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Teoria biológica dos chilenos Humberto Maturana e Francisco Varela, enunciada em De maquinas y seres vivos (1972), e divulgada a partir de Autopoiesis and Cognition (1980). Teoria com bastante repercursão na epistemologia e nas áreas do saber humano, nomeadamente na literatura, como veremos. Principais influências: Ludwig Wittgenstein, a Cibernética do Biological Computer Laboratory, o construtivismo biológico de Piaget e as concepções biológicas, antropológicas e ecológicas de Gregory Bateson. Pressupostos teóricos explicitados: "aprender é viver"; "tudo que é dito, é dito por um observador". Oposição total a concepções vitalistas e às informacionais. F. Varela tem trabalhado nos últimos anos na área do neo-coneoxionismo, no âmbito das redes neuronais artificiais construídas pela engenharia da computação. Tenta conciliar a investigação nesta área com a sabedoria ética de alguns pensadores orientais. H. Maturana tem vindo a ser solicitado em especial pela literatura e pela psicologia cognitivo-construtivista.

Teoria formulada para responder à pergunta: qual a invariante que se mantém nos processos de adaptação ontogenéticos, e que nos permite identificar um organismo como uma unidade? A resposta: essa invariante é a autopoiesis desse ser vivo. Auto enquanto referenciado a si próprio; poiesis, de produção (poiein). Defende-se a clausura informacional dos sistemas vivos quanto à sua organização. São pois sistemas que se fazem sistemas e que não possuem nenhum elemento exterior como causa sufiente de modificações desses sistemas. A organização refere-se a uma espécie de padrão processual que cada organismo criou a partir de algumas influências genéticas e sobretudo a partir da sua ontogenia que é única e insubstituível em cada ser vivo. A estrutura de um sistema vivo refere-se à capacidade em transformar e integrar componentes e processos desencadeados por perturbações internas ou externas. Encontra-se subordinada à organização, mas esta, por seu lado, só pode auto-manter-se devido aos elementos complexificadores aportados pela estrutura. Os seres vivos podem acopular-se (ou acoplar-se) estruturalmente entre si: a reprodução deve ser perspectivada dentro desta lógica; a espécie é um conceito observacional. Existem três tipos de seres vivos, sendo os de terceira ordem os que possuem uma organização social baseada em linguagens articuladas. Para que a autonomia de cada ser vivo não seja posta em causa nos processos de acopulamento (o que leva à doença ou à morte), a organização autopoética dos sistemas acopulados não pode opor-se à organização de cada um dos seres vivos que constituem a organização maior. Maturana dedicou-se especialmente às questões observacionais, e à explicação neurofisiológica destas questões ("Biology of cognition", in Autopoiesis and Cognition).

No âmbito da teoria da literatura, Niklas Luhman foi explicitamente influenciado pela teoria da A., ainda que tenda a omitir a dimensão de autonomia dos sistemas vivos que vivem em acopulamentos estruturais. Insere a produção literária num sistema social que se auto-mantem nos acopulamentos estruturais já existentes. Sigfried Schmidt teorizou os fenómenos literários recorrendo também à teoria da A., considerando que os textos literários são aqueles que são produzidos por participantes em acopulamentos estruturais. Aborda o sistema literatura realçando a importância dos observadores, aproximando-se das concepções neurofisológicas de Maturana.

De notar que a utilização de uma teoria biológica para um domínio de produção exclusivamente humano levanta problemas de índole epistemológica. Esta situação tem sido cuidadosamente evitada por Maturana que aborda as questões humanas pela complexificação biológica.