Movimento literário, estético e ideológico, surgido nas décadas de 1930 e 1940, que concebe a literatura como uma arma de intervenção social e política, estruturada sob a óptica do materialismo histórico (marxismo). O seu projecto literário visa denunciar a exploração capitalista, consciencializar as massas e promover a emancipação das classes oprimidas.
Para compreender o neo-realismo, é indispensável estabelecer a diferença estrutural face ao realismo do século XIX: 1) Enquanto o realismo oitocentista observava criticamente o apogeu e a decadência da burguesia e os vícios da aristocracia, o neo-realismo desce à base da pirâmide social, elegendo o proletariado, o camponês e o marginalizado como o centro nevrálgico da narrativa. 2) No realismo, o foco recai sobre o destino individual (frequentemente trágico) perante as pressões do meio, como a queda moral de um herói ou heroína; no neo-realismo, a personagem funciona como um “tipo” social representativo de uma classe. O verdadeiro protagonista passa a ser o colectivo humano (as massas em luta, as greves, as comunidades oprimidas). 3) O realismo assentava num determinismo biológico e sociológico que gerava um sentimento de fatalismo (o indivíduo é esmagado pelo meio de forma incontornável). O neo-realismo adopta a dialéctica marxista: a História não é estática, é movida pela luta de classes. Assim, a tragédia narrativa neo-realista transporta em si a semente da consciencialização e a esperança revolucionária da transformação do mundo.
O neo-realismo retoma do realismo oitocentista a recusa da idealização, o interesse pela sociedade contemporânea, a observação dos meios sociais e a concepção da literatura como instrumento de conhecimento. A diferença fundamental reside, porém, no enquadramento histórico e ideológico da representação. O realismo do século XIX analisa sobretudo a sociedade burguesa, as suas instituições, os seus costumes e as contradições entre desejo individual e convenção social. O neo-realismo, desenvolvido no contexto da crise económica, da expansão do fascismo, das lutas operárias e da divulgação do marxismo, concentra-se nas estruturas colectivas de exploração e nas relações entre classes. Onde o romance realista tende a explicar a personagem pela educação, pela família, pelo dinheiro e pelo meio social, o romance neo-realista acentua a sua pertença a uma classe e a sua participação num conflito histórico. Assim, o realismo é simultaneamente um movimento literário do século XIX e uma modalidade ampla de representação verosímil; o neo-realismo é uma formação histórica mais delimitada, predominantemente situada no século XX e associada a uma estética de intervenção social. O prefixo neo- não significa simples repetição: indica uma reformulação do legado realista à luz do materialismo histórico, da consciência de classe e da luta contra o fascismo. As diferenças não são, todavia, absolutas. Tanto Eça de Queirós como os neo-realistas criticam instituições e desigualdades; e nem todos os neo-realistas adoptam de forma idêntica uma doutrina marxista. Além disso, as obras mais conseguidas do movimento não se limitam a ilustrar teses políticas: problematizam a relação entre indivíduo e comunidade, exploram a linguagem literária e representam as contradições internas das próprias classes populares.
A emergência do neo-realismo está intimamente ligada ao contexto conturbado de entreguerras: a Grande Depressão de 1929, a ascensão do fascismo e do nazismo na Europa, e a consolidação da União Soviética. A literatura passou a exigir um “engajamento” (compromisso) directo do escritor com o seu tempo. Nos Estados Unidos da América, a crise económica gerou uma ficção de forte pendor social, visível na chamada “Geração Perdida” e nos romancistas da Depressão. John Steinbeck, com As Vinhas da Ira (The Grapes of Wrath, 1939), retratou o êxodo trágico dos agricultores arruinados para a Califórnia. John Dos Passos (na trilogia U.S.A.) introduziu técnicas documentais, recortes de imprensa e multiplicidade de vozes para traçar um fresco crítico da sociedade americana. Em Itália, o termo neo-realismo foi aplicado não só ao cinema (com realizadores como De Sica e Rossellini), mas também a uma literatura forjada na resistência antifascista e no período do pós-guerra, destacando-se autores como Cesare Pavese, Elio Vittorini e o primeiro Italo Calvino (O Atalho das Aranhas, 1947). Importa também referir a afinidade (embora não identidade absoluta) com o realismo Socialista, doutrina estética oficializada na União Soviética nos anos 30 por influência de Máximo Gorki (A Mãe), que exigia uma arte optimista, didáctica e directamente ao serviço da edificação do Estado comunista, uma vertente mais dogmática da qual muitos neo-realistas ocidentais procurariam, mais tarde, distanciar-se esteticamente.
O neo-realismo português, o neo-realismo italiano e certas formas latino-americanas de romance social não constituem um único movimento internacional organizado, embora partilhem a atenção ao quotidiano, às desigualdades sociais e às condições concretas da vida. Uma questão central da estética neo-realista é a relação entre o indivíduo e o grupo. Nas obras iniciais, o protagonismo colectivo pretende contrariar o culto romântico ou burguês da personalidade excepcional. A personagem representa frequentemente uma condição partilhada e adquire consciência da estrutura social de que faz parte. Este princípio pode, contudo, produzir figuras excessivamente tipificadas: o trabalhador solidário, o proprietário explorador, o militante esclarecido ou o pequeno-burguês hesitante. Parte da crítica dirigida ao primeiro neo-realismo incidiu precisamente sobre o esquematismo das personagens, o didactismo e a subordinação da complexidade literária à mensagem ideológica. A evolução do movimento consistiu, em grande medida, na superação desta oposição simples. Em Carlos de Oliveira, Manuel da Fonseca, Fernando Namora e outros autores, as personagens possuem contradições psicológicas, afectivas e morais que não podem reduzir-se à sua função social. A colectividade continua a ser decisiva, mas passa a ser representada através de relações mais complexas entre memória, desejo, linguagem e história.
Em Portugal, o neo-realismo não foi apenas um movimento literário, mas o principal pólo de resistência cultural e ideológica contra a ditadura do Estado Novo e a sua censura. Fortemente influenciados pela ficção nordestina brasileira e pelos romancistas americanos, os autores portugueses voltaram-se para o Portugal profundo e empobrecido. O marco fundador do movimento é a publicação do romance Gaibéus (1939), de Alves Redol, obra que retrata a vida miserável dos camponeses da Beira que desciam ao Ribatejo para a ceifa do arroz, afirmando no prefácio: “Este livro não pretende ser uma obra de arte. Quer ser, antes de tudo, um documentário humano”. A partir daí, formou-se uma constelação brilhante de escritores: Soeiro Pereira Gomes: Esteiros (1941), o grande romance sobre o trabalho infantil, dedicado “aos filhos dos homens que nunca foram meninos”. Manuel da Fonseca: poeta e romancista que imortalizou a revolta do proletariado rural alentejano, nomeadamente em Seara de Vento (1958). Carlos de Oliveira, autor que, em obras como Uma Abelha na Chuva (1953), elevou o neo-realismo a um patamar de superior depuração estilística e poética, afastando-se do mero panfletarismo para atingir uma linguagem contida, lírica e elíptica. Fernando Namora: médico que transpôs para livros como Retalhos da Vida de um Médico (1949) e Domingo à Tarde (1961) a tensão entre o intelectual e o povo.
No Brasil, o equivalente estético e histórico do neo-realismo europeu corporizou-se naquilo a que se convencionou chamar a Segunda Geração Modernista (o Romance de 30) ou o Regionalismo Nordestino. Desencadeado pelo impacto de A Bagaceira (1928), de José Américo de Almeida, este movimento focou-se nas desigualdades abissais do Nordeste brasileiro, na seca, no coronelismo e na herança da escravatura. Graciliano Ramos, na sua obra-prima, Vidas Secas (1938), relata a saga do vaqueiro retirante Fabiano e da sua família (e da inesquecível cadela Baleia). Através de uma linguagem seca, enxuta e árida como a própria caatinga, Graciliano exibe a animalização do homem provocada pela miséria extrema e pela opressão fundiária. Jorge Amado, na sua primeira fase de criação (a chamada fase proletária), produziu romances de forte denúncia social e cariz marxista, como Cacau (1933), Suor (1934) e o célebre Capitães da Areia (1937), sobre os meninos abandonados e delinquentes nas ruas de São Salvador da Bahia. Destacam-se ainda os nomes de José Lins do Rego (Menino de Engenho, 1932, abordando a decadência dos engenhos de açúcar) e Rachel de Queiroz (O Quinze, 1930).
A partir da década de 1950, o neo-realismo português diversificou-se. O conhecimento do existencialismo, da psicanálise e das vanguardas, bem como a evolução política do pós-guerra, conduziram a novas formas de representação. Alguns autores abandonaram o esquematismo inicial; outros aproximaram-se da poesia experimental, do romance psicológico ou da reflexão metaficcional. Por este motivo, costuma distinguir-se uma primeira fase, mais programática e directamente empenhada, de uma segunda fase caracterizada pelo aprofundamento formal e psicológico. Esta divisão é útil, mas não deve ser entendida como uma fronteira rígida: desde as primeiras obras existem diferenças significativas, e a preocupação estética nunca esteve totalmente ausente do movimento. A Revolução de 25 de Abril de 1974 alterou as condições políticas que tinham dado ao neo-realismo parte da sua urgência. O movimento deixou de constituir uma formação literária activa e relativamente coesa, mas o seu legado permaneceu na ficção portuguesa contemporânea. A atenção à desigualdade, ao trabalho, à memória da ditadura, à violência económica e às comunidades marginalizadas continua presente em muitos autores posteriores, ainda que através de formas narrativas distintas.
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