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Repetição de uma palavra ou expressão no início de uma frase ou verso, podendo ser recuperada também no final, com o intuito de reforçar o seu significado. Processo utilizado com alguma frequência por exemplo, por Álvaro de Campos, cuja “Ode Marítima” contém epanalepses do tipo: “Ah, quem sabe, quem sabe” ou “Fogo, fogo, fogo dentro de mim”; o contemporâneo de Campos, Walt Whitman, escreveu The Leaves of Grass com um terço dos versos em epanalepse. Se a epanalepse disser respeito à repetição de uma só palavra (como no segundo exemplo citado), confunde-se com a reduplicação. De notar que não existe consenso entre os gramáticos e os retóricos antigos e modernos sobre o lugar e a frequência dos termos repetidos. A função da epanalepse, no entanto, não difere da de outras figuras de repetição: a insistência no valor simbólico de uma determinada imagem ou de um determinado sentido, o que a pode aproximar da função do refrão.

Quando se utilizam as primeiras palavras de um poema, um capítulo, um romance ou um conto para título do texto, também se chama a este processo epanalepse. Muitos poemas tomam para seu título o incipit: “De passarem aves” (À memória de Sá de Miranda), dois poemas de Jorge de Sena, escritos à maneira e em homenagem a Sá de Miranda, um começando “Das aves passam as sombras” (in Pedra Filosofal, 1950) e outro, “De como e de quando / as aves passaram” (in Fidelidade, 1958). Se a repetição das palavras que originam a epanalepse for acidental ou inútil, diz-se que se formou uma batologia (do grego battologia, “gaguez”, defeito do rei Batos, rei da Cária).