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Adição ou inventário de coisas relacionadas entre si, cuja ligação se faz quer por polissíndeto quer por assíndeto. Em latim era conhecida por enumeratio e em grego, por eperismos. Alguns retóricos propõem que à enumeração exaustiva se chame inventário e à enumeração parcial, exemplo. Distingue-se normalmente da acumulação, porque exige um nexo de relação semântica entre as coisas listadas; como todos os termos enumerados não estão obrigados a um crescendo lógico, não se confunde com a amplificação, sempre que não se registe uma evolução do tipo: abstracto para o concreto, geral para o particular, etc. No entanto, estas figuras (acumulação e amplificação) são, a rigor, enumerações de signos. Trata-se de um artífico retórico muito útil a qualquer tentativa de duplicata de uma ideia que exige ou se presta à plurissignificação. Por exemplo, muita poesia modernista recorre ao esquema da enumeração para marcar um ritmo alucinatório da expressão, como em “A cena do ódio”, de Almada Negreiros que contém enumerações do tipo: “Larga a cidade masturbadora, febril, / rabo decepado de lagartixa, / labirinto cego de toupeiras, / raça de ignóbeis míopes, tísicos, tarados, / anémicos, cancerosos e arseniados!”. A enumeração pode funcionar apenas como um mero artíficio, acumulando signos sem um fio condutor, sem outro fim que não seja atingir um certo formalismo, como aconteceu na poesia barroca. Certos modos de expressão como o monólogo interior são propícios à enumeração caótica, sem um tema específico a ligar as coisas enumeradas, mas premeditadamente privilegiando a fragmentação e dispersão do discurso como técnica literária, o que é bem visível em grandes narrativas como Ulisses, de James Joyce, ou Gravity’s Rainbow, de Thomas Pynchon.