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O realismo é um movimento estético e um método de composição literária que, em oposição directa ao subjectivismo, ao escapismo e à idealização característicos do romantismo, postula a representação objectiva, analítica e verosímil da sociedade e do comportamento humano. Mais do que um mero “espelho” passivo do mundo, o realismo literário constitui um projecto activo de dissecação das estruturas sociais, das dinâmicas de classe e da mecânica psicológica do indivíduo.

O realismo não se confunde com a reprodução neutra ou fotográfica do mundo. Toda a representação realista resulta de uma selecção, de uma organização e de uma interpretação da realidade. O escritor realista constrói um efeito de realidade por meio de procedimentos narrativos, estilísticos e descritivos: nomes próprios, referências históricas, espaços reconhecíveis, pormenores materiais, discursos socialmente diferenciados e relações causais entre a vida individual e as estruturas colectivas. A sua matriz assenta no princípio da verosimilhança (a criação da ilusão de verdade), privilegiando a observação rigorosa e científica, a descrição minuciosa dos ambientes físicos (que determinam ou reflectem o carácter das personagens) e a adopção de uma linguagem contida e exacta. No texto realista, o herói romântico excepcional cede lugar ao homem comum e anónimo (o pequeno-burguês, o operário, o clérigo de província), cujas acções são motivadas por factores sociais, económicos e biológicos, inserindo-se num tempo e num espaço históricos precisos.

Historicamente, o realismo surgiu em oposição a vários aspectos do romantismo, sobretudo à exaltação do sentimento, ao gosto pelo exótico, ao herói excepcional e à idealização amorosa. A oposição, contudo, não é absoluta: muitos autores realistas conservam elementos românticos, e a passagem de um movimento para outro ocorre de modo gradual. O naturalismo constitui uma tendência mais radical do realismo. Influenciado pelo positivismo, pelas ciências naturais e pelas teorias deterministas do século XIX, procura explicar o comportamento humano através da hereditariedade, do meio e das condições materiais. Enquanto o realismo pode conceder maior importância à consciência, à moral e à responsabilidade individual, o naturalismo tende a acentuar a força dos condicionamentos biológicos e sociais. Na prática, as fronteiras entre os dois movimentos são frequentemente instáveis. Também não se deve confundir o realismo literário com a ideia de que uma obra “reflecte” directamente a realidade. A literatura não é um espelho passivo: selecciona acontecimentos, organiza perspectivas, distribui informação e atribui significado ao que representa. Por isso, o realismo é simultaneamente uma estética da referência e uma construção formal.

Embora o desejo de imitação da realidade (mimesis) na arte remonte à Antiguidade Clássica (particularmente à Poética de Aristóteles), o realismo, enquanto escola literária autoconsciente, cristalizou-se em França em meados do século XIX. O seu surgimento é indissociável das profundas transformações da época: a Revolução Industrial, a consolidação da burguesia no poder, os avanços científicos e o advento de correntes filosóficas materialistas, como o Positivismo de Auguste Comte. Na génese do romance realista encontram-se autores franceses como Stendhal (O Vermelho e o Negro, 1830), que definiu o romance como “um espelho que se passeia ao longo de uma estrada”, e Honoré de Balzac, que em A Comédia Humana concebeu um inventário sociológico quase exaustivo da sociedade francesa. Contudo, é Gustave Flaubert, com a publicação de Madame Bovary (1857), quem eleva o realismo à sua máxima perfeição formal, introduzindo a impessoalidade cirúrgica do narrador e o uso magistral do discurso indirecto livre.

O movimento expandiu-se rapidamente, assumindo contornos próprios consoante a geografia. Na Inglaterra vitoriana, Charles Dickens expôs as cruéis mazelas do industrialismo urbano e George Eliot aprofundou o realismo moral. Na Rússia, o realismo atingiu proporções épicas e uma densidade espiritual inigualável com Liev Tolstói (Guerra e Paz, Anna Karenina) e Fiódor Dostoiévski (Crime e Castigo, Os Irmãos Karamázov), cuja obra frequentemente transcende a estrita análise social para mergulhar de forma avassaladora nos abismos da psique humana (o chamado “realismo superior”).

A introdução do realismo em solo português foi um processo turbulento que teve o seu principal catalisador na célebre Questão Coimbrã (1865), uma polémica literária em que jovens intelectuais (como Antero de Quental e Teófilo Braga) se insurgiram contra o caciquismo literário e o artificialismo do ultra-romantismo, então encabeçado por António Feliciano de Castilho. A consolidação ideológica do movimento deu-se com as Conferências do Casino (1871), onde a Geração de 70 projectou um programa de modernização cívica e cultural do país, tendo a literatura como arma de intervenção. O expoente máximo e indiscutível do realismo português é Eça de Queirós. A sua vasta obra assumiu a missão de fazer a crítica implacável da sociedade nacional (alvejando a beatice do clero, a futilidade da burguesia lisboeta e a corrupção dos políticos). O Crime do Padre Amaro (1875) inaugurou a estética realista-naturalista em Portugal, seguido de obras-primas como O Primo Basílio (1878) e Os Maias (1888), sendo esta última frequentemente considerada o pináculo da arquitectura romanesca em língua portuguesa. Na poesia, o grande mestre realista é Cesário Verde (O Livro de Cesário Verde, 1887). Rompendo com o lirismo confessional, Cesário introduziu uma poesia objectiva, anti-romântica e altamente pictórica, focada na observação meticulosa das ruas de Lisboa, dos seus trabalhadores e do contraste sensorial entre o ambiente urbano, opressivo e doente, e o meio rural.

No Brasil, o realismo consolidou-se a partir da década de 1880, em articulação com a crise do Império, a abolição da escravatura, a emergência do republicanismo e a transformação das estruturas sociais. A publicação de Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, em 1881, é geralmente considerada um marco fundamental. A obra de Machado de Assis não corresponde ao realismo dogmático ou documental. O autor representa a sociedade brasileira através da ironia, da instabilidade do narrador, da metalinguagem e da análise minuciosa do interesse, da vaidade e da auto-ilusão. Em Dom Casmurro, por exemplo, a questão central não é apenas saber se Capitu traiu ou não Bentinho, mas compreender como a memória, o ciúme e o discurso de um narrador não inteiramente digno de confiança constroem uma determinada versão dos acontecimentos. Raul Pompeia, em O Ateneu, desenvolveu uma narrativa de crítica social e psicológica, situada num espaço escolar que reproduz relações de poder da sociedade. Aluísio Azevedo, em O Mulato e O Cortiço, aproximou-se do naturalismo, representando o peso do meio, dos preconceitos raciais, da exploração económica e das condições materiais. Adolfo Caminha, autor de Bom-Crioulo, abordou conflitos sociais e sexuais de forma particularmente polémica para a época. No Brasil, como em Portugal, o realismo deve ser entendido como um campo diversificado, que inclui o romance de análise social, a crónica, a sátira, a poesia urbana e diferentes formas de naturalismo.

No século XX, o realismo deixou de ser apenas um movimento histórico e passou a designar também um conjunto de técnicas e tendências. O realismo socialista, oficialmente promovido na União Soviética a partir da década de 1930, subordinou a representação literária a uma visão ideológica e pedagógica da sociedade, privilegiando o herói positivo, o trabalho colectivo e a confiança no futuro revolucionário. Em oposição ou diálogo com o realismo tradicional, surgiram o modernismo, o surrealismo, o expressionismo, o novo romance, a ficção documental e diversas formas de experimentalismo. Contudo, a questão da representação da realidade nunca desapareceu. Mesmo obras formalmente inovadoras podem ser realistas na atenção à experiência social, à linguagem quotidiana ou à história. O termo também participa em designações posteriores, como realismo mágico e realismo fantástico. Estas expressões não significam simplesmente uma versão mais imaginativa, digamos assim, do realismo: designam formas narrativas em que acontecimentos extraordinários são integrados no mundo representado sem serem necessariamente submetidos à explicação racional habitual. O seu uso exige, por isso, distinção relativamente ao realismo oitocentista.

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