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Termo do fr. sottie e de sot que literalmente significa louco) Composição dramática de carácter profano e cómico, que se desenvolveu em França a partir do séc. XV e que desapareceu no final do séc. XVI. Escritas e representadas pelos sots, comediantes amadores originários da média burguesia que se associavam propositadamente para as actuações, as sotias eram representações de carácter satírico e frequentemente abstracto, recheadas de inúmeras personagens, com um cenário muito reduzido e cuja forma deve muito às manifestações e ao espírito das antigas Fête de fous – insolentes paródias às cerimónias religiosas.

Por vezes, era um espectáculo que se limitava a um cortejo de várias personagens que faziam acrobacias, encontrando-se dominadas pela loucura, e desenrolando-se entre elas um diálogo quase absurdo, cheio de duplos sentidos, equívocos e obscenidades, que provocava o riso do espectador.

No entanto, na sua maioria, estas representações punham em cena personagens que representavam as diferentes classes sociais ou responsáveis do governo, acabando por ser julgadas por um tribunal de sots, presididos pela Mére Sotte, que tinha como objectivo desvendar e censurar os vícios ou as injustiças da vida social e política, mas nunca esquecendo o cómico imediato, dominando sempre um tom boémio e debochado, e sendo evidente um certo gosto pelo obsceno. Nestes julgamentos, os sots eram uma espécie de censores públicos anónimos, designados apenas por um número, ou qualidade genérica, com função crítica. O seu costume reduzia-se a um fato cinzento com um capuz com orelhas de burro, que evocava a principal característica da sua personagem, a loucura, que simultaneamente lhe conferia imunidade contra a censura. As personagens conduzidas a julgamento eram personificações alegóricas das classes sociais, que acabavam por ser condenadas. Porém, estavam firmemente convencidas da sua loucura e rejeitavam a responsabilidade dos seus actos, que acabava por recair num terceiro grupo de personagens que representava a causa do mal e da desordem social. Obviamente, os responsáveis apontados não podiam ser elementos do regime, sendo substituídos por alegorias que simbolizavam o poder vigente.

Mais tarde, a sotia perdeu o seu carácter processional e, recorrendo também à alegoria, punha em cena a adaptação de um acontecimento real, de uma ideia ou de um aspecto do quotidiano, procurando transmitir uma mensagem de denúncia social e moral, sempre protegida contra a censura pelo elemento da folia. Neste caso, o papel do sot alterava-se, deixando de ser censor e transformando-se numa vítima, sendo a função crítica transferida para o público.

A sotia surgia assim como voz contestatária da opinião pública, hábil e convenientemente disfarçada por uma loucura simulada. No entanto, no reinado de Luís XII, o próprio rei se serviu dela para alertar a população para os problemas da nação. É o caso da célebre peça intitulada Sottie du jeu du Prince des Sots, da autoria de Gringore, que alertou a população para a ambição do Papa Júlio II que pretendia opor a Itália aos seus antigos aliados franceses.

{bibliografia}

Jean Claude Aubailly: Le thêátre mediéval profane et comique – la naissance d’un art, Librairie Larousse, 1975.