Designação da historiografia literária anglo-saxónica para um conjunto de textos, sobretudo dos séculos XVI e XVII, centrados em vagabundos, mendigos, burlões, criminosos e outras figuras marginalizadas. Estes textos descrevem frequentemente os costumes, as linguagens e as estratégias de sobrevivência do submundo social, combinando observação aparentemente documental, sátira, ficção e intenção moralizadora. A expressão relaciona-se com a tradição da literatura picaresca, embora os dois conceitos não sejam rigorosamente equivalentes. A literatura picaresca se organiza, em geral, em torno da figura de um pícaro que narra as suas próprias aventuras e ascensões ou fracassos num mundo social marcado pela pobreza, pela fraude e pela hipocrisia. Já a rogue literature pode incluir textos de natureza mais diversificada, como relatos de costumes, panfletos, catálogos de criminosos, narrativas de viagens pelo mundo marginal e exposições de supostos códigos ou linguagens secretas.
Na Inglaterra, este tipo de produção desenvolveu-se em estreita relação com a expansão da imprensa e com a preocupação das autoridades perante a vagabundagem e a criminalidade. Obras como A Caveat or Warning for Common Cursetors, de Thomas Harman, apresentam descrições de mendigos e delinquentes, pretendendo simultaneamente informar, advertir e entreter o leitor. Contudo, a pretensa autenticidade destes textos deve ser examinada com cautela: muitas vezes, a representação do marginal resulta mais dos preconceitos e das fantasias dos autores e do público do que de uma observação objectiva. A rogue literature ocupa, assim, uma posição intermédia entre o documento social e a ficção. Ao dar visibilidade a personagens excluídas da ordem dominante, pode revelar tensões relacionadas com a pobreza, a mobilidade social, o trabalho e o controlo dos corpos e dos comportamentos. Ao mesmo tempo, a sua linguagem satírica e sensacionalista tende a transformar a marginalidade num espectáculo literário.
- Chandler, Frank Wadleigh. The Literature of Roguery. 2 vols., Houghton Mifflin, 1907.
- Guillén, Claudio. “Toward a Definition of the Picaresque.” Literature as System: Essays toward the Theory of Literary History, Princeton UP, 1971, pp. 71–106.
- Harman, Thomas. A Caveat or Warning for Common Cursetors. 1566. Edited by S. J. H. Herrtage, Early English Text Society, 1869.
- Kinney, Arthur F., editor. Rogues, Vagabonds, and Sturdy Beggars: A New Gallery of Tudor and Early Stuart Rogue Literature. University of Massachusetts Press, 1973.
- Parker, Alexander A. Literature and the Delinquent: The Picaresque Novel in Spain and the New World, 1599–1753. Edinburgh UP, 1967.
- Salzman, Paul. English Prose Fiction, 1558–1700: A Critical History. Oxford UP, 1985.



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