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Termo atribuído ao romance cujo centro do universo semântico é o funcionamento da mente humana. Aplica-se aos romances europeus surgidos por volta da década de 20 do século XX, que são resultantes de uma revolução na concepção do romance. O registo da psicologia concretiza-se, na narrativa romanesca, pela centralidade da consciência individual. Para os detractores, trata-se da invasão da interioridade no romance. A sua importância determina uma concepção de realismo sujeita ao modo como uma mente humana apreende o exterior. Todos os romances ditos psicológicos têm em comum o entendimento do mundo a partir de uma personagem ou do narrador, que se transforma no lugar dos seus pensamentos. A história de uma consciência (implicando a subjectivação do mundo), neste tipo de romance, põe fortemente em causa a focalização omnisciente, que decorre de uma visão panorâmica e impessoal da realidade exterior e desconstrói as noções de intriga, de personagem e, mesmo, de narrativa romanesca. A crise do romance dito naturalista, em finais do século XIX, consiste sobretudo na rejeição da impessoalidade implícita no “ponto de vista do Olho de Deus” (Hilary Putnam). Esta “perspectiva exteriorista”, no romance, demonstra, na passagem do século, as suas limitações. Por exemplo, a concepção jamesiana do romance defende uma focalização restritiva coincidente com uma só personagem visto que este é o processo mais semelhante ao desenrolar da vida tal como se apresenta para cada um de nós e não o referente a uma mente divina desligada da condição humana. A atmosfera antipositivista finissecular traduz-se, em muitas narrativas romanescas (como as de Henry James), pela redução da história e pela consequente diversificação do sujeito, aspectos que tornam o romance psicológico. Desaparecem as verdades intemporais e surge uma concepção da verdade afecta à descoberta gradual da realidade por parte de um indivíduo.

Para a nova concepção do romance também contribui Bergson com a obra Essai sur les données immédiates de la conscience (1889) em que exorta os romancistas à reflexão sobre as contradições da condição humana. É um convite à ruptura com a herança realista e naturalista. A psicologia de cariz pragmatista de William James, ao remeter para o domínio individual a cognição racional de dados do mundo como os fatalmente decorrentes do interesse ou do propósito para tal, desvanece a apreensão considerada neutra da realidade. É William James, que cria o termo stream of consciousness, na sua obra Principles of Psychology (1890). Deste modo, a expressão da vida subjectiva deve assegurar ao romance um novo tipo de objectividade, que dantes provinha da análise da condição sociológica do homem. A psicologização vai a par da consciência estética do escritor na medida em que a arte é a metafísica possível no seio do niilismo europeu. Percebendo a crise de valores da época como uma crise de linguagem, o romancista procura dar sentido ao mundo, distanciando-se das convenções sociais. A experiência do real é, então, a de uma consciência individual reduzida à insignificância pela sociedade massificada. Por isso, a observação da realidade é desprendida e desenraizada por rejeitar as convenções sociais e naturais e tornar a interpretação subjectiva da realidade uma verdadeira categoria estética.

A análise psicológica da personagem, proveniente da vida secreta e profunda da individualidade, cria os estados da consciência, que são dados como fragmentários, incoerentes (quando comparados com a realidade exterior) e fortemente subjectivados. O leitor passa a ter um papel mais activo, tornando-se cúmplice das dúvidas e das indefinições da narrativa. Finalmente, o conceito de corrente da consciência e a respectiva técnica narrativa do monólogo interior multiplicam os vectores contidos no romance, tornando-o polifónico. Com romancistas como Virginia Woolf e James Joyce, o romance é designado impressionista (com o acento posto nas impressões das personagens) à semelhança do impressionismo na pintura. Se este foi, entre outros aspectos, uma reacção contra a fotografia, o romance assim designado pode ser entendido como uma reacção contra o cinema mudo. O que o cinema não pode registar é a vida profunda de uma consciência. Ulisses (1922) de James Joyce é considerado pela maioria dos estudiosos como a tentativa mais radical e audaciosa para apreender a complexidade da vida psíquica através do monólogo interior, que reproduz a caoticidade da corrente da consciência das personagens. Entrou para a história da literatura do século XX como um exemplo de texto típico do romance psicológico o monólogo de Molly Bloom (mulher do protagonista de Ulisses, Leopold Bloom), que é a descrição do trabalho mental referente a uma insónia em que o discurso da personagem é registado directamente no texto narrativo com o mínimo de sintaxe.

No panorama da literatura francesa, destaca-se Marcel Proust para quem a subjectividade do escritor é uma manifestação objectiva no texto artístico. A sua obra À Procura do Tempo Perdido (1913) é devedora da psicologia do inconsciente e da multiplicação do eu. No entanto, para alguns estudiosos, a concepção do romance em Proust (a famosa expressão “intermitências do coração”, tão produtiva do ponto de vista da configuração do universo romanesco) não provém da influência de Freud nem de Bergson. Trata-se de uma interpretação, a de Proust, decorrente da sociosfera de crise de valores, que era a da sua época e, ainda, de uma criação na tradição do “culto do eu” instituído pelo autor francês finissecular, M. Barrès. Mas antes de Proust, já Gide escrevera narrativas profundamente antirealistas como Paludes. É, no entanto, com Os Falsos Moedeiros (1925), que Gide se notabiliza como o romancista em busca de uma nova definição de eu. Este romance tem como protagonista um romancista, que pensa a intriga do romance dentro do próprio romance.

O desdobramento do eu, a dicotomia sinceridade e artificialidade são vectores semânticos cruciais do romance Jogo da Cabra Cega (1934) de José Régio, o autor português mais visível do romance dito psicológico das primeiras décadas do século XX. A narrativa psicológica articula-se, neste autor, com o segundo modernismo português ligado à revista coimbrã Presença (1927-1940). Assim, o psicologismo regiano é presencista no sentido específico em que este “sócio-código” literário interpreta a complexidade da vida interior.

Para este tipo de narrativa, o desenrolar do tempo permite detectar o ilogismo do ser humano em que todo e qualquer dado é configurado por interpretações pessoais. A noção de tempo é fundamental. A suposta ausência de objectividade reside no tempo subjectivo vivenciado pela personagem a que Bergson chamou durée e Virgina Woolf time in mind. O fluxo ininterrupto do tempo psicológico altera a linearidade cronológica e cria uma politemporalidade.

{bibliografia}

Fokkema, Douwe W., História Literária – Modernismo e Pós-Modernismo, Vega, Lisboa, s/d.; Monteiro, Adolfo Casais, O que foi e o que não foi o Movimento da Presença, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 1995; Putnam, Hilary, Razão, Verdade e História, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1992; Raimond, Michel, La Crise du Roman – des lendemains du Naturalisme aux années vingt, José Corti, Paris, 1966; Régio, José, Páginas de doutrina e crítica da “presença”, Brasília Editora, Porto, 1977; Zéraffa, Michel, La Révolution Romanesque, U.G.E., 10/18, Paris, 1972;