autor mais exemplar de todos os new historicists
suponho eu que residam numa identificação temática de
base, assentida embora repudiada (ou porque repudiada),
entre determinar e conhecer. Ora, determinar,

determinismo e afins (como teoria quando por eles
definida), são termos proscritos na transformação pós estrutural
do campo dos estudos literários. Assim, o new historicism
pode descrever se como um conjunto de práticas de leitura
permanentemente e em acto acompanhadas pela revisão
verbal dos seus resultados (e devem considerar se estes
instantes metatextuais como a mais autêntica manifestação da sua
teoria e da sua metodologia). Segundo os seus bons princípios, o
novi historicista tem de des conhecer; e cada triunfo em
conhecer é uma derrota dos princípios. Em retrospecto, estamos
condenados a este triunfo de Pirro: produzimos os objectos de
estudo como determinados e conhecidos, e apenas podemos
ressalvar que o não são. Quem nos crê? Muita gente.

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