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[Do gr. antanáklasis, “repercussão”.] Figura de linguagem que consiste na repetição de uma palavra nos seus diferentes sentidos, por exemplo, no famoso aforismo de Pascal: “O coração tem razões, que a própria razão desconhece.” No conhecido poema “Autopsicografia”, de Fernando Pessoa, que começa com esta quadra: “O poeta é um fingidor. / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente.”, a palavra “dor” é repetida com sentidos diferentes, porque o próprio Poeta joga com a sinceridade da dor fingida em oposição à dor verdadeiramente sentida.

A antanáclase está próxima da paronomásia e do trocadilho e pode ser sinónima da diáfora. Aristóteles estuda a antanáclase na Retórica, chamando a atenção para o efeito de surpresa que se pode obter com o bom uso desta figura. Isso soube fazer com mestria D. Francisco Manuel de Melo com as variantes e homonímicas e paronímicas possíveis para a palavra “pelo”: “Meus amigos, digo que me pelo por ouvir quatro equívocos. Se eles caem a pêlo, têm a sua galantaria; não já como muitos, que vêm pelos cabelos; apelo eu, que os dissesse.” (Feira de Anexins, I, 1).

Em Fictional Truth (1990), Michael Riffaterre estuda esta figura de retórica para investigar o processo de criação de uma narrativa a partir da silepse.

{bibliografia}

Nobuyuki Yuasa: “Rhetoric in the Sonnets of Sidney, Spenser and Shakespeare: A Morphology of Metaphor, Antanaclasis and Oxymoron”, Studies in English Literature, nº esp., (Tóquio, 1977); Patricia Dorval e, Jean-Marie Maguin: “Playing on Things as Well as Words: Antanaclasis on Screen and Stage”, Cahiers Elisabethains: Late Medieval and Renaissance Studies, 42 (Montpellier, 1992).