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A pós-memória, apesar do prefixo “pós-” não é o nome de nenhum processo que se siga à memorização ou recordação dos conhecimentos, e também não é idêntica à memória. À semelhança de muitos outros “pós-” que vimos brotar nas últimas décadas (pós-modernismo, pós-colonialismo, etc.), o prefixo em causa não é sinónimo de nada posterior, no tempo ou no espaço, àquilo que traz justaposto (Hirsch, 2008: 106):

Postmemory is the term I came to on the basis of my autobiographical readings of works by second generation writers and visual artists. The “post” in “postmemory” signals more than a temporal delay and more than a location in an aftermath. Postmodern, for example, inscribes both a critical distance and a profound interrelation with the modern; postcolonial does not mean the end of the colonial but its troubling continuity, though, in contrast, postfeminist has been used to mark a sequel to feminism. We certainly are, still, in the era of “posts,” which continue to proliferate: “post-secular,” “post-human,” “postcolony,” “post-white.” Postmemory shares the layering of these other “posts” and their belatedness, aligning itself with the practice of citation and mediation that characterize them, marking a particular end-of-century/turn-of-century moment of looking backward rather than ahead and of defining the present in relation to a troubled past rather than initiating new paradigms.

Não é um movimento, nem um método, nem uma ideia, mas uma estrutura de transmissão inter e transgeracional de conhecimento e experiência do trauma, e é também a consequência dessa recordação do trauma por meio geracional (Hirsch, 2008: 106). Ou seja, a pós-memória não está relacionada directamente com o próprio indivíduo que viveu o trauma, e depois o recorda, mas aqueles que não o viveram e que o conhecem ou ouvem através da transmissão dessa memória traumática. Casos há, elucida-nos Hirsch, de silenciamento e mutismo que, ainda assim, transmitem a vivência emocional do trauma. A pós-memória está, por isso, directamente ligada aos vínculos afectivos que existem entre quem viveu a memória e quem a “herda” (Hirsch, 2008: 106):

Postmemory describes the relationship that the generation after those who witnessed cultural or collective trauma bears to the experiences of those who came before, experiences that they “remember” only by means of the stories, images, and behaviors among which they grew up.

E por isso Marianne Hirsch desenvolve o seu estudo analítico da pós-memória em torno de três eixos: memória, família e fotografia, em articulação com as memórias traumáticas do Holocausto (Hirsch, 1997). Este termo surgiu de um estudo que Hirsch fez sobre a obra Maus (1980), de Art Spiegelmann[1], na qual vinham intercaladas três fotografias, o que lhe despertou a necessidade de compreender como se articula a herança da memória com a fenomenologia da fotografia para um estudo mais humano dos processos de memória. A fotografia dá acesso ao momento que representa, e, concomitantemente, tem uma enorme potencialidade icónica e semiótica (Hirsch, 2008: 107). É a partir deste estudo que Hirsch desenvolve o conceito de “family frames” – molduras/vinhetas familiares – como janelas que permitem ao leitor da fotografia ou da banda desenhada aceder ao passado de uma das personagens da obra que foi prisioneira num campo de concentração (no caso de Maus). A pós-memória assenta, como tal, na empatia, na imaginação, projecção e criação: tomamos a memória do outro como nossa, por a herdarmos de quem a viveu directamente. Utilizando a metáfora de um acontecimento sísmico, diríamos que quem viveu o acontecimento que dá origem à memória é o seu epicentro sísmico, e a área e réplicas onde se dá o sismo representariam os que a conhecem ou pressentem sem a ter vivido, ou seja, a pós-memória (Hirsch, 2008: 107):

To grow up with such overwhelming inherited memories, to be dominated by narratives that preceded one’s birth or one’s consciousness, is to risk having one’s own stories and experiences displaced, even evacuated, by those of a previous generation. It is to be shaped, however indirectly, by traumatic events that still defy narrative reconstruction and exceed comprehension. These events happened in the past, but their effects continue into the present. This is, I believe, the experience of postmemory and the process of its generation.

Como tal, a família é o mais importante transmissor de memória. A memória, para ser transmitida de forma eficiente, resulta de um vínculo afectivo, intergeracional (Hirsch, 2008: 111), que cultiva a empatia. Trata-se de um sistema simbólico e de conhecimento adquirido que se baseia, grandemente, num elo emocional forte. O trauma que é causado pela vivência de experiências tão terríveis como foram as do Holocausto pode criar rupturas nessa transmissão da memória – daí o silenciamento ou o mutismo –, e esse trauma também se integra na pós-memória. Quem herda as memórias dos familiares ou outras pessoas próximas, também herda a força emocional subjacente ao trauma. É um efeito da memória de que não se pode fugir – e participa também no estudo da pós-memória (Hirsch, 2008: 111):

Postmemorial work, I want to suggest—and this is the central point of my argument in this essay—strives to reactivate and reembody more distant social/national and archival/cultural memorial structures by reinvesting them with resonant individual and familial forms of mediation and aesthetic expression. […] Memory signals an affective link to the past, a sense precisely of an embodied “living connection.”

Mas como se pode herdar a força emocional de uma história? Ou, como podem aqueles que nunca ouviram o relato de determinada memória violenta perceber o seu alcance? Marianne Hirsch diz que a resposta está na família e na linguagem não-verbal, na linguagem física, do corpo, que pode transmitir: os actos não-verbais e não-cognitivos desta transferência de memórias acontecem no âmbito de um espaço habitado pela família como parte de uma sintomatologia (Hirsch, 2008: 112):

It is perhaps the descriptions of this symptomatology that have made it appear as though the postgeneration wanted to assert its own victimhood alongside that of the parents. […] Second generation fiction, art, memoir, and testimony are shaped by the attempt to represent the long-term effects of living in close proximity to the pain, depression, and dissociation of persons who have witnessed and survived massive historical trauma. They are shaped by the child’s confusion and responsibility, by the desire to repair, and by the consciousness that the child’s own existence may well be a form of compensation for unspeakable loss. Loss of family, of home, of a feeling of belonging and safety in the world “bleed” from one generation to the next, as Art Spiegelman so aptly put it in his subtitle to Maus I, “My father bleeds history.”

Este “sangrar da história” e a consciencialização de uma criança herdeira de uma memória dolorosa, apesar de tematicamente relacionados com o Holocausto, possibilitam uma abertura epistemológica e interdisciplinar, procurando compreender de que forma podemos ajustar o estudo da pós-memória a obras literárias e artísticas de outros quadrantes geográfico-culturais, relacionadas com passados traumáticos, como a Guerra Civil Espanhola, a vivência dos regimes repressivos em alguns países da Europa, ou a destruição das cidades de Nagasáqui e Hiroxima na Segunda Guerra Mundial, entre outros. Mais do que uma compreensão da história e da memória a partir das marcas traumáticas que se transferem de indivíduo para indivíduo num núcleo familiar (ou emocionalmente tão próximo como um núcleo familiar), ou da discussão da sua legitimação como património, o estudo da pós-memória ilumina as questões éticas e teóricas que devem acompanhar a evolução da noção de trauma, memória, passado, identidade histórica e os chamados actos de transferência intergeracional, nas palavras de Hirsch (2012).

 

Bibliografia:

Hirsch, Marianne (1997). Family Frames – photography narrative and postmemory. Harvard: Harvard University Press.

Hirsch, Marianne (2008). “The Generation of Postmemory” em Poetics Today, nº. 29, pp. 103-128. Obtido de Duke University Press, <https://warwick.ac.uk/fac/cross_fac/ehrc/events/memory/poetics_today-2008-hirsch-103-28.pdf>, 11/01/2022.

Hirsch, Marianne (2012). The Generation of Postmemory – Writing and Visual Culture After the Holocaust. Nova Iorque: Columbia University Press.

Postmemory.net, Website da Prof. Marianne Hirsch, <postmemory.net>, 11/01/2022.

[1] Maus (1980), de Art Spiegelmann, é uma obra de banda desenhada que conta a história de um filho que vai visitar o pai e quer fazer um livro do novelo de histórias e memórias do campo de concentração onde o pai ficou prisioneiro durante a Segunda Guerra Mundial. Este pai, Vladek de seu nome, que os leitores percebem como sendo uma personagem que pertence já a outro tempo, com outros hábitos e outras formas de pensar a vida, conta-nos o que viveu: o passado de violência e crise, a ascensão do nazismo, a sobrevivência e a fuga, a fome e o horror. As personagens são ratos (daí o título do livro – rato em alemão). Spiegelmann recuperou a palavra “rato” associada aos judeus durante a ascensão de Hitler ao poder e ressemantizou-a, tornando-a um grito de resistência de memória contra o passado de horror. Os oficiais e agentes nazis são gatos, os polacos são porcos e os estado-unidenses são cães. Art Spiegelmann regista, nesta obra, as memórias do seu pai, e é considerada, até hoje, uma das obras que melhor representa o Holocausto. Ganhou o Prémio Pulitzer. A última edição em língua portuguesa data de 2014, da Bertrand, e foi feita por Joana Neves, directamente do iídiche e do alemão.