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Relação de equivalência, por semelhança ou por contraste, entre dois ou mais elementos. Em poesia, paralelismo é o termo que designa, habitualmente, a correspondência rítmica, sintáctica e semântica entre estruturas frásicas.

Para S. Jerónimo e Stº. Agostinho, paralelismo (Gr. “lado a lado”) significa o fenómeno da aparente repetição das frases verificado em textos bíblicos. Sendo entendido como uma figura de estilo, que justificaria uma nova poesia divina em vernáculo a exemplos da Bíblia, paralelismo é, desde logo integrado nos manuais de retorica onde, ainda hoje, subsiste como uma figura de posição por insistência na disposição regular, associado, sobretudo, à correspondência sintáctica: paralelismo (isocolo, compar) . Neste sentido, o paraleslimo ocorre frequentemente na poesia de tradição oral, produzindo, muitas vezes, o efeito de litania.

No séc. XVIII, o Bispo Angliano Robert Lowth procura explorar o valor estético dos textos hebraicos e cunha o termo “paralelismo de membros”, em 1778, distinguindo três espécies de paralelismo sinonímico, antitético e sintético. Em 1981, James Kugel, declara que estas classificações – nas quais se baseiam as linhas de crítica moderna ao paralelismo bíblico – obscurecem as subtilezas da forma binária, que é a própria lei do hebraico, porque excluem a percepção do factor enfático e amplificante que a segunda metade do verso bíblico representa, ao retomar, desenvolver e completar a primeira parte do verso, estabelecendo com ela múltiplas relações num processo de correspondência nem sempre claro. É, no entanto, este princípio de correspondência que, em termos gerais, Robert Lowh denomina de paralelismo e, ao afirmá-lo como uma constante estrutural da poesia hebraica, opera entre esta e a poesia europeia uma distinção que irá ser posta em causa por Johann Gottfried von Herder, em 1782, pois segundo ele, paralelismo constitui o núcleo organizador de toda a poesia.

Em 1865, Gerar Manley Hopkins tenta demonstrar a abrangência e a relevância do paralelismo, definindo-o como um processo de criação e um conceito estético. para Hopkins, paralelismo designa, numa primeira fase, a estrutura prosódica constituída pelas relações de semalhança e de diferença que todos os elementos constitutivos do verso – ritmo, metro, rima, etc. – entre si estabelecem, ao organizarem-se na comparação das suas próprias semelhanças e diferenças. Paralelismo será assim um processo de comparação e a estrutura que esse processo constrói. Segundo Hpkins, o paralelismo prosódico apela para um paralelismo retórico que, por sua vez, molda um pensmento em paralelismo, e é esta estrutura em paralelismo contínuo que distingue a poesia da prosa. Hopkins defende mesmo que a beleza surge do paralelismo como processo de toda a criação e consiste numa forma em paralelismo, entendendo paralelismo como o princípio da beleza natural e da beleza da arte. Ao desenvolver a noção de paralelismo antitético de Robert Lowth, Hopkins sugere ainda que paralelismo é um processo através do qual as semelhanças e as diferenças se comparam e se integram numa nova relação antitética eum conceito: paralelismo é o princípio da beleza no qual a antítese se verifica indispensável. devido à ênfase na antítese, o paralelismo, em Hopkins, sublinha a singularidade individual, enquanto, em Herder, o paralelismo aponta para a dialéctica cósmica.

No séc. XX, as reflexões – sobretudo dos estruturalistas – acerca da importância do paralelismo, tanto em linguística como em poesia, são muitas vezes tecidas no sentido que Hopkins confere a este termo. Roman Jakobson, em 1963, considera que a equivalência dos sons (paralelismo prosódico) implica inevitalmente a equivalência (paralelsimo) semântica. Nesta mesma linha, o Grupo u, em 1970, defende que a reiteração regular de unidades fónicas equivalentes (paralelismo prosódico) é a manifestação clara do princípio mais fundo da equivalência( paralelismo) e que a linguagem poética tende constantemente a motivar os signos. A consciência da necessidade de um elemento de constraste numa estrutura em paralelismo encontra-se, p. ex., em Geoffrey Leech (1969), enquanto Chklovski (1978) refere a mudança semântica específica efectuada pelo paralelsimo através da inserção da diferença numa semelhança. A crítica ao estruturalismo põe em causa o relevo atribuindo por este ao paralelismo.

{bibliografia}

Robert Lowth, Isaiah, a New Tr., with a Preliminary Dissertation (1778); Johann Gottfriend von Herder, Vom Geist der Ebraischen Poesie (1782); Humphrey House an Graham Storey (eds.), The Journals and Papers of gerard Manley Hopkins (1959); Roman Jakobson, “Poétique”, Essais de Linguistique Générale (1963); Geoffrey N. Leech, A Linguistic Guide to English Poetry (1969); Groupe u: Rhétorique Générale (1970); V. Chklovski, “A Arte como Processo”, in Teoria da Literatura I – textos dos Formalismos Russos Apresentados por Tzvetan Todorov (1978); James Kugel, The Idea of Biblical Poetry: Paralelism and Its History (1981).