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Nome próprio literário que nasce da necessidade de realçar o perfil singular de uma dada personagem. De forma geral, todos os nomes próprios têm origem ou no carácter das pessoas ou na sua profissão. Transposta esta realidade para a criação literária, vemos que os nomes de muitas personagens romanescas e dramáticas tiveram idêntica origem. Entre muitos outros, registam-se o parvo Joane, do Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, a Morgadinha dos Canaviais, do romance com o mesmo nome de Júlio Dinis, o ridículo menino-prodígio Eusebiozinho de Os Maias, de Eça de Queirós. O António Malhadinhas, da novela O Malhadinhas, de Aquilino Ribeiro, que no-lo apresenta como “um zé-ninguém”, a D.Flor de Jorge Amado, figura central do romance D. Flor e Seus Dois Maridos. Nos romances de Alexandre Pinheiro Torres, baptizam-se com frequência as personagens com aptrónimos característicos: o Faísca-nas-Caças, autoridade em cães, e o coronel Pederneiras, herói dos Dembos, mais conhecido pelo nome de Coronel dos Fiambres (Espingardas e Música Clássica); em O Adeus às Virgens, desfilam duas irmãs de apelido Mil-Homens; e em A Quarta Invasão Francesa, encontramos uma velha alentejana, de nome Mina Pardaleca, que “sabia transformar-se numa ovelha bem agasalhada, Verão e Inverno”. Em Mário ou Eu Próprio-o-Outro, de José Régio, podemos considerar a personagem “o Outro” um aptrónimo, pois o nome, para além de ser uma recuperação do drama descrito em Céu em Fogo, de Mário de Sá-Carneiro traduz a entidade com quem este poeta mais “dialogou” na sua escrita intersubjectiva.