OBJECTO (do lat. objectus, particípio passado de obicere, «lançar diante, opor»). Substantivo masculino que, no âmbito da teoria da literatura, da narratologia e da estética, assume diversas acepções, que vão desde a sua função estrutural no interior de uma intriga até à sua condição ontológica enquanto obra de arte autónoma. O conceito de objecto é particularmente fecundo porque atravessa diversos níveis da literatura: o nível da representação, quando designa coisas figuradas no texto; o nível narrativo, quando indica aquilo que move a acção; o nível simbólico, quando condensa valores; o nível estético, quando se refere à própria obra; e o nível crítico, quando identifica aquilo que é estudado. Em literatura, o objecto é simultaneamente presença e construção: parece pertencer ao mundo, mas existe pela linguagem; parece imóvel, mas pode desencadear acções, desejos, memórias e interpretações.
1. O Objecto Actancial (Narratologia)
Na teoria estruturalista da narrativa, nomeadamente no modelo actancial desenvolvido por A. J. Greimas, o Objecto (ou Objecto de valor) é um dos seis actantes fundamentais. Constitui o pólo em direcção ao qual se orienta o desejo, a busca ou a acção do Sujeito. Pode ser de natureza concreta (um tesouro, uma pessoa) ou abstracta (o amor, a salvação, a vingança, o conhecimento). Por exemplo, o Santo Graal no ciclo de lendas arturianas é o objecto mítico supremo que move os cavaleiros da Távola Redonda (os sujeitos). Em Os Lusíadas de Luís de Camões, a descoberta do caminho marítimo para a Índia e a consequente projecção da Fé e do Império constituem o objecto de valor da acção heroica do povo português. Em Vidas Secas, de Graciliano Ramos, a sobrevivência, a posse da terra e a possibilidade de uma vida digna funcionam como objectos de valor precários e ameaçados.
2. O Objecto Físico, Simbólico ou Catalisador (Poética e Diegese)
Refere-se ao elemento material presente no universo diegético (a realidade interna da história) que transcende a sua função meramente decorativa ou referencial, adquirindo uma dimensão estruturante. Um objecto material adquire valor simbólico quando remete, de forma relativamente estável ou contextualmente construída, para sentidos que excedem a sua função prática. Pode funcionar como motivo condutor (leitmotiv), como extensão psicológica de uma personagem, ou como catalisador do enredo e da revelação. Por exemplo, a “madalena” (pequeno bolo) demolhada em chá, em A Caminho de Swann de Marcel Proust, que actua como o objecto catalisador da memória involuntária do narrador; ou o lenço de Desdémona em Otelo de William Shakespeare, instrumento material que desencadeia a tragédia do ciúme. O retrato de D. Sebastião em Frei Luís de Sousa de Almeida Garrett, que adensa a atmosfera de fatalidade e agouros; ou o monóculo de João da Ega n’Os Maias de Eça de Queirós, objecto físico que sublinha visualmente a afectação e o diletantismo da personagem. Um objecto reiterado pode funcionar como motivo; quando concentra um significado convencional ou alegórico, pode constituir um emblema; quando individualiza uma personagem, pode transformar-se em atributo.
3. O Objecto Estético ou Literário (Estética e Teoria da Recepção)
Conceito central na fenomenologia da arte e no New Criticism anglo-saxónico. O poema, o conto ou o romance são encarados como um objecto estético autónomo, orgânico e fechado em si mesmo, que deve ser analisado independentemente das intenções biográficas do autor (a chamada “falácia intencional”) e das emoções do leitor (a “falácia afectiva”). Para o filósofo Roman Ingarden, o texto impresso é apenas uma estrutura de manchas físicas que só se transforma num verdadeiro objecto estético através dos sucessivos actos de concretização efectuados pelo leitor durante a leitura. O objecto estético não se reduz ao suporte material (livro, manuscrito, página, voz) nem à intenção do autor. Constitui-se na relação entre forma, linguagem, percepção e recepção. Por exemplo, um soneto de Camões pode ser considerado objecto estético pela organização métrica, retórica e conceptual que produz uma experiência de leitura. A poesia concreta brasileira, como a de Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari, intensifica a dimensão visual, gráfica e material do poema enquanto objecto estético.
Em Livro do Desassossego, de Bernardo Soares/Fernando Pessoa, a fragmentação textual contribui para a percepção da obra como objecto estético inacabado, instável e múltiplo.
4. O Correlativo Objectivo (Teoria Poética)
Conceito crítico popularizado pelo poeta T. S. Eliot no seu ensaio “Hamlet and His Problems” (1919). Refere-se a um conjunto de objectos, uma situação ou uma cadeia de acontecimentos que servem de fórmula para expressar uma emoção particular. Em vez de o poeta descrever o sentimento de forma abstracta, apresenta factos e objectos sensoriais que evocam imediatamente essa mesma emoção no espectador ou no leitor. Por exemplo, na imagem das “mangas de camisa” solitárias debruçadas às janelas no poema “The Love Song of J. Alfred Prufrock” (T. S. Eliot), evocando visualmente a alienação, o tédio e a fragmentação do homem moderno. Na poesia de Cesário Verde, nomeadamente em “O Sentimento dum Ocidental”, a observação clínica de objectos e cenários vulgares (os gasómetros, as montras, os edifícios sombrios) actua como correlativo objectivo da melancolia, da doença e da opressão asfixiante da vida citadina. Em Sophia de Mello Breyner Andresen, a limpidez de certos objectos e lugares (mar, casa, ânfora, jardim) pode tornar sensível uma ética da inteireza e da ordem.
5. Objecto lírico
Aquilo que é contemplado, evocado ou interpelado pela voz poética. Pode coincidir com uma pessoa amada, uma paisagem, um corpo, uma coisa, uma memória ou uma realidade abstracta. No lirismo, o objecto é frequentemente inseparável do sujeito que o contempla. O poema constrói uma relação entre consciência e mundo, na qual o objecto pode ser revelação, espelho, ausência ou resistência. Nos sonetos de Petrarca, Laura é objecto amoroso e poético, figura de desejo, distância e sublimação. Na lírica camoniana, a mulher amada, a mudança, o desconcerto do mundo e a saudade funcionam como objectos recorrentes de meditação poética.
Em Florbela Espanca, o eu lírico transforma o amor, a dor e a própria imagem feminina em objectos de expressão intensa e teatralizada.
6. Objecto da representação
Aquilo que a obra representa ou pretende representar: uma acção, uma sociedade, uma consciência, uma época, um conflito, uma experiência ou uma realidade imaginária. Esta acepção aproxima-se da mimese aristotélica, embora a teoria literária moderna tenha problematizado a ideia de que a literatura simplesmente imita o real. O objecto da representação é sempre mediado por género, linguagem, perspectiva e convenção. Importa distinguir:
- objecto real: entidade existente fora da obra;
- objecto representado: configuração textual dessa entidade;
- objecto puramente ficcional: entidade sem referente empírico necessário;
- objecto intencional: aquilo para que se dirige a consciência do autor, narrador, personagem ou leitor.
Na tragédia grega, o objecto da representação pode ser uma acção elevada, envolvendo culpa, destino e reconhecimento. No romance realista, o objecto da representação é frequentemente a sociedade em transformação. Em Guerra e Paz, de Tolstói, o objecto representado é simultaneamente histórico, familiar, moral e filosófico. Em Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, o sertão é objecto de representação geográfica, linguística, metafísica e existencial.
7. Poema-objecto, objecto-poema e livro-objecto
O poema-objecto ou objecto-poema é uma composição em que a materialidade do suporte, a tipografia, a disposição espacial, a tridimensionalidade ou a manipulação física participam na produção do sentido. O texto deixa de ser apenas uma sequência verbal e assume-se como objecto visual ou táctil. A categoria abrange: poemas visuais; caligramas; colagens; montagens; objectos surrealistas acompanhados de inscrições; poesia concreta; livros de artista; livros-objecto; composições digitais manipuláveis. Os caligramas de Guillaume Apollinaire fazem coincidir parcialmente o desenho tipográfico e o objecto nomeado. A poesia concreta de Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari explora a palavra como unidade verbal, visual e sonora. Em Portugal, Ana Hatherly e E. M. de Melo e Castro desenvolveram formas de escrita visual e experimental nas quais a página se converte em campo material de relações. O livro-objecto chama a atenção para o volume, a encadernação, o papel, os cortes, as dobras e a possibilidade de leitura não linear.
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