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WHODUNNIT é um termo do inglês coloquial who done it?, “quem foi que fez isto?”; grafa-se também whodunit. Designa o subgénero da narrativa policial cuja estrutura fundamental assenta na ocultação deliberada da identidade do criminoso até um momento tardio, normalmente final, da acção, organizando-se toda a economia do texto (pistas, suspeitos, álibis, red herrings) em torno do enigma da autoria de um crime, em regra um homicídio. Distingue-se, assim, de outras modalidades do género policial, como o thriller ou o roman noir, pelo primado atribuído ao problema lógico-dedutivo sobre a acção física ou a atmosfera moral: o leitor é convidado a participar num jogo de raciocínio, competindo com o detective (e, idealmente, dispondo das mesmas pistas que este) para resolver o mistério antes da revelação final.

Embora o termo whodunnit seja de cunhagem relativamente tardia – a sua primeira ocorrência registada em publicações americanas data dos anos trinta do século XX, no contexto da crítica jornalística de ficção policial -, a forma narrativa que designa tem raízes mais antigas. Considera-se habitualmente Edgar Allan Poe, com os três contos protagonizados pelo cavaleiro Auguste Dupin, “The Murders in the Rue Morgue” (1841), “The Mystery of Marie Rogêt” (1842) e “The Purloined Letter” (1844), o fundador da estrutura dedutiva que o whodunnit viria a sistematizar. Sir Arthur Conan Doyle, com o seu Sherlock Holmes, consolidou e popularizou esse modelo a partir de 1887, fixando muitos dos procedimentos narrativos (o companheiro-narrador pouco perspicaz, a reconstituição lógica retrospectiva, a cena de revelação) que se tornariam convenções do género.

É, contudo, na chamada “Golden Age” da ficção policial britânica, entre as duas guerras mundiais, que o whodunnit atinge a sua forma canónica e o seu apogeu de popularidade, com autores como Agatha Christie, Dorothy L. Sayers, Ronald Knox e Anthony Berkeley, reunidos, muitos deles, no Detection Club londrino, fundado em 1930. Foi precisamente Ronald Knox quem, em 1929, formulou o célebre “Decálogo” de regras do romance policial, documento fundamental que codificou os princípios de fair play para com o leitor que ainda hoje definem o género na sua forma mais clássica, por exemplo, a proibição de o culpado ser uma personagem cuja linha de pensamento o leitor não pôde acompanhar, ou a exigência de que todas as pistas sejam apresentadas com honestidade. A obra de Christie, sobretudo romances como The Murder of Roger Ackroyd (1926) ou And Then There Were None (1939), tornou-se paradigmática do subgénero pela sua engenhosidade estrutural e pela subversão calculada das expectativas do leitor.

Ao longo do século XX, o whodunnit sofreu recorrentes revisitações paródicas e metaficcionais, de que são exemplo o romance O Nome da Rosa (1980), de Umberto Eco, que sobrepõe ao enigma policial uma reflexão semiótica e histórica, ou, já no cinema contemporâneo, filmes como Knives Out (2019) e a sua sequela, que reactualizam conscientemente as convenções da Golden Age para um público do século XXI.

O género policial de tipo whodunnit teve, na tradição literária portuguesa e brasileira, uma implantação mais tardia e mais rarefeita do que na literatura anglo-saxónica, sendo frequentemente hibridizado com outras tradições narrativas. Em Portugal, é costume apontar-se O Mistério da Estrada de Sintra (1870), de Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, como um antecedente experimental do romance de mistério nacional, embora a obra se aproxime mais do folhetim de enigma do que do whodunnit dedutivo na sua forma canónica posterior. Já no século XX, autores como Francisco José Viegas cultivaram deliberadamente as convenções do romance policial de enigma, com a série protagonizada pelo inspector Jaime Ramos, situando-se claramente na filiação do género clássico de investigação. No Brasil, é incontornável a figura de Rubem Fonseca, cuja obra, embora mais próxima do noir violento do que do whodunnit clássico de salão, contribuiu decisivamente para a legitimação literária do género policial em língua portuguesa; e, num registo mais próximo do enigma clássico, a obra de Patrícia Melo tem explorado estruturas de investigação e revelação tributárias da tradição fundada por Christie e pelos seus contemporâneos.

 

Bibliografia:

  • Auden, W. H. “The Guilty Vicarage”. Harper’s Magazine, vol. 196, Maio de 1948, pp. 406-412.
  • Cawelti, John G. Adventure, Mystery, and Romance: Formula Stories as Art and Popular Culture. U of Chicago P, 1976.
  • Knox, Ronald A. “A Detective Story Decalogue.” Best Detective Stories of the Year, edited by Ronald Knox and H. Harrington, Faber, 1929.
  • Reis, Carlos. O Discurso Ideológico do Neo-Realismo Português. Almedina, 1983.
  • Symons, Julian. Bloody Murder: From the Detective Story to the Crime Novel. Faber, 1972.
  • Todorov, Tzvetan. “Typologie du roman policier.” Poétique de la prose, Seuil, 1971, pp. 55-65.