Select Page
A B C D É F G H Í J K L M N O P Q R S T Ü V W Z

O romance histórico juvenil é um género literário que combina a narrativa ficcional com um enquadramento histórico específico, podendo possuir uma dimensão didática relacionada com o ensino da História. À semelhança do romance histórico destinado ao público adulto, o romance histórico juvenil também se debate com o que se (re)conhece, em termos historiográficos, sobre o passado; nesse sentido, qualquer subcategoria de romance histórico juvenil permite refletir sobre a passagem do tempo e sobre questões de legitimidade ou de credibilidade histórica, tendo o estudo deste tipo de obras dado continuidade aos numerosos debates sobre as fronteiras e intersecções entre a historiografia e a ficção (Wilson 1-2).

A relação entre Literatura e História no romance histórico juvenil

A relação entre a Literatura e a História constitui, efetivamente, um dos debates fundamentais nos estudos sobre o romance histórico, ou a ficção histórica, enquanto género literário. Até ao período da Revolução Francesa, entendia-se que a historiografia possuía uma dimensão narrativa, sendo apenas partir do século XIX que se consolida a associação entre historiografia e “factualidade”, o que contribuiu para a construção de uma dicotomia rígida entre, por um lado, a literatura e a ficção, remetidas para o âmbito do imaginário, e o relato histórico, entendido como mais “factual” (White, Content 62). Segundo o historiador americano Hayden V. White, a representação literária de períodos ou de acontecimentos históricos conduz necessariamente a imposições “narrativas”, em termos estruturais, sobre esse passado. Por outras palavras, representar o passado histórico literariamente envolve um processo de estruturação e de atribuição de significados a posteriori, um olhar retrospetivo que confere uma sensação de fechamento ou, segundo White, um “sense of an ending” (“Introduction” 52).  Ao longo do século XX, os debates interdisciplinares em torno destas intersecções continuaram a esbater as fronteiras entre a historiografia e a ficção, passando a falar-se, quer no âmbito da historiografia, quer da ficção narrativa, em representações ou em discursos. Atualmente, reconhece-se que não existem perspetivas únicas, estáveis ou definitivas sobre um mesmo acontecimento ou período histórico e que tanto a historiografia como a literatura, enquanto fenómenos discursivos que constroem o próprio passado histórico, inevitavelmente refletem estruturas de poder sociopolítico (Benjamin 257; Zhang 391, 396).

Em Re-visioning Historical Fiction for Young Readers: the Past Through Modern Eyes (2011), Kim Wilson afirma que uma das características definidoras dos romances históricos juvenis corresponde, precisamente, ao facto de estes refletirem, de um modo bastante particular, as perspetivas e interpretações presentes de acontecimentos ou de períodos passados. Segundo a autora, os romances históricos juvenis são das obras que mais deixam transparecer as ideologias culturais, sociais e/ou políticas do período em que foram escritas e publicadas, sendo o seu público leitor “consistently positioned to perceive the culture of the past from a modern ideological point of view”, um posicionamento que “frequently generates anachronistic understandings of past worlds” (Wilson 5). Também Perry Nodelman considera que os romances históricos juvenis desempenham um importante papel na transmissão de ideologias relativamente ao passado: segundo o autor, o romance histórico juvenil frequentemente “allows readers to absorb the meanings and values it contains with less questioning or consideration than they might bring to that which is announced as invented fiction” (Nodelman 72).

Outro dos principais posicionamentos ideológicos veiculados pelos romances históricos juvenis publicados na segunda metade do século XX dizem respeito à ideia de “progresso positivo,” ou a perceção de que o presente se afasta do passado de forma contínua e ascendente, um progresso “inextricably linked to the [young] protagonist’s potential for agency and the realization of subjectivity” (Wilson 5). Esta noção de progresso positivo verifica-se sobretudo nos romances históricos que envolvem viagens no tempo, nos quais a viagem de personagens modernas até ao passado acompanha o seu processo de amadurecimento e de conquista de autonomia pessoal, permitindo aos leitores mais jovens recorrer ao passado histórico para refletir sobre o próprio presente (Wilson 6, 8, 10). Já nos romances históricos juvenis que representam períodos de conflito ou de guerra, a conceção presente destes momentos históricos torna-se particularmente evidente, este tipo de obras tendendo, segundo Wilson, para um certo didatismo (8).

De modo a facilitar a identificação do leitor com a subjetividade das personagens focalizadoras, os romances históricos juvenis mais convencionais tendem a ter como protagonistas ou narradores uma criança ou jovem historicamente “desconhecidos” (Stephens 237). A este respeito, assemelham-se aos romances históricos para adultos, os quais, ao adotar uma perspetiva abrangente da(s) sociedade(s) e temporalidade(s) representada(s), tendem a relegar as personagens de inspiração histórica para papéis secundários, optando por dar protagonismo a um “‘middle of the road’ hero” que mais facilmente se presta a mediar a relação entre presente e passado, bem como a adotar diferentes posicionamentos ideológicos do momento da escrita face ao referido acontecimento ou período pretérito (Lukács 39, 127). A utilização de personagens historicamente desconhecidas nos romances históricos ditos convencionais (à semelhança ao recurso a personagens modernas que viajam até ao passado nos romances que envolvem viagens no tempo) permite-lhes uma maior liberdade de ação, além de facilitar a identificação do leitor com as mesmas e tornar a narrativa mais imersiva.

Algumas categorias no âmbito do romance histórico juvenil

O romance histórico juvenil engloba diversos subgéneros, incluindo, por exemplo, as narrativas de guerra que examinam temáticas como o trauma, a ética, a resistência e a reconstrução. Desde a segunda metade do século XX, a Segunda Guerra Mundial tem sido um dos períodos históricos mais revisitados nesta categoria, tendendo-se para narrativas de cariz mais realista, favorecendo-se o espaço doméstico e reforçando-se a forma como o conflito desestabilizou o quotidiano em sociedade. No seu estudo sobre romances históricos juvenis sobre a Segunda Guerra Mundial, publicados na segunda metade do século XX, Fiona M. Collins e Judith Graham identificam temas e características recorrentes, sendo a mais predominante a temática da sobrevivência (central a grande parte das narrativas sobre a guerra), tendendo os seus autores a relacionar a sobrevivência física, emocional e mental com o processo de crescimento e amadurecimento do(s) protagonista(s). Estas narrativas de formação, ou bildung, centram-se, regra geral, na superação de obstáculos e na transição da infância, ou adolescência, para a vida adulta (Collins e Graham 12-13).

Já as narrativas históricas sobre viagens no tempo (também apelidadas de narrativas time-slip) transportam personagens da atualidade para um tempo passado (através de um portal, amuleto ou outra forma de magia), potenciando, por sua vez, o carácter imersivo destas obras, dando a sensação de uma participação mais ativa em eventos históricos conhecidos dos leitores, geralmente a partir do contexto escolar (Hall 44-45). Nas narrativas time-slip mais convencionais, este enquadramento permite às personagens modernas mediar as semelhanças e diferenças percetíveis entre passado e presente a partir de uma perspetiva e sensibilidade “modernas”. Este tipo de narrativas tende a adotar um de dois posicionamentos: ou o passado tende a ser representado como fundamentalmente distinto face ao momento presente, acentuando-se a sua estranheza, ou, em contrapartida, pode estabelecer-se um contínuo entre passado e presente, reforçando-se o que permanece constante independentemente do momento histórico. Nas palavras de Kim Wilson, “[d]iscerning the past as ‘other’ keeps it contained within its ‘pastness’” (22), uma afirmação que, por sua vez, evoca o pensamento de Hayden White, particularmente quando o autor afirma que “the historical past is, in a word, ‘uncanny’, both known and unknown, present and absent, familiar and alien, at one and the same time” (Content 89).

Outro subgénero do romance histórico juvenil diz respeito às narrativas de “alternate history”, ou história alternativa, resultantes da intersecção entre o romance histórico e a ficção especulativa. Nas narrativas de história alternativa representa-se um período ou evento histórico com um desfecho distinto daquele que se conhece, ou de que existe registo historiográfico, estabelecendo-se uma ligação tangível com o tempo presente através da descontinuidade (e não da continuidade), convidando os leitores a refletir sobre o passado e o presente de forma hipotética (Stanway s.p.). Além de todas as categorias já referidas, importa igualmente referir as narrativas inspiradas na vida de figuras históricas (sobretudo sob a forma de romances biográficos), as narrativas de aventura histórica (combinando as narrativas de aventura com um contexto histórico relacionado com a exploração marítima, com o “Far West”, com antigos impérios, etc.), os romances de fantasia histórica (que conjugam elementos sobrenaturais ou míticos com a representação do passado histórico), entre muitas outros.

 

Referências:

Benjamin, Walter. Illuminations. Schoken Books, 1968.

Collins, Fiona M. e Judith Graham. “The twentieth century: Giving everybody a history.” Historical Fiction for Children: Capturing the Past. Fiona M. Collins e Judith Graham (eds.). David Fulton Publishers, 2001. 10-22.

Hall, Linda. “‘Time no longer’: History, enchantment and the classic time-slip story.” Historical Fiction for Children: Capturing the Past. Fiona M. Collins e Judith Graham (eds.). David Fulton Publishers, 2001. 43-53.

Lukács, György. The Historical Novel. Merlin Press, 1962.

Nikolajeva, Maria. Power, Voice and Subjectivity in Literature for Young Readers. Routledge, 2010.

Nodelman, Perry. “History as Fiction: The Story in Hendrik Willem van Loon’s Story of Mankind.” The Lion and the Unicorn, Volume 14, No. 1, 1990. 70-86.

Stanway, Elizabeth. “The Alternate History of Science.” Cosmic Stories Blog, 5 de setembro de 2021, https://warwick.ac.uk/fac/sci/physics/research/astro/people/stanway/sciencefiction/cosmicstories/the_alternate_history/

Stephens, John. Language and Ideology in Children’s Fiction. Longman, 1992.

White, Hayden. The Content of the Form: Narrative Discourse and Historical Representation. John Hopkins University Press, 1987

—. “Introduction: Historical Fiction, Fictional History and Historical Reality.” Rethinking History, Volume 9, No. 2-3, 2005. 147-157.

Wilson, Kim. Re-visioning Historical Fiction for Young Readers: The Past Through Modern Eyes. Routledge, 2011.

Zhang, Longxi. “History and Fictionality: Insights and Limitations of a Literary Perspective.” Rethinking History, Volume 8, No. 3, 2004. 387-402.