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No seu estudo sobre a vida e obra de Rousseau, em
Gramatologia
, Jacques Derrida afirma peremptoriamente: « il
n’y a pas de hors-texte », para realçar o facto de que não é
possível ler Rousseau fora dos textos de Rousseau. A frase
tornou-se uma espécie de slogan para qualquer tentativa de
definição da desconstrução como método (ou anti-método) de
leitura e análise do texto que assume que nada mais existe do
que o próprio texto, isto é, nenhum sentido pode ser extraído de
um texto que não lhe pertença já. Qualquer tentativa de
estabilização do sentido de umtexto a partir de premissas que
lhe são exteriores (factos biográficos, dados históricos, por
exemplo) está condenada à ambiguidade e ao desacerto. De um
ponto de vista mais radical, o hors-texte

¾
literalmente todos os documentos que se anexam a uma obra, como
fotografias, facsimiles, cartas, etc.

¾
não é significante para o apuramento do sentido de um texto.

            O
contexto da máxima de Derrida inclui uma explicação secundária
de primária importância: o que sabemos da vida de Jean-Jacques
Rousseau está na obra de Jean-Jacques Rousseau: "E isto não
porque a vida de Jean-Jacques não nos interesse antes de mais
nada, nem a existência de Mamã ou de Thérèse elas mesmas,
nem porque não tenhamos acesso à sua existência dita ‘real’ a
não ser no texto e porque tenhamos nenhum meio de fazer de outra
forma, nem nenhum direito de neglicenciar esta limitação." (Gramatologia,
São Paulo, p.194

¾
com correcções na tradução da minha responsabilidade). Dizer que
o texto é o mais importante não significa, não deve significar,
seja qual for a doutrina perfilhada, que tudo o mais entre no
túnel obscuro do esquecimento. O facto de a desconstrução querer
ser uma forma de interpretação retórica quando aplicada ao texto
literário não exige partir desse princípio dogmático. O universo
do que está fora-do-texto interessará ao crítico se esse
fora-de interferir com a existência lógica do texto. Se
se descortinar um elemento biográfico, histórico, político,
social ou cultural que se prove modificar o sentido da obra de
Rousseau, esse elemento há-de ser posto ao serviço da
interpretação/leitura cerrada de tal obra. O fora-de
corresponde a um processo selectivo apriorístico que,
eventualmente, foi iniciado pelo investigador textual no momento
de decidir quais os dados com os quais quer trabalhar; o

fora-de é também, por outro lado, uma advertentia ao
leitor: não deve iniciar a investigação do texto por aquilo que
não lhe pertence, por aquilo que não foi produzido como texto. O
con-texto é apenas um conjunto de referências tardias em
relação à produção do texto original. Tomar tais referências em
consideração é um trabalho de suplementaridade crítica
exactamente da mesma forma que no próprio texto já alguém
inscreveu idêntica suplementaridade.