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Movimento literário e artístico que emergiu na Europa, nomeadamente em França, no último quartel do século XIX. Do ponto de vista da teoria literária e da historiografia, é frequentemente compreendido como uma extensão, um prolongamento ou uma radicalização do realismo. Contudo, enquanto o realismo se foca na observação social e na crítica das dinâmicas burguesas, o naturalismo distingue-se pela sua ambição de aplicar ao texto literário os métodos das ciências exatas e naturais da época.

A narrativa naturalista tende a representar o indivíduo como condicionado pela hereditariedade, pelo meio social e pelas circunstâncias históricas. As personagens são frequentemente apresentadas como seres submetidos a forças que limitam a sua liberdade, incluindo os impulsos fisiológicos, a pobreza, a educação, a doença, o alcoolismo e a marginalização social. A literatura procura, deste modo, observar e expor os mecanismos que determinam os comportamentos humanos. Ao contrário de uma concepção idealizada da arte, o naturalismo privilegia temas considerados vulgares, degradantes ou escandalosos, tais como a miséria, a prostituição, a violência, o adultério, a corrupção e os conflitos entre as classes sociais. A linguagem pretende aproximar-se da observação concreta, recorrendo frequentemente a descrições minuciosas dos espaços, dos corpos e dos ambientes. A influência do naturalismo manifesta-se na construção de personagens condicionadas pelo seu contexto e na representação crítica das instituições sociais. Contudo, a sua relação com o método científico não deve ser entendida literalmente: o romance naturalista não é uma experiência laboratorial, mas uma forma de composição literária que transforma determinadas concepções científicas e sociais em procedimentos narrativos.

O principal teórico do movimento foi o escritor francês Émile Zola. No seu ensaio manifesto O Romance Experimental (1880), Zola defende que o romancista deve agir como um cientista num laboratório. O autor cria um ambiente fechado (o romance), introduz personagens com determinadas características genéticas e observa como estas reagem à pressão do meio envolvente. A literatura passa, assim, a ter uma função documental e patológica, diagnosticando as “doenças” sociais e fisiológicas.

O marco inaugural do naturalismo na literatura portuguesa é a publicação de O Crime do Padre Amaro (1875), de Eça de Queirós. Embora Eça seja predominantemente um autor realista, esta obra, e outras da sua primeira fase literária, aplica os princípios do determinismo biológico e ambiental para dissecar a corrupção do clero e da sociedade de província. Autores como Abel Botelho (com o seu Patologia Social) e Júlio Lourenço Pinto levaram o naturalismo português aos seus extremos mais ortodoxos e científicos.

No Brasil, o movimento atinge o seu expoente máximo com Aluísio Azevedo, nomeadamente com a obra O Cortiço (1890). Neste romance, o espaço habitacional (o cortiço de São Romão) funciona como um caldeirão orgânico e determinista que corrompe e dita o destino de todos os que nele habitam, misturando questões de raça, clima e classe social.

Bibliografia:

  • Auerbach, Erich. Mimesis: The Representation of Reality in Western Literature. Traduzido por Willard R. Trask, Princeton University Press, 2003.
  • Lukács, Georg. Studies in European Realism. Merlin Press, 1950.
  • Reis, Carlos. Estatuto e Perspectivas do Narrador na Ficção de Eça de Queirós. Almedina, 1975.
  • Taine, Hippolyte. História da Literatura Inglesa. Tradução de Carlos Cintra, Livraria Chardron, 1900.
  • Zola, Émile. Le Roman expérimental. Charpentier, 1880.