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Expressão de origem alemã (traduzida em inglês por horizon of expectation e en francês por horizon d’attente), que provém da fenomenologia de Husserl e da hermenêutica de Gadamer. Nesta perspectiva, o horizonte é, basicamente, o modo como nos situamos e apreendemos o mundo a partir de um ponto de vista subjectivo; o horizonte de expectativas é uma característica fundamental de todas as situações interpretativas, dizendo respeito a uma espécie de fatalismo que acompanhará qualquer ponto de vista face à visão que temos do mundo: quando interpretamos, possuimos já um conjunto de crenças, de princípios assimilados e ideias aprendidas que limitam desde logo a liberdade total do acto interpretativo; por outras palavras, quando lemos um texto literário, o nosso horizonte de expectativas actua como a nossa memória literária feita de todas as leituras e aquisições culturais realizadas desde sempre. Gadamer chamou à fusão do nosso horizonte individual com o horizonte do outro (texto ou pessoa individualizada) a compreensão (Verstehen). Este processo é conhecido por fusão de horizontes, fusão do horizonte do presente (do intérprete) com o horizonte do passado (inscrito no texto). Hans Robert Jauss, discípulo da hermenêutica de Gadamer, membro da Escola de Constance, e um dos mais inflexível dos críticos da estética da recepção, é o grande responsável pela divulgação da expressão nas décadas de 1970 e 1980. No seu ensaio nuclear, “A Literatura como Provocação” (1970), procurou ultrapassar os dogmas marxistas e formalistas que não privilegiam o leitor no acto interpretativo do texto literário e reforçou o conceito de horizonte de expectativas como impulsor da interpretação: “Uma obra não se apresenta nunca, nem mesmo no momento em que aparece, como uma absoluta novidade, num vácuo de informação, predispondo antes o seu público para uma forma bem determinada de recepção, através de informações, sinais mais ou menos manifestos, indícios familiares ou referências implícitas. Ela evoca obras já lidas, coloca o leitor numa determinada situação emocional, cria, logo desde o início, expectativas a respeito do ‘meio e do fim’ da obra que, com o decorrer da leitura, podem ser conservadas ou alteradas, reorientadas ou ainda ironicamente desrespeitadas, segundo determinadas regras de jogo relativamente ao género ou ao tipo de texto.” (A Literatura como Provocação, trad. de Teresa Cruz, Veja, Lisboa, 1993, pp.66-67). Qualquer obra de arte literária só será efectiva, só será re-criada ou “concretizada”, quando o leitor a legitimar como tal, relegando para plano secundário o trabalho do autor e o próprio texto criado. Para isso, é necessário descobrir qual o horizonte de expectativas que envolve essa obra, pois todos os leitores investem certas expectativas nos textos que lêem em virtude de estarem condicionados por outras leituras já realizadas, sobretudo se pertencerem ao mesmo género literário. O melhor indicador para determinarmos o horizonte de expectativas é a recepção da obra por parte do leitor. Uma crítica imediata ao conceito de horizonte de expectativas assim definido consiste no facto de se apresentar como uma espécie de instrumento único de análise estética de uma obra literária.

{bibliografia}

E. H. Gombrich: Art and Illusion (1960); Hans
Robert Jauss: Literaturgeschichte als Provokation (1970;
A Literatura como Provocação, Lisboa, 1993); Heinrich Anz:
Erwartungshorizont: Ein Diskussionsbeitrag zu H. R. Jauss’
Begrundung einer Rezeptionsasthetik der Literatur (an
Exchange)”, Euphorion: Zeitschrift fur Literaturgeschichte,
70 (1976).