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Termo proveniente do verbo inglês to brag que significa vangloriar-se, ao qual se juntou o sufixo argumentativo italiano, que Edmund Spenser usou para formar o nome da personagem Braggadochio na sua obra The Faerie Queene (1590). Braggadochio representa o protótipo da personagem do soldado que alardeia a sua valentia, não passando, no entanto, de um cobarde.

De acordo com a distinção introduzida por E. M. Forster em Aspects of the Novel (1927), poder-se-á integrar este tipo de personagem na categoria das personagens planas construídas segundo «a single idea or quality» e apresentadas sem traços de individualidade, por oposição às personagens redondas ou modeladas de grande densidade psicológica. Braggadocio pertence também ao grupo das personagens tipo, ou seja, personagens recorrentes num género literário particular e reconhecidas como parte das convenções do mesmo.

As suas raízes remontam à antiga comédia grega com os seus três tipos de personagens convencionais: o alazão (representando os impostores fanfarrões), o bomóloco (o palhaço, o farsista) e o eirão (a personagem compreensiva e humilde). Braggadocio identifica-se com o alazão que, nas comédias gregas, toma, entre outras, as formas do fanático religioso (que Molière aproveitaria para a sua personagem Tartufo, da peça do mesmo nome, 1870), do pedante e do soldado pretencioso levado ao ridículo. Este último entra na comédia romana através da personagem do soldado Miles Gloriosus (literalmente: “de glória vã”) de Plauto que, por seu turno, aparecerá pela primeira vez eponimamente no drama inglês isabelino na obra Ralph Roister Doister (1553) de Udall.

Ao criar Braggadochio, Spenser cria uma personagem oposta aos ideais de coragem e valentia representados pelas doze personagens de cavaleiros que partem em aventuras gloriosas. É Braggadochio quem se interpõe no caminho do herói Guyon, expoente da temperança, ao roubar-lhe o cavalo (livro III, canto 3). É o soldado dissimulado e impostor que constantemente se vangloreia dos seus feitos. No livro V é finalmente revelado como um cobarde, uma fraude e expulso da corte com o seu escudeiro Trompart, tão vil quanto ele.

Outras personagens deste tipo são Bobadill na obra de Ben Jonson Everyman in his Humour (1598) e o Capitão Brazen na obra Recruiting Officer (1706) de Farquhar. Porém, o exemplo máximo deste tipo do soldado fanfarrão é o Falstaff de Shakespeare nas obras Henry IV (1590-91) e The Merry Wives of Windsor (1599-1600).