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Na heráldica, o conceito designa o fenómeno de reprodução de um escudo por uma peça situada no seu centro. André Gide usou-o para referir essa visão em profundidade e com reduplicação reduzida sugerido pelas caixas chinesas ou pelas matrioskas (bonecas russas), promovendo o deslizamento do conceito para o campo dos estudos literários e das artes plásticas em geral.

A mise en abyme consiste num processo de reflexividade literária, de duplicação especular.  Tal auto-representação pode ser total ou parcial, mas também pode ser clara ou simbólica, indirecta.  Na sua modalidade mais simples, mantém-se a nível do enunciado:  uma narrativa vê-se sinteticamente representada num determinado ponto do seu curso.  Numa modalidade mais complexa, o nível de enunciação seria projectado no interior dessa representação:  a instância enunciadora configura-se, então, no texto em pleno acto enunciatório.  Mais complexa ainda é a modalidade que abrange ambos os níveis, o do enunciado e o da enunciação, fenómeno que evoca no texto, quer as suas estruturas, quer a instância narrativa em processo.  A mise en abyme favorece, assim, um fenómeno de encaixe na sintaxe narrativa, ou seja, de inscrição de uma micro-narrativa noutra englobante, a qual, normalmente, arrasta consigo o confronto entre níveis narrativos.

Em qualquer das suas modalidades, a mise en abyme denuncia uma dimensão reflexiva do discurso, uma consciência estética activa ponderando a ficção, em geral, ou um aspecto dela, em particular, e evidenciando-a através de uma redundância textual que reforça a coerência e, com ela, a previsibilidade ficcionais.

{bibliografia}

DÄLLENBACH, Lucien . “Intertexte et autotexte”, Poétique (27) (1976); Id.: Le récit spéculaire. Essai sur la mise en abyme (1977).