Os picturebooks são livros ilustrados que tendem, regra geral, a estabelecer uma relação interdependente entre texto e imagem, ao contrário da relação entre texto e imagem presente nos livros ilustrados convencionais, que é, em essência, menos simbiótica, servindo o propósito de destacar, decorar ou aprofundar o que é comunicado textualmente (Bird e Yokota 281). Por outras palavras, se, num picturebook, a narrativa visual e a narrativa textual possuem igual importância (os picturebooks reproduzindo, frequentemente, um pensamento visual), qualquer obra que contenha pelo menos uma ilustração pode, em contrapartida, ser considerada um livro ilustrado. Segundo Barbara Bader, os picturebooks correspondem a:
text, illustrations, total design; an item of manufacture and a commercial product; a social, cultural, historic document; and foremost, an experience for a child. As an art form it hinges on the interdependence of pictures and words, on the simultaneous display of two facing pages, and on the drama of the turning page. (1)
A existência de picturebooks sem texto (em inglês, “wordless picturebooks”) levou alguns investigadores a propor definições alternativas. Emma Bosch, por exemplo, argumenta que a presença de texto escrito não deve ser considerada indispensável para a categoria de picturebook, sugerindo antes que seja entendida como uma narrativa composta por imagens fixas, impressas e sequenciais, organizadas em formato de livro e cuja unidade fundamental seja a página “in which the illustrations are primordial and the text may be underlying” (Bosch 191).
Principais categorias de picturebooks
Apesar de certos contextos culturais (como o anglófono, o alemão ou o japonês) distinguirem os picturebooks dos livros ilustrados, noutros contextos (como no caso do mercado editorial lusófono), a categoria de livro ilustrado é, de um modo geral, mais abrangente, não se considerando o picturebook uma categoria distinta em termos comerciais (Bird e Yokota 285, 287). No mercado anglófono, por exemplo, entre as principais categorias de picturebooks, destacam-se os picturebooks informativos, destinados a apresentar objetos e ações do quotidiano a bebés e crianças, bem como enciclopédias científicas, obras sobre figuras históricas, livros de atividades ou guias de viagem, desde que concebidos para “provide practical information for real world orientation” (Merveldt 233). Inserem-se também nesta categoria os livros conceptuais (em inglês, “early concept books” e/ou “concept books”), geralmente produzidos em materiais resistentes (cartão, plástico, tecido) e organizados em poucas páginas, com imagens de objetos do quotidiano (Kümmerling-Meibauer e Meibauer 149). Outras categorias incluem os livros que ensinam o abecedário (em inglês, “ABC books”), que exploram a relação lúdica entre as letras do alfabeto e imagens, apresentando uma grande variedade formal (Litaudon 169), bem como os picturebooks em formato pop-up, que incorporam mecanismos visuais tridimensionais ou elementos móveis que podem ser levantados, puxados ou girados de modo a tornar a experiência de leitura mais interativa (Staples 180).
Paralelamente, existem picturebooks que expandem ou problematizam a relação entre palavra e imagem, tais como os previamente referidos picturebooks sem texto (Bosch 191), ou os crossover picturebooks, que contestam os limites convencionais do mercado da literatura infantil ao dirigirem-se simultaneamente a leitores de várias idades, do público infantil ao adulto (Beckett 209); importa referir ainda os picturebooks para adultos, ou narrativas visuais concebidas e comercializadas sobretudo para um público adulto, algumas das quais tendo surgido inicialmente como obras crossover (Ommundsen 220). A crescente diversidade linguística do público leitor dos picturebooks também conduziu a um crescente interesse por picturebooks bilingues e/ou multilingues, que podem apresentar texto em duas ou mais línguas ou integrar expressões de diferentes idiomas no corpo do texto, promovendo não só a aprendizagem linguística, como também a preservação e revitalização de línguas minoritárias (Hadaway e Young 260). Importa, por último, referir os picturebooks digitais, uma categoria abrangente que inclui desde simples e-picturebooks (ou seja, versões digitalizadas de picturebooks impressos) até obras interativas e intermediais que exploram as intersecções entre a literatura, os videojogos e o cinema (Al-Yagout e Nikolajeva 271).
Experiência de leitura colaborativa e dimensão ideológica
No âmbito dos picturebooks, o diálogo intermedial entre texto escrito e ilustrações requer uma estratégia de leitura específica, que tenha em conta a relação imprevisível e interdependente estabelecida entre o verbal e o pictórico (Beeck 19-21). Assim o afirma Nathalie op de Beeck, que concebe o picturebook enquanto “a complex signifying system whose cultural meanings exceed its superficial information” (19), destacando a sua dimensão ideológica. Esta dimensão, igualmente examinada por autores como Maria Nikolajeva e John Stephens, resulta não só da relação interdependente, complexa e fluída entre texto e imagem, mas também de uma experiência de leitura frequentemente concebida como colaborativa, não raro partilhada entre a criança e um leitor mais experiente (quer um adulto, quer um jovem ou criança mais velha com competências de leitura mais avançadas) (Beeck 20-23).
A leitura colaborativa de um picturebook advém precisamente da necessidade de descodificação da relação entre texto e imagem, intrínseca a estes livros, uma atividade que Beeck considera “ideologically freighted” (24), pelo seu contexto histórico-cultural, pela existência de conceitos culturalmente específicos de literacia e de desenvolvimento infantil, bem como por ideologias que o picturebook torna implícitas ou explícitas, tanto verbal como visualmente (20). Durante o ato de leitura colaborativa negoceiam-se não só questões de sentido e de apreciação estética, mas também conteúdos de cariz cultural, político e ideológico intrínsecos ao próprio picturebook, observáveis quer a nível implícito, quer explícito. Para Beeck, tanto a mediação de leitura como o mercado editorial de picturebooks, influenciado por “public education policy, understandings of developmental literacy, industrialization, globalization, perceptions of environment, and ways of describing human difference” (25), tornam os picturebooks veículos significativos de transmissão ideológica.
Esta perspetiva é partilhada por Maria Nikolajeva, que considera que o potencial subversivo dos picturebooks reside, acima de tudo, na relação interdependente e dialógica estabelecida entre texto e imagem; para Nikolajeva, este tipo de obras possui “great potential for subversion of adult power and interrogation of the existing order” (169). Do mesmo modo que as crianças aprendem a ler e a interpretar narrativas a nível verbal, também são ensinadas a “ler” e, por conseguinte, a interpretar imagens, tornando-se esta aprendizagem igualmente parte do seu processo de aculturação e desenvolvimento psicossocial. Uma das principais funções dos picturebooks e livros ilustrados reside precisamente na aquisição de literacia visual, incluindo a aprendizagem das convenções estéticas através das quais o mundo é representado num dado período ou contexto cultural (Stephens 158). De modo a fazer sentido para os leitores, os picturebooks partem de um certo consenso, recorrendo a códigos culturalmente convencionados para representar o mundo, sobretudo visualmente. Já no campo textual, quando presente, existem diferentes estratégias narrativas possíveis – quer as que encorajam os leitores a identificarem-se com o narrador ou uma personagem focalizadora, quer as que incentivam a desconstrução de noções fixas de subjetividade, tendo em vista o desenvolvimento do pensamento crítico – que contribuem para a internalização de ideologias explícitas ou implícitas, uma função ideológica que se conjuga, em muitos casos, com o didatismo (Stephens 198-199).
Através desta tendência para refletir práticas sociais e educativas dominantes, os picturebooks promovem não raro valores considerados socialmente desejáveis, “such as co-operative play, care for others, or social responsibility” (Stephens 199). Por outro lado, independentemente do contexto cultural ou da época, existem autores que manifestamente se opõem a estes discursos dominantes, o mercado dos picturebooks e da literatura infantil não constituindo uma exceção a esta tendência contra discursiva, dependendo a natureza da subversão, como afirma Maria Nikolajeva, “on the society in which the texts appear, since they will be affected by the dominant ideology” (139). Por essa razão, os picturebooks possuem simultaneamente “great potential for subversion of adult power and interrogation of the existing order” (Nikolajeva 169), um potencial que se deve à interação entre o verbal e o pictórico, permitindo a existência de contrapontos e contradições ou, em contrapartida, de reforço da informação ideológica transmitida. Este potencial subversivo pode ser explorado de forma deliberada quer pelos autores destas obras (através de diferentes estratégias narrativas, tais como a focalização múltipla ou outras estratégias de distanciamento, as quais também podem possuir uma função didática) (Nikolajeva 169; Stephens 199), quer através de diferentes estratégias de mediação de leitura, tanto em contexto escolar como de forma mais informal.
Referências
Al-Yagout, Ghada e Maria Nikolajeva. “Digital Picturebooks.” The Routledge Companion to Picturebooks. Bettina Kummerling-Meibauer (ed.). Routledge, 2018. 270-278.
Bader, Barbara. American Picturebooks from Noah’s Ark to The Beast Within. Macmillan Publishing Company, 1976.
Beckett, Sandra L. “Crossover Picturebooks.” The Routledge Companion to Picturebooks. Bettina Kummerling-Meibauer (ed.). Routledge, 2018. 209-219.
Beeck, Nathalie op de. “Picture-text relationships in picturebooks.” The Routledge Companion to Picturebooks. Bettina Kummerling-Meibauer (ed.). Routledge, 2018. 19-27.
Bird, Elizabeth e Junko Yokota. “Picturebooks and Illustrated Books.” The Routledge Companion to Picturebooks. Bettina Kummerling-Meibauer (ed.). Routledge, 2018. 281-290.
Bosch, Emma. “Wordless Picturebooks.” The Routledge Companion to Picturebooks. Bettina Kummerling-Meibauer (ed.). Routledge, 2018. 191-200.
Hadaway, Nancy L. e Terrell A. Young. “Multilingual Picturebooks.” The Routledge Companion to Picturebooks. Bettina Kummerling-Meibauer (ed.). Routledge, 2018. 260-269.
Kümmerling-Meibauer, Bettina e Jörg Meibauer. “Early Concept Books and Concept Books.” The Routledge Companion to Picturebooks. Bettina Kummerling-Meibauer (ed.). Routledge, 2018. 149-157.
Litaudon, Marie-Pierre. “ABC Books.” The Routledge Companion to Picturebooks. Bettina Kummerling-Meibauer (ed.). Routledge, 2018. 169-179.
Merveldt, Nikola von. “Informational picturebooks.” The Routledge Companion to Picturebooks. Bettina Kummerling-Meibauer (ed.). Routledge, 2018. 231-245.
Mourão, Sandie; Leslie, Carolyn. Researching Educational Practises, Teacher Education and Professional Development for Early Language Learning: Examples from Europe. Abingdon, United Kingdom: Routledge. 2024.
Mourão, Sandie; Bennett, Karen. Mediation in Multimodal Literature, Education, and Translation: Picturebooks and Graphic Narratives. Abingdon, United Kingdom: Routledge. 2024.
Mourão, Sandie; Ramos, Ana Margarida; Cortez, Maria Teresa. Fractures and Disruptions in Children’s Literature.. Newcastle Upon Tyne, United Kingdom: Cambridge Scholars Publishing. 2017.
Nikolajeva, Maria. Power, Voice and Subjectivity in Literature for Young Readers. Routledge, 2010.
Ommundsen, Ase Marie. “Picturebooks for Adults.” The Routledge Companion to Picturebooks. Bettina Kummerling-Meibauer (ed.). Routledge, 2018. 220-230.
Pantaleo, Sylvia. “Paratexts in picturebooks.” The Routledge Companion to Picturebooks. Bettina Kummerling-Meibauer (ed.). Routledge, 2018. 231-245.
Staples, Ann Montanaro. “Pop Up and Movable Books.” The Routledge Companion to Picturebooks. Bettina Kummerling-Meibauer (ed.). Routledge, 2018. 180-190.
Stephens, John. Language and Ideology in Children’s Fiction. Longman, 1992.



Comentários recentes