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A ideia de matéria negra estabelece-se a partir do reconhecimento da existência de um estado indeterminado da literatura, bem como da ocorrência num texto literário de algo que é indefinido para o intelecto ou que resulta de uma experiência das coisas incomportável nas possibilidades da sua representação linguística. A matéria negra da literatura não tem um valor lógico que a torne empiricamente testável mas é, antes, unicamente intuível, existindo pelas regiões (idealistas) daquele tipo de simpatia intelectual que, por exemplo, nos é indicada pela durée de Henri Bergson, e através da qual nos colocamos a nós próprios dentro de um objecto de maneira a coincidir com aquilo que nele é único e, consequentemente, inexprimível.

Inexprimível, loucura, delírio, je ne sais quoi, inexplicável, sublime, inefável, inominável, indefinível, neutro, marca, são alguns dos conceitos através dos quais o pensamento ocidental tentou, desde sempre, reconhecer o movimento obscuro por que a literatura se constitui num corpo de linguagem estranhamente secreto. O nosso tempo não é excepção. No final deste milénio anda no ar a ideia de que a literatura existe como tal porque é uma linguagem particular do indizível. Partilho esta ideia, mas também acredito que é necessário autenticar a sua produtividade com a assinatura do nosso próprio tempo intelectual. A minha noção de matéria negra, construída por analogia com a composição dinâmica do universo estudada pela Astronomia e pela Astrofísica, revela essa autenticação a dois níveis.

Por um lado, a matéria negra aponta para um momento anterior à constituição do sentido. Enquanto tal, ela dá acesso a uma consideração do literário para além dos limites impostos pelas determinações referenciais da linguagem, contemplando a possibilidade de se propor a literatura por uma treva que existe somente pelo modo como é sentida, pressentida ou simplesmente intuída para além da sua própria abertura e fechamento aos discursos do mundo. Está, assim, aberto o caminho para a teorização da literatura como uma contínua representação (paradoxalmente) silenciosa das coisas. Estão, assim, criadas condições para uma identificação teórica da qualidade específica do literário num domínio que sustenta (sem se confundir com) as configurações semânticas da representação e a reconhecida heteronomia dos textos.

Por outro lado, o reconhecimento da energia negativa que subjaz à matéria negra da literatura impõe uma reflexão teórica acerca das suas incidências no processo crítico. Dois horizontes se desenham. Em primeiro lugar, aquele que nos revela que os efeitos retóricos inerentes às entidades textuais se dão ao leitor crítico (incluindo nesta categoria o professor de literatura) menos pela possibilidade de solução da sua ambiguidade congénita, e mais por uma irredutibilidade essencial por onde a interpretação crítica adquire um estatuto central. Em segundo lugar, e em virtude da pluralidade de olhares entretanto agenciados pela matéria negra, cada interpretação oferece a sua diferença por um movimento egoísta que outra coisa não mostra senão a expressão individual da subjectividade do crítico, a sua interioridade mais radical, o seu egoísmo dominante, a viagem insolidária que pelo texto ele faz em si.

A noção de matéria negra tem, portanto, uma razão teórica cujo alcance se pode também medir pela dinâmica agonística com que contraria as várias fórmulas objectivistas e/ou cientifistas de conceptualização da literatura e da crítica, as quais, no torpor de uma letargia das evidências, pretendem unicamente destacar, acentuar e confirmar o carácter determinado das obras literárias.

{bibliografia}

Manuel Frias Martins: Matéria Negra. Uma Teoria da Literatura e da Crítica Literária, 1993, 1995 (2ª ed.).