Na teoria literária, a rasura designa a supressão, alteração ou recobrimento de uma palavra, expressão ou passagem num manuscripto, num testemunho textual ou numa versão de trabalho. Embora possa eliminar um elemento da superfície do texto, a rasura deixa frequentemente um vestígio material (uma palavra riscada, apagada, substituída ou parcialmente ilegível) que conserva a memória de uma formulação anterior.
No âmbito da crítica genética, a rasura é entendida como um dos principais indícios do processo de criação literária. Não representa apenas uma perda ou uma correcção: revela hesitações, escolhas, deslocamentos de sentido e possibilidades abandonadas pelo auctor. A obra pode, assim, ser estudada não exclusivamente como texto acabado, mas também como resultado de uma sucessão de operações de escrita, leitura, revisão e reescrita.
A rasura possui igualmente uma dimensão hermenêutica. O que foi eliminado pode continuar a influenciar a leitura, sobretudo quando permanece parcialmente visível ou quando a sua ausência produz uma lacuna significativa. Deste modo, a rasura põe em causa a ideia de um texto inteiramente estável e transparente, chamando a attenção para a materialidade da escrita e para a pluralidade das suas versões.
É necessário distinguir a rasura autorial, produzida pelo próprio escritor durante a composição ou revisão da obra, da rasura editorial, resultante de censura, supressão, normalização ou intervenção posterior. No primeiro caso, ela documenta a génese do texto; no segundo, pode denunciar relações de poder, critérios de edição ou tentativas de controlar a transmissão da obra. Em sentido mais amplo, a rasura pode ser concebida como figura daquilo que a cultura, a memória ou a própria linguagem procuram apagar, mas que regressa sob a forma de vestígio, silêncio ou ausência. A sua leitura exige, por isso, uma atenção simultânea ao que o texto diz, ao que elimina e ao que deixa entrever.
O uso mais influente do termo na teoria literária contemporânea vem da tradução de sous rature (“sob rasura” ou “under erasure”). Inspirado em Martin Heidegger, que riscava a palavra Sein (Ser) para indicar sua inadequação metafísica, Derrida sistematiza o procedimento: escreve-se um termo, cruza-se com um X, mas deixa-se o vocábulo visível. O termo é inadequado, porém necessário. Essa operação ilustra a différance: o significado nunca está plenamente presente; está sempre adiado, dependente de diferenças, rastros e contextos. Conceitos centrais da metafísica ocidental (origem, presença, autor, sentido último, verdade) são colocados sob rasura para denunciar sua instabilidade sem, no entanto, abandoná-los, pois a linguagem os exige. Na leitura literária, a rasura desconstrói oposições binárias (fala/escrita, original/cópia, interior/exterior) e revela o texto como jogo de rastros, aporias e suplementos. A rasura revela que o signo linguístico não possui um significado fixo, transcendental ou absoluto (logocentrismo). O termo rasurado permanece legível porque é estruturalmente necessário, mas o risco sobre ele denuncia a sua falibilidade. O texto literário, lido à luz desta rasura, é visto como um espaço de instabilidade, onde os sentidos estão num jogo constante de différance.
- Biasi, Pierre-Marc de. “What Is a Literary Draft? Toward a Functional Typology of Genetic Documentation.” Yale French Studies, no. 89, 1996, pp. 26–58.
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