Select Page
A B C D É F G H Í J K L M N O P Q R S T Ü V W Z

O mesmo que squib, embora geralmente conotado com formas de caricatura e ridicularização ainda mais virulentas, notoriamente grosseiras ou insultuosas (do verbo francês lamper e da respectiva forma “lampons”, usada como refrão de uma popular composição seiscentista significando originariamente “Bebamos, pois!”). A etimologia não é inteiramente pacífica, mas parece certo que o termo começou por designar esse tipo de composição jocosa, cantada ou escrita, de carácter mordaz. A partir do século XVII, lampoon passou a ser usado em inglês para nomear uma sátira pessoal, frequentemente de circulação manuscrita ou impressa.

lampoon não constitui uma forma literária absolutamente autónoma, com regras métricas ou estruturais fixas. Pode ser uma obra literária elaborada, mas conserva normalmente uma relação estreita com a actualidade, com a polémica e com a reputação das pessoas visadas. O lampoon adquiriu particular importância na Inglaterra da Restauração e do século XVIII, graças ao desenvolvimento dos jornais, dos panfletos e das redes de sociabilidade literária. John Dryden, Jonathan Swift, Alexander Pope e John Wilmot, conde de Rochester, praticaram formas de ataque satírico que oscilam entre a poesia de circunstância, o epigrama, a paródia e a invectiva pessoal. Em The Dunciad, Pope transforma adversários literários e figuras do mundo editorial em personagens de uma epopeia burlesca. Em A Tale of a Tub e em diversos panfletos, Swift combina o ataque a instituições e grupos com a caricatura de posições ou personalidades concretas. O seu lampoon é particularmente significativo porque pode conservar uma aparência de racionalidade argumentativa enquanto conduz o alvo ao absurdo e à humilhação.

No mundo francês, os libelos políticos e religiosos, a sátira de costumes e a literatura clandestina exerceram funções semelhantes. Voltaire, por exemplo, desenvolveu em poemas, diálogos e textos polémicos uma escrita de ataque que frequentemente toma como alvo adversários identificáveis. O lampoon participa, neste período, da formação de uma esfera pública moderna, na qual a reputação literária e política se torna objecto de disputa impressa.

No século XIX, a imprensa satírica, a caricatura política e o folhetim deram ao lampoon uma circulação particularmente ampla. O texto satírico passou a coexistir com a imagem, o desenho e a legenda, estabelecendo uma relação estreita com a cultura periódica. Muitas composições publicadas em jornais não visavam apenas a correcção moral de um vício, mas a destruição pública de uma reputação.

O desenvolvimento moderno do lampoon está também ligado à profissionalização do escritor satírico e do jornalista, bem como à crescente importância do escândalo, da polémica parlamentar e da crítica literária. No século XX, a tradição prolonga-se em revistas humorísticas, colunas de opinião, manifestos, paródias e textos de combate. Autores como Karl Kraus, no mundo de língua alemã, ou George Orwell, em determinados ensaios e textos de intervenção, demonstram como o ataque a pessoas e instituições pode articular-se com uma crítica mais abrangente da linguagem pública e da ideologia. Ainda assim, nem todo o texto satírico ou político é um lampoon: a presença de um alvo individualizável e o carácter concentrado do ataque continuam a ser decisivos.

Um lampoon pode perder grande parte da sua força quando desaparecem as referências históricas que permitiam identificar o alvo. Por esse motivo, o estudo literário do género exige frequentemente pesquisa contextual: conhecimento de polémicas, relações de poder, jornais, círculos intelectuais e convenções de leitura. Convém, também, distinguir o lampoon da sátira e da difamação. A sátira pode ser impessoal, alegórica ou institucional; o lampoon tende a ser concentrado e pessoal. A difamação possui uma dimensão jurídica e factual que não é necessária ao lampoon: um texto pode ser literariamente lampónico mesmo quando a sua acusação é manifestamente fictícia, hiperbólica ou absurda. O termo designa, portanto, uma forma de ataque satírico cuja matéria estética é a reputação pública do alvo.

Bibliografia:

  • Bakhtin, Mikhail. Rabelais and His World. Translated by Hélène Iswolsky, Indiana University Press, 1984.
  • Borges, Jorge Luis, editorAntologia da Literatura Fantástica. Editorial Presença, 1965.
  • Elliott, Robert C. The Power of Satire: Magic, Ritual, Art. Princeton University Press, 1960.
  • Griffin, Dustin. Satire: A Critical Reintroduction. University Press of Kentucky, 1994.
  • Hodgart, Matthew. Satire. World University Library, 1969.
  • Lanciani, Giulia, and Giuseppe Tavani, editors. Cantigas de escárnio e maldizer dos trovadores e jograis galego-portugueses. Editorial Caminho, 1998.
  • Pope, Alexander. The Dunciad. Edited by James Sutherland, Methuen, 1953.
  • Rosenheim, Edward W. Swift and the Satirist’s Art. University of Chicago Press, 1963.
  • Saraiva, António José, e Óscar Lopes. História da Literatura Portuguesa. 17.ª ed., Porto Editora, 1996.
  • Swift, Jonathan. A Tale of a Tub and Other Works. Edited by Marcus Walsh, Cambridge University Press, 2010.
  • Tavani, Giuseppe. A Poesia Lírica Galego-Portuguesa. Editorial Galáxia, 1986.