Do alemão verstehen, “compreender”é um termo técnico da hermenêutica e da metodologia das ciências humanas, geralmente mantido na forma alemã mesmo em textos de língua portuguesa. Designa o modo de conhecimento próprio das ciências do espírito e da interpretação de textos, que consiste não na explicação causal dos fenómenos segundo leis gerais (modelo próprio das ciências da natureza), mas na apreensão do sentido interno, subjectivo e historicamente situado de uma expressão humana, seja ela um acto, uma instituição, um documento ou uma obra literária. Distingue-se, pois, categorialmente do Erklären (“explicar”): enquanto este procura subsumir um fenómeno sob uma regularidade causal exterior a ele, o Verstehen procura reconstituir, a partir de dentro, a intenção, a vivência ou o horizonte de significação que anima uma manifestação humana, reconhecendo que o intérprete e o objecto interpretado partilham a mesma condição histórica e existencial, condição que torna possível, mas também estruturalmente limitada e nunca definitiva, a compreensão.
A distinção metodológica remonta à hermenêutica bíblica e filológica do século XIX, sendo Friedrich Schleiermacher, com as suas lições sobre hermenêutica geral (reunidas postumamente em 1838), o primeiro a conceber a interpretação como uma “arte de compreender” o discurso de outrem, tanto na sua dimensão gramatical como na sua dimensão “adivinhatória” ou psicológica, isto é, na tentativa de recriar internamente o acto criador do autor. Foi, porém, Wilhelm Dilthey quem consagrou definitivamente o par conceptual Verstehen/Erklären como critério de fundação epistemológica das Geisteswissenschaften (“ciências do espírito”), sobretudo na sua Einleitung in die Geisteswissenschaften (1883) e em escritos posteriores, definindo o Verstehen como o processo pelo qual reconhecemos, a partir de manifestações exteriores objectivadas (gestos, instituições, textos), uma vida psíquica que lhes é interior e homóloga à nossa própria experiência vivida (Erlebnis).
O conceito conheceu uma decisiva reformulação sociológica em Max Weber, que definiu a sociologia, na abertura de Wirtschaft und Gesellschaft (1922), como uma ciência que pretende compreender interpretativamente (deutend verstehen) a acção social a fim de a explicar causalmente no seu curso e nos seus efeitos, cunhando a fórmula da verstehende Soziologie (“sociologia compreensiva”), na qual o sentido subjectivamente visado pelo agente se torna categoria metodológica central. No plano filosófico, Martin Heidegger operou, em Sein und Zeit (1927), uma radicalização ontológica do conceito, deixando de o conceber como um simples procedimento metodológico das ciências humanas para o tornar uma estrutura existencial constitutiva do próprio ser-aí (Dasein): compreender é, para Heidegger, um modo fundamental de o homem se projectar nas suas possibilidades de ser, anterior a qualquer método científico. Esta viragem ontológica seria desenvolvida por Hans-Georg Gadamer em Wahrheit und Methode (1960), obra fundadora da hermenêutica filosófica contemporânea, na qual o Verstehen é pensado como um acontecimento histórico e dialógico – a “fusão de horizontes” (Horizontverschmelzung) entre o horizonte do intérprete e o horizonte do texto, mediada pela consciência da história dos efeitos (Wirkungsgeschichte) que toda a tradição exerce sobre quem a interpreta. Paul Ricoeur, por seu turno, procurou articular dialecticamente compreensão e explicação, recusando a oposição rígida entre ambas e propondo, sobretudo em Du texte à l’action (1986), um percurso hermenêutico que passa necessariamente pela mediação de procedimentos explicativos (estruturais, semióticos) a caminho de uma compreensão mais aprofundada do texto.
No domínio especificamente literário, a tradição do Verstehen irrigou decisivamente a Estética da Recepção da Escola de Constança, nomeadamente os trabalhos de Hans Robert Jauss sobre o “horizonte de expectativa” do leitor histórico e de Wolfgang Iser sobre os actos de leitura, ambos devedores, por via de Gadamer, da problemática hermenêutica da compreensão como processo dialógico entre texto e leitor, historicamente variável e nunca esgotado numa interpretação definitiva.
- Buescu, Helena Carvalhão. Em Busca do Autor Perdido: Estudos de Literatura Comparada. Cosmos, 1998.
- Dilthey, Wilhelm. Introduction to the Human Sciences: An Attempt to Lay a Foundation for the Study of Society and History. Edited by Rudolf A. Makkreel and Frithjof Rodi, translated by Michael Neville, Princeton UP, 1989.
- Dilthey, Wilhelm. Poetry and Experience. Edited by Rudolf A. Makkreel and Frithjof Rodi, translated by Louis Agosta et al., Princeton UP, 1985.
- Gadamer, Hans-Georg. Wahrheit und Methode: Grundzüge einer philosophischen Hermeneutik. Mohr Siebeck, 1960 (Truth and Method. 2nd rev. ed., translated by Joel Weinsheimer and Donald G. Marshall, Continuum, 2004).
- Heidegger, Martin. Sein und Zeit. Max Niemeyer, 1927 (Being and Time. Translated by John Macquarrie and Edward Robinson, Harper Perennial Modern Classics, 2008).
- Jauss, Hans Robert. Literaturgeschichte als Provokation. Suhrkamp, 1970.
- Lourenço, Eduardo. O Labirinto da Saudade: Psicanálise Mítica do Destino Português. Dom Quixote, 1978.
- Ricoeur, Paul. Du texte à l’action: Essais d’herméneutique II. Seuil, 1986.
- Ricoeur, Paul. From Text to Action: Essays in Hermeneutics, II. Translated by Kathleen Blamey and John B. Thompson, Northwestern UP, 1991.
- Schleiermacher, Friedrich. Hermeneutik und Kritik. Edited by Friedrich Lücke, Reimer, 1838. (Hermeneutics and Criticism and Other Writings. Edited and translated by Andrew Bowie, Cambridge UP, 1998.)
- Weber, Max. Wirtschaft und Gesellschaft. Mohr Siebeck, 1922 (The Methodology of the Social Sciences. Edited and translated by Edward A. Shils and Henry A. Finch, Free Press, 1949).



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