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(Do fr. arcaico moz dobre) Artifício poético da literatura trovadoresca medieval que consiste na repetição, na palavra final de um verso, de uma variante verbal da última palavra do verso precedente. Essa repetição, sempre com variação da forma verbal,  pode ocorrer mais do que uma vez na mesma estrofe. No entanto, o modelo mais utilizado pelos trovadores é aquele em que os versos são agrupados dois a dois e em cada par, as formas verbais derivam do mesmo radical. Na estrofe seguinte, esta repetição deve obedecer exactamente ao mesmo esquema, embora se utilizem radicais diferentes. Este excerto da cantiga “Se eu podesse desamar” de Pero da Ponte é um dos exemplos que melhor ilustram este processo:

 

Se eu podesse desamar

a que(n) me sempre desamou,

e podess’algun mal buscar

a quen me sempre mal buscou!

Assi me vingaria eu,

se eu podesse coita dar

a quen me sempre coita deu.

(CA 289)

 

Alguns estudiosos, como V. Beltran, consideram que a repetição de outros tipos de variação morfológica, como o singular e o plural da mesma palavra ou um substantivo e um adjectivo formados partir do mesmo radical, também deve ser incluída no mozdobre. No entanto, deve ser excluído desse processo a repetição léxica que apresenta o feminino e o masculino da mesma palavra, porque possui a designação própria de rima macho-fêmea. O mesmo autor considera que, dada a falta de outra terminologia, também devem ser incluídas no mozdobre aquelas composições cuja repetição ocorre no interior ou no início do verso, com a ressalva dessa repetição se verificar sempre na mesma posição nos diferentes versos e nas sucessivas coplas.

O mozdobre caiu em desuso no séc. XVI.

 

 {bibliografia}

BELTRAN, V. “Mozdobre” in Dicionário da literatura medieval galega e portuguesa, Organização de Giulia Lanciani e Giuseppe Tavani, Caminho, 1993; LE GENTIL, Pierre: La poésie lyrique espagnole et portugaise à la fin du Moyen Âge – Vol.II, Slatkine, 1981(1ª ed.,1953);  PAXECO, Elza «Arte de Trovar portuguesa», Revista da faculdade de Letras, tomo XIII, 2ª série, 1947, p. 53-60; TAVANI, Giuseppe: A poesia lírica galego-portuguesa, Comunicação, 1990; VASCONCELOS, Carolina Michaelis de : edição crítica e commentada do Cancioneiro da Ajuda, I, Halle, 1904.