Do alemão Urtext, de Ur-, prefixo que indica origem, anterioridade ou estado primitivo, e Text, “texto”; termo técnico da crítica textual e da filologia, geralmente mantido na forma alemã mesmo em bibliografia de língua portuguesa. Designa, em crítica textual e em filologia, o texto hipotético mais antigo e presumivelmente mais próximo da redacção original de uma obra, reconstituído pelo editor científico a partir da colação comparativa dos testemunhos manuscritos ou impressos sobreviventes, dos quais estes se teriam derivado por via de cópia, transmissão e sucessiva corrupção textual. O Urtext não coincide, pois, necessariamente com nenhum documento material efectivamente existente, mas configura antes uma construção conjectural do filólogo, obtida por via do método genealógico ou estemático, que visa remontar, através da árvore de filiação dos manuscritos (o stemma codicum), a um arquétipo comum anterior a todas as variantes atestadas. Em sentido lato, e sobretudo na crítica genética moderna, o termo é ainda empregue, de modo menos rigoroso, para designar a primeira versão redigida de uma obra, anterior a reelaborações posteriores do próprio autor, acepção que importa distinguir cuidadosamente da noção estemática clássica, porquanto pressupõe a existência documental efectiva de um texto primitivo, e não a sua reconstituição meramente hipotética.
O termo provém da tradição filológica alemã do século XIX, nomeadamente dos trabalhos de Karl Lachmann sobre a transmissão dos textos clássicos e neotestamentários, que sistematizaram o chamado método lachmanniano ou estemático de edição crítica: a partir da recensão exaustiva dos testemunhos manuscritos disponíveis e da identificação dos seus erros comuns e divergentes, o editor reconstituiria uma árvore genealógica das relações de dependência entre os manuscritos, remontando idealmente a um arquétipo — não necessariamente idêntico ao Urtext autoral, mas o mais próximo possível dele que a documentação sobrevivente permitisse alcançar. Este método, aplicado inicialmente à edição de textos bíblicos e de autores clássicos greco-latinos, seria depois estendido à filologia medieval, sobretudo por via da chamada “filologia românica” de Gaston Paris e da sua escola, que dele fez instrumento fundamental para a edição de textos vernáculos medievais de tradição manuscrita múltipla e variável.
O método lachmanniano viria a ser objecto de importante contestação no século XX, sobretudo por Joseph Bédier, que, na sua célebre edição do Lai de l’Ombre (1913), denunciou a tendência do método estemático para produzir árvores genealógicas artificialmente bipartidas e propôs, em alternativa, o chamado “método do melhor manuscrito” (méthode du bon manuscrit), que renuncia à reconstituição hipotética de um arquétipo em favor da edição rigorosa do testemunho manuscrito julgado mais fiável. Esta polémica, que opõe a busca de um Urtext reconstituído à valorização da materialidade histórica de cada testemunho individual, viria a ser retomada e aprofundada, já na segunda metade do século XX, pela chamada “filologia material” ou “Nova Filologia” (Bernard Cerquiglini, Éloge de la variante, 1989), que questiona radicalmente a própria legitimidade da noção de Urtext aplicada a obras de tradição manuscrita medieval, sustentando que a variação textual não constitui um desvio corruptor de um original perdido, mas antes o modo de existência próprio e constitutivo do texto medieval, concebido como obra essencialmente móvel e plural.
Paralelamente, no domínio da crítica textual de autores modernos cuja documentação genética (rascunhos, provas tipográficas, cadernos de trabalho) se encontra amiúde preservada, a chamada crítica genética francesa, associada a nomes como Louis Hay e ao Institut des Textes et Manuscrits Modernes, deslocou o interesse filológico do problema estemático do Urtext perdido para o estudo positivo e documentado do processo de escrita, entendendo o texto não como um estado original a recuperar, mas como o resultado provisório de um percurso genético observável nos seus vários avant-textes.
A tradição homérica constitui um caso paradigmático. A Ilíada e a Odisseia resultam de uma longa transmissão oral e escrita; por isso, a procura de um Urtext único encontra o problema de saber se terá existido alguma vez uma redacção originária plenamente fixada.
No caso da Bíblia, a expressão pode referir-se ao texto hebraico ou grego anterior às famílias manuscritas conhecidas. Todavia, livros como Jeremias apresentam formas antigas substancialmente diferentes na tradição massorética e na Septuaginta, sugerindo a circulação de edições concorrentes, e não apenas a corrupção progressiva de um original único.
A problemática do Urtext, no sentido estemático clássico, coloca-se de modo particularmente agudo relativamente a obras medievais e clássicas de transmissão manuscrita múltipla, como é o caso da poesia trovadoresca galego-portuguesa, cuja edição crítica moderna, nomeadamente os trabalhos de Carolina Michaëlis de Vasconcelos sobre o Cancioneiro da Ajuda (1904), exigiu a aplicação rigorosa de métodos filológicos de colação e reconstituição estemática dos testemunhos sobreviventes, dispersos por cancioneiros copiados já em Itália no século XVI a partir de originais medievais hoje perdidos. Também a fixação do texto de Os Lusíadas (1572), de Luís de Camões, tem suscitado sucessivas polémicas filológicas quanto à autoridade relativa das duas edições de 1572 (a chamada edição dos “Ilhéus” e a dos “Iões”), problema que, embora não configure exactamente uma questão de Urtext no sentido estemático mais estrito, se aproxima estruturalmente dela ao colocar a questão de qual dos testemunhos impressos coevos se deverá considerar mais próximo da vontade autoral originária.
As obras de Shakespeare também colocam problemas semelhantes. Algumas peças chegaram através de versões impressas divergentes, como os quartos e o First Folio de 1623. Em King Lear, as diferenças entre o quarto de 1608 e o folio podem reflectir corrupção, revisão autoral, adaptação teatral ou uma combinação destes factores. Certas edições modernas publicam, por isso, dois textos, em vez de produzirem um Urtext compósito.
No domínio da crítica genética, aplicável já não à reconstituição estemática mas ao estudo positivo do processo compositivo, é exemplar o caso da obra de Fernando Pessoa, cujo espólio manuscrito, depositado na Biblioteca Nacional de Portugal, tem permitido aos investigadores, nomeadamente a equipa responsável pela edição crítica das Obras de Fernando Pessoa dirigida por Ivo Castro, reconstituir minuciosamente os sucessivos estados redaccionais de poemas como os d’O Guardador de Rebanhos, colocando em evidência, de modo documentalmente comprovado e não meramente hipotético, o problema de que estado textual deverá ser considerado autorizado para efeitos de fixação editorial, num caso paradigmático de aplicação da crítica genética moderna à literatura de língua portuguesa. Fernando Pessoa é, pois, o exemplo mais evidente dos limites do conceito. Muitos textos sobreviveram em papéis soltos, dactiloscritos, cópias, projectos de publicação e redacções alternativas. No Livro do Desassossego, não existe um manuscrito contínuo nem uma ordenação final indiscutivelmente estabelecida pelo autor. Cada edição organiza de maneira diferente os fragmentos atribuídos a Vicente Guedes ou Bernardo Soares. Procurar um Urtext único do livro seria, neste caso, menos exacto do que editar o arquivo, documentar as variantes e explicitar os critérios de selecção e ordenação.
Bibliografia:
- Bédier, Joseph. “La tradition manuscrite du Lai de l’Ombre: réflexions sur l’art d’éditer les anciens textes.” Romania, vol. 54, 1928, pp. 161-196, 321-356.
- Castro, Ivo. Fernando Pessoa: Obra Completa. Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1988-.
- Cerquiglini, Bernard. Éloge de la variante: histoire critique de la philologie. Seuil, 1989.
- Greetham, D. C. Textual Scholarship: An Introduction. Garland Publishing, 1992.
- Hay, Louis. La littérature des écrivains: questions de critique génétique. Corti, 2002.
- Lachmann, Karl. De Ordine Narrationum in Evangeliis Synopticis. 1835.
- Michaëlis de Vasconcelos, Carolina. Cancioneiro da Ajuda. Halle, Max Niemeyer, 1904.
- Picchio, Luciana Stegagno. A Lição do Texto: Filologia e Literatura. I—Idade Média. Edições 70, 1979.
- Shillingsburg, Peter L. Scholarly Editing in the Computer Age: Theory and Practice. 3.ª ed., University of Michigan Press, 1996.
- Spaggiari, Barbara, e Maurizio Perugi. Fundamentos da crítica textual. Lucerna, 2004.
- Tanselle, G. Thomas. A Rationale of Textual Criticism. University of Pennsylvania Press, 1989.
- Tavani, Giuseppe. Ensaios Portugueses: Filologia e Linguística. Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1988.
- Timpanaro, Sebastiano. La genesi del metodo del Lachmann. Le Monnier, 1963.
- West, Martin L. Textual Criticism and Editorial Technique Applicable to Greek and Latin Texts. B. G. Teubner, 1973.



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