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Inversão, geralmente violenta, da ordem natural das palavras numa frase, para obter determinado efeito estilístico. A seguinte quadra inicial do poema “Tríade”, de José Fernandes Fafe, tira partido desta figura de construção: “Rumor de vaga, onde se acaba nasce……/ Mais do que fim a morte é nascimento……/ De muitas mortes uma vida faz-se…/ Sonho de tudo: rosto aberto ao vento!” (Poesia, IN-CM, Lisboa, 1987). Por exemplo, a ordem natural que é contrariada no terceiro verso seria: “Uma vida faz-se de muitas mortes”. Este artíficio é um dos mais frequentemente utilizados por poetas (sobretudo) de todas as épocas com o fim de obter ritmos, melodias, sonoridades ou ambiguidades originais, capazes de marcar um estilo. A anástrofe partilha com o hipérbato apenas o movimento de troca da ordem normal dos termos numa frase. Tem por isso maior número de possibilidades de aplicação. Se a anástrofe for muito violenta, toma o nome de sínquise, figura que ocorre com frequência, em Camões contribuindo para afinar o estilo característico do Poeta: “A ira com que súbito alterado / O coração dos Deuses foi num ponto” (Os Lusíadas, VI, 34). Os poetas barrocos levaram este tipo de construção até aos seus limites de compreensão, como no conhecido soneto de Gregório de Matos: “Ó tu do meu amor fiel traslado, / Mariposa entre as chamas consumida, /. . ./ Tu de amante o teu fim hás encontrado / Essa flama girando apetecida” (Poetas do Período Barroco, apres. de Maria Lucília Gonçalves Pires, Comunicação, Lisboa, 1985, p.263). Precisamos de chegar ao modernismo para que as anástrofes deixem de ser condicionadas por imperativos métricos e permaneçam apenas como excesso de refinamento do estilo ou como simples experimentação sintáctica.