O termo vilancete, na sua vertente estritamente literária e métrica, tem a sua origem etimológica na palavra “vilão” (do latim villanus, que designava o habitante da vila ou o camponês). Originalmente, nos séculos XV e XVI, o termo referia-se a uma composição poético-musical de carácter rústico, popular e frequentemente profano, cantada a várias vozes na Península Ibérica.
Estruturalmente, o poema divide-se em duas partes principais: o mote: um refrão inicial curto (geralmente de dois ou três versos), que serve de introdução e apresenta o tema; as voltas (ou coplas): estrofes mais longas (frequentemente de sete versos) que desenvolvem o tema inicial. Os últimos versos destas estrofes rimam obrigatoriamente com o mote e funcionam como um gancho (o estribilho) para que o refrão seja cantado novamente.
Por exemplo, de Luís de Camões, este vilancete de tradição profana: mote: “Na fonte está Lianor / Lavando a talha e chorando, / Às amigas perguntando: / — Vistes lá o meu amor?”. Camões utiliza a estrutura e a temática típica popular (a donzela na fonte que chora pelo amor perdido) para criar uma obra lírica palaciana. O mote de três versos em redondilha maior (sete sílabas) será desenvolvido nas “voltas” seguintes, regressando sempre ao lamento inicial.
Após o Concílio de Trento (séc. XVI), a Igreja Católica decidiu aproveitar o apelo popular desta estrutura rústica para atrair os fiéis. O vilancete foi progressivamente despojado do seu carácter profano e adoptado pela liturgia, passando a ser cantado nas igrejas. Acabou por se tornar quase exclusivamente num cântico religioso, assumindo na Península Ibérica e na América Latina a mesma função que o Weihnachtslied (canção de Natal) no espaço germânico.
Asensio, Eugenio. Poética e realidade no cancioneiro peninsular da Idade Média e do Renascimento. 2nd ed., Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1989.
Fernandes, Geraldo Augusto. “O vilancete no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende: tradição e inovação.” Signum: Revista da ABREM, vol. 15, no. 1, 2014.
Saraiva, António José, and Óscar Lopes. História da literatura portuguesa. 17th ed., Porto Editora, 1996.



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