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Termo proposto por Jean Anouilh (1910-88) para as suas próprias peças, publicadas nos anos 30 e 40, que dividiu em pièces roses e pièces noires (Voyageur sans bagage, 1936; La Sauvage, 1938). Outra origem possível para a expressão comédia negra é a obra do grande teorizador do surrealismo André Breton: Anthologie de l’humour noire (1940). Partilhando algumas características do teatro do absurdo, a comédia negra revela-nos personagens de personalidade fraca, à deriva na vida, ou deixadas à mercê de um destino muitas vezes incompreensível. Perante os obstáculos da vida quotidiana, as personagens negras preferem não reagir. A nolição é motivo de riso e o cómico obtido é tão mordaz quanto constrangedor. Os temas da comédia negra são geralmente perturbadores, como a morte, as doenças ou a guerra e são tratados com ligeireza e cinismo suficientes para produzir o riso, mesmo que amargo.

É costume apontar a tragicomédia e algumas peças de Shakespeare (The Merchant of Venice ou Measure for Measure, por exemplo) como primeiros documentos do género, mas a correspondência é arriscada. Contemporaneamente, são exemplos inequívocos de comédia negra Who’s Afraid of Virginia Woolf? (1962), de Edward Albee, The Homecoming (1965), de Pinter, e Loot (1965), Joe Orton. Alguns textos de ficção podem aproximam-se, pela temática, da comédia negra: Catch-22 (1961), de Joseph Heller, ou Slaughterhouse-Five (1969), de Kurt Vonnegut, textos marcados por aquilo a que em linguagem hoje corrente se chama humor negro.

{bibliografia}

Lynette Carpenter: “Domestic Comedy, Black Comedy, and Real
Life: Shirley Jackson, a Woman Writer”, in Alice Kessler Harris
e William McBrien (eds.): Faith of a (Woman) Writer
(1988); Maurice Charney: Orton’s Loot as ‘Quotidian
Farce’: The Intersection of Black Comedy and Daily Life”,
Modern Drama
,  24, 4 (1981); Michele Plaisant: “The Way
of the World
, comédie ‘noire’?”, Bulletin de la Sociéte
d’Études Anglo-Americaines des XVIIe et XVIIIe Siècles,
37
(1993).