Variorum é um termo da crítica textual, da filologia e da edição literária. Designa, em sentido estrito, uma edição crítica ampliada que apresenta o texto de uma obra acompanhado de variantes, notas e comentários provenientes de vários editores, críticos ou tradições interpretativas, permitindo ao leitor acompanhar a instabilidade textual e a história da recepção crítica da obra. A palavra vem do latim variorum, genitivo plural de varius, isto é, “de vários”. A forma completa tradicional é editio cum notis variorum, ou seja, “edição com notas de vários [comentadores]”. O termo entrou no inglês no início do século XVIII, associado justamente a edições que acumulavam notas de diferentes especialistas.
Em literatura, portanto, um variorum não é simplesmente uma edição comum de um texto. É uma edição que procura mostrar a história textual e crítica de uma obra: suas variantes, emendas, leituras divergentes, decisões editoriais, interpretações anteriores e debates acumulados ao longo do tempo.
Suponhamos que um verso fictício exista assim em três versões:
“The night was dark and full of rain.”
Uma edição variorum poderia registrar:
- Manuscrito A: “The night was dark and full of rain”
- Primeira edição: “The night was cold and full of rain”
- Segunda edição: “The night was dark and full of wind”
- Editor X: prefere “dark” por estar no manuscrito autógrafo
- Editor Y: prefere “cold” por considerar revisão autoral posterior
- Crítico Z: interpreta “rain” como símbolo de purificação
O variorum não apenas escolhe uma leitura; ele mostra o campo de possibilidades textuais e críticas. O variorum é importante porque mostra que muitos textos literários não são entidades estáveis. Obras antigas, manuscritas, revisadas ou transmitidas por múltiplas edições podem existir em diferentes estados. A edição variorum torna visível essa multiplicidade.
Podemos considerar três tipos de variorum:
- Variorum textual: Regista as diferenças entre os testemunhos de uma obra: manuscritos, provas tipográficas, primeiras edições, versões revistas e outras fontes. Uma edição variorum identificaria as fontes dessas formas e poderia explicar qual delas foi adotada no texto principal.
- Variorum crítico: Reúne notas e interpretações de diferentes comentadores. Uma passagem de Shakespeare, por exemplo, pode ser acompanhada por explicações históricas, linguísticas e cénicas publicadas durante vários séculos.
- Variorum combinado: Integra variantes textuais e história crítica. É o modelo predominante em grandes projetos académicos modernos, como o New Variorum Shakespeare.
A New Variorum Edition of Shakespeare está associada à Modern Language Association. Essas edições reúnem variantes textuais, comentários históricos, notas críticas e discussões editoriais sobre as peças de Shakespeare. A própria MLA mantém materiais ligados ao projeto New Variorum Shakespeare, incluindo um manual editorial para padronizar os volumes da série.
Num sentido moderno, variorum também pode designar uma edição que registra diferentes versões de um texto: manuscritos, primeiras edições, revisões autorais, impressões posteriores, emendas editoriais e leituras alternativas. Por exemplo, se um poema existe em três versões publicadas pelo próprio autor, uma edição variorum pode apresentar o texto principal e, em aparato crítico, indicar as diferenças entre as versões. Em autores canónicos como Shakespeare, Camões, Milton, Chaucer, Dante, Goethe, Whitman, Machado de Assis ou Pessoa o variorum ajuda a mapear diversas épocas de comentário crítico.
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