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Za Ze

Zeugma é a construção retórica pela qual uma única palavra, normalmente um verbo, mas também um adjectivo ou outro elemento regente, estabelece simultaneamente uma relação sintáctica com dois ou mais elementos, evitando a repetição e obrigando o leitor a reconstruir, para cada um deles, o sentido que essa palavra assume. O termo zeugma deriva do grego ζεῦγμα (zeûgma), que significa literalmente “junção”, “ligação”, “ato de unir sob o mesmo jugo”, a partir do verbo ζεύγνυμι (zeúgnumi) — “atar”, “juntar”, “pôr sob o mesmo jugo”. Na retórica clássica (especialmente em gramáticos e rectores gregos e latinos como Dionísio de Halicarnasso e Quintiliano), o termo designa uma figura em que uma única palavra (geralmente um verbo ou adjetivo) rege dois ou mais termos da frase, ainda que semanticamente pertença plenamente apenas a um deles.

Por exemplo, “Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos” (Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas). Este é um zeugma retórico, porque o verbo amou rege dois complementos radicalmente diferentes: quinze meses → duração temporal; onze contos de réis → quantia monetária. O amor é, ironicamente, medido simultaneamente em tempo e em dinheiro. A construção produz uma equivalência semântica absurda e, por isso, profundamente machadiana: o sentimento amoroso é reduzido à lógica da contabilidade. E em “Furor que aos vivos, medo e aos mortos faz espanto” (Luís de Camões, Os Lusíadas), o verbo “faz” aparece apenas na segunda construção e é recuperado na primeira. Temos, portanto, a acepção gramatical de zeugma como omissão de um termo já expresso, que é precisamente a definição tradicional de zeugma como modalidade de elipse. Este exemplo é útil porque mostra que o zeugma não implica necessariamente polissemia ou comicidade.

De notar que o zeugma é considerado uma forma específica de elipse. A diferença fundamental é que na elipse comum o termo omitido é deduzível pelo contexto mas não foi mencionado antes (ex: “Na rua, muito silêncio”,  omite-se o verbo haver). No zeugma, o termo omitido já foi explicitamente declarado na frase. Portanto, o  zeugma é a arte de fazer uma só palavra comportar duas ou mais relações semânticas diferentes.

 

Bibliografia:

Corbett, Edward P. J., and Robert J. Connors. Classical Rhetoric for the Modern Student. 4th ed., Oxford UP, 1999.

Lausberg, Heinrich. Handbook of Literary Rhetoric: A Foundation for Literary Study. Translated by Matthew T. Bliss et al., Brill, 1998.

Quintilian. Institutio Oratoria. Translated by H. E. Butler, Harvard UP, 1920–1922.

Preminger, Alex, and T. V. F. Brogan, editors. The New Princeton Encyclopedia of Poetry and Poetics. Princeton UP, 1993.